É
madrugada. A alguns quilômetros da orla marítima, uma mulher e seis crianças negras
caminham para a margem de um rio. Chove. Homens e mulheres africanos perguntam:
- Por que nos abandonas, mãe?
Maria Slessor pára junto à canoa, volta-se, contempla aqueles semblantes
escuros e fala docemente:
- Não fiquem tristes. Sei que vou para o meio de um povo feroz, mas eles também
precisam ouvir falar de Jesus. Alegrem-se. Eu voltarei. Mas se não voltar, nós
nos encontraremos nas margens do Grande Rio, diante do Grande Pai. E ali
seremos todos de uma só cor, alvos como o marfim.
Em companhia das seis crianças, Maria entra na canoa, e parte, sob o olhar
silencioso da tribo de Creek Town.
Maria Slessor nasceu na Escócia, em 1848. Era loura, de cabelos lisos e olhos
azuis. Aos onze anos de idade foi obrigada a trabalhar na tecelagem para ajudar
financeiramente sua mãe, pois seu pai, alcoólatra inveterado, após a morte de
Roberto, o filho mais velho, abandonou a senhora Slessor e os quatro filhos
restantes. Aos 14 anos Maria já era considerada uma hábil tecelã. Não sabia ela
que futuramente Cristo a incumbiria de tecer as vestes brancas da salvação no
coração dos negros africanos.
Sua mãe era evangélica, membro da igreja de Aberdenn, e costumava contar aos
filhos alguns incidentes da Missão Africana, viasando despertar-lhes o
interesse pela obra missionária. Atentos, eles ouviam a senhora Slessor
falar-lhes de um rei africano e dos seus chefes de cor; das terras e das
boas-vindas que costumavam oferecer aos missionários enviados; dos pretos de
Calabar; de como Hope Waddell fora morar corajosamente no meio dos pântanos, e
ali brilhar como uma luz, pregando aos selvagens o Evangelho de Cristo, e o
quanto a Missão necessitava de obreiros e de manutenção.
Às cinco da manhã, Maria se levantava e ia para a fábrica, onde permanecia até
às dezoito horas. Levava sempre a Bíblia consigo, lendo-a no caminho, quando ia
e quando voltava, e durante os intervalos do seu trabalho. Nessa época
tornara-se membro da igreja de Wishart. Ali, pouco tempo depois, começou a
dirigir uma classe bíblica para meninos rebeldes. Para atrair aqueles que se
recusavam terminantemente a frequentar a classe, ela promovia reuniões ao ar
livre. Certa vez um grupo de rapazes perversos resolveu acabar com uma dessas
reuniões. O líder do grupo aproximou-se de Maria, sob o olhar dos demais,
inclusive das crianças, e começou a girar uma corrente em cuja ponta estava
presa uma bola de ferro. E a girava velozmente, avizinhando-a da cabeça de
Maria, mas esta, encarando-o firmemente, não denunciava nenhum sinal de medo.
"Ela tem coragem" disse o rapaz, desistindo e abaixando o braço com
que segurava a corrente. Em seguida sentaram-se todos, e juntamente com as
crianças assistiram à reunião. Esse incidente contribuiu para mudar a vida
daqueles moços, salientando também a coragem daquela que, não temendo lidar com
garotos rebeldes nem enfrentar rapazes insubordinados, desafiaria, em plena
selva, a agressividade e as lanças dos negros africanos.
A missão de Calabar, na África Ocidental, tinha sido fundada no ano de 1846.
Kurumã estava sendo evangelizado por Robertt Moffat, enquanto David
Livingstone, "o fogo das mil aldeias", abria caminho através de todo
o restante do Continente. O sonho da senhora Slessor era que Roberto, seu filho
mais velho, fosse à África auxiliar o trabalho desses missionários. Mas a morte
prematura do rapaz fê-la pensar que nunca teria um filho missionário.
Quando, em 1874, Maria Slessor completou 26 anos, foi pedida em casamento. Mas
neste mesmo ano o Império Britânico foi abalado com a notícia da morte de David
Livingstone. Fizeram então apelo a voluntários para o continente africano, e
Maria, decidindo entre a obra missionária e o casamento, optou pelo primeiro e
ofereceu-se como missionária para Calabar. Nessa época, ela era aluna da Escola
Normal de Edimburgo, e a coragem em seguir para um lugar conhecido como
"sepultura dos brancos" deixou forte impressão em todos. Em agosto de
1876, no cais de Liverpool, Maria embarcava em um navio que a levaria a um
continente que em nada se assemelhava à sua bela Escócia. Tornava-se então
realidade o sonho da senhora Slessor.

Pelas areias brancas de Cabo Verde, pelo Desembocadouro dos Escravos, pela
Costa do Marfim e pela Costa do Ouro, a bordo do navio "Etiópia",
dois olhos azuis deslizavam sua curiosidade pela misteriosa paisagem que
delineia a navegação costeira. Maria Slessor, recebendo brandamente no rosto a
aragem fresca das praias africanas, contemplava interessadamente aquelas
florestas que se erguiam, hostis e impenetráveis, margeando toda a costa.
Chegando a Calabar, desembarcou e foi conduzida a Duke Town, uma vila litorânea
onde residiam alguns missionários. Ali ela viveu durante quatro anos, ajudando
nos cultos e estudando a língua local e alguns dialetos nativos.
Era madrugada ainda quando Maria se levantava para tocar o sino, convocando os
crentes à oração. O seu espírito, entretanto, ansiava por um trabalho de maior
alcance, a liberdade pioneira, o desbrava-mento daquele solo enegrecido pelo
pecado. Muitas vezes ela caminhava para a mata fechada e contemplava demoradamente
as árvores que se erguiam ao longe, indecifráveis, sumindo no horizonte além.
Era ali que se travavam, entre tribos que praticavam a feitiçaria e o
canibalismo, os choques mais horrendos e cruéis já contemplados pela natureza
humana. E era ali que ela deveria estar, entre eles, modificando-lhes as
práticas da ignorância e falando-lhes do amor de Jesus.
Foi de um vilarejo chamado Cidade Velha que lhe veio o primeiro convite para ir
evangelizar e morar entre os negros. Ela aceitou, agradecendo a Deus. Agora
poderia expandir plenamente a sua vocação missionária. Seguiu para lá
acompanhada de um guia e alguns carregadores. Quando a vereda por onde
caminhavam se dividiu em duas, eles se depararam com um crânio humano enfiado
em uma estaca. Ali estava designada a entrada da Cidade Velha.
Durante mais de dois anos, Maria Slessor viveu naquele povoado como a única
mulher branca entre negros, alegre por estar no meio deles, comendo na mesma
mesa e falando-lhes da obra salvadora de Jesus. As paredes de sua casa eram de
taipa e o teto de palha, e havia sempre várias crianças dormindo ali - órfãos e
desprezados que Maria abrigava. Pensando nestas e nas outras crianças, fundou
uma escola onde lhes ensinava não só o idioma deles, mas também a darem os
primeiros passos nos caminhos eternos. Aos domingos pela manhã, dois meninos
carregando um sino em um pau de bambu, percorriam toda a vila até o local da
reunião, trazendo atrás de si um número sempre crescente de negros curiosos que
se achegavam para ouvir a "Mãe Branca". E quando a noite se declinava
sobre o povoado, recebia sempre em sua fronte escura a claridade do cântico
daqueles nativos que cultuavam a Deus à luz das tochas vermelhas.
Certa vez uma canoa pintada de vivas cores e conduzida por quatro negros de
pele oleosa e rostos pintados de vermelho aproximou-se das margens do rio que
banhava o vilarejo. Era a canoa do rei Ocon, chefe da tribo Ibaca, que a
enviara juntamente com o convite para que Maria fosse morar em sua tribo. Ela
aceitou. Esta seria uma grande oportunidade de evangelizar um povo que
desconhecia Cristo. Logo, toda a Cidade Velha ficou alvoroçada e entristecida.
Mas às três horas da madrugada, despedindo-se de todos, Maria era conduzida rio
acima, sob a cobertura de uma esteira improvisada para protegê-la da chuva e da
água levantada pelos remos. Por um longo espaço de tempo aqueles homens
remaram, e quando a madrugada enrubescia as primeiras horas do dia, sob o
latido de cães e o cantar dos galos, chegaram a Ibaca.

Deram-lhe uma casa semelhante à outra onde morava anteriormente. Multidões
vieram das vilas vizinhas para ver sua pele branca. Pela manhã e à noite
realizava cultos; durante o dia dava remédios aos doentes, fazia curativos em
suas feridas ou lhes aconselhava o que deviam fazer. Homens, ao natural ferozes
e barulhentos, ficavam em completo silêncio ao verem Maria aproximar-se para
lhes contar histórias. Ali, ela falou o Evangelho de Cristo a todos os que se
achegaram para vê-la.
Pelos fins de 1882, um tufão passou com extrema rapidez sobre a vila e derrubou
a casa de Maria. Ela foi levada a Duke Town, mas o seu estado de saúde se
agravou, fazendo-se necessária a sua volta à Escócia. Depois de três anos,
recuperada e novamente pronta para enfrentar as dificuldades, voltou à África,
desta vez dirigindo-se para a tribo de Creek Town. Viveu durante seis meses
nesse povoado, até quando soube que o rei Eio, chefe da tribo Coiong,
praticante da magia negra, a convidara para evangelizar sua tribo. Todos se
opuseram à sua ida, alegando que aquela tribo não merecia confiança e que o
convite era uma cilada. Mas ela não se impressionou, e, acompanhada de seis
crianças e alguns carregadores, embarcou na canoa enviada pelo rei.
Quando alcançaram a desembocadura de Equenque, a canoa foi abandonada, e, sob uma
pesada chuva e o choro das crianças, iniciaram a jornada a pé, através de mais
de uma légua de mata fechada. Sentindo no corpo as roupas encharcarem-se e os
pés atolarem-se na lama, Maria avançava cantando trechos de hinos, a fim de
encorajar as crianças. Mas em certos momentos era tão grande o seu cansaço que
ela só conseguia pronunciar: "Pai, tem misericórda de mim!" Chegaram
finalmente à tribo. Reinava ali um silêncio profundo. Maria gritou e dois
escravos apareceram. Um deles acendeu o fogo e trouxe-lhe água, enquanto o
outro correu com a notícia de que a "Mãe Branca" era chegada.

É noite. Em uma área larga, no centro da tribo, há uma multidão de negros
sentados, formando um grande círculo. As casas, distribuídas de modo a formar
uma larga circunferência, erguem-se em volta dos ombros escuros. No centro da
reunião há uma mesa coberta com uma toalha branca, e, em cima desta, acha-se
aberta uma Bíblia. Quatro tochas presas a estacas se erguem de um lado e do
outro da mesa. As chamas brilham nos rostos atentos. Junto à mesa há vários
chefes sentados. E de pé, com os cabelos adquirindo tonalidade de ouro sob a
vermelhidão das tochas, Maria Slessor prega ao maior ajuntamento de tribos
negras já conseguido de uma só vez. O olhar azul contempla a multidão silenciosa
e atenta. "Para alumiar os que estão no assento das trevas e na sombra da
morte, para corrigir os nossos pés no caminho da paz" (Lucas 1.79), é o
trecho lido naquela noite pelos lábios que ainda se abririam inúmeras vezes
para pregar a Palavra da Vida.
Maria Slessor viveu ainda muitos anos entre as tribos africanas. Através de sua
voz, milhares de negros tomaram conhecimento de Jesus Cristo e milhares o
aceitaram como o Salvador. Ela foi, depois de David Livingstone, a missionária
que mais conduziu negros aos alvos caminhos da salvação. Em janeiro de 1915,
cansada e ainda em plena África, ela foi ao encontro dAquele que, na
grandiosidade do seu sacrifício, foi erguido no madeiro para constituir-se na
esperanç