11 de setembro de 2014

A GLÓRIA DO FILHO Alexandre Mclaren



A GLÓRIA DO FILHO
 Alexander Maclaren (1910)


“[Cristo], o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos Céus e na Terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo da Igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.” (Cl 1:15-18)



Os gregos de Colossos acreditavam que havia uma multidão de seres sombrios para ligar o Céu com a Terra e também acreditavam que a parte material da criação foram criadas por esses seres, pos imaginavam que Deus criara somente a realidade espiritual.

Nesse texto vemos que Jesus Cristo é o criador tanto da matéria como de todo o mundo espiritual. Ele é a cabeça e a fonte da criação; Ele é a cabeça e a fonte da vida para a Sua Igreja. Portanto, Ele é primeiro em todas as coisas, para ser ouvido, amado e adorado. Nós superamos o erro que afligia a Igreja em Colossos, mas as verdades que estão aqui colocadas contra eles são eternas e são necessárias hoje no nosso conflito de opiniões muito mais do que então, a proclamação triunfante de Sua supremacia sobre tudo, em todos os aspectos.


Temos a relação de Cristo e Deus colocada em importantes palavras: “Imagem do Deus invisível.”. Uma imagem é uma semelhança ou representação, como a da efígie do rei sobre uma moeda, mas aqui é aquela que torna o Invisível visível. O Deus que habita na espessa escuridão, afastado da compreensão e acima do pensamento, veio e fez-Se conhecido, e de uma forma muito real veio para o alcance da nossa compreensão na forma humana de Jesus Cristo.
O primeiro pensamento envolvido nessa declaração é que o Ser Divino em Si mesmo é incompreensível e inacessível. “Ninguém jamais viu a Deus, nem pode vê-Lo.” Ele não somente está além da compreensão, mas acima da percepção do entendimento. Ele é “o Rei invisível”, o “Pai das luzes” que habita na gloriosa privacidade da luz, na qual não há trevas de modo algum.

Então, a próxima verdade é que Cristo é a manifestação perfeita de Deus. NEle temos o invisível tornado visível. Por meio Dele conhecemos tudo o que sabemos de Deus, como algo distinto daquilo que supomos ou imaginamos ou suspeitamos dEle.


Os mesmos pensamentos estão envolvidos nas palavras de nosso Senhor: “Aquele que Me vê a Mim vê o Pai.” NEle a natureza divina aproximou-Se numa forma que pudesse ser compreendida em parte pelos sentidos, pois era “a Palavra da Vida” que eles viram com os olhos e as mãos tocaram, e que é hoje e para sempre uma forma que pode ser compreendida pela mente, pelo coração e pela vontade.


No entanto, desejaria que dependêssemos de Cristo para todo o verdadeiro conhecimento de Deus. Suposições não são conhecimento. Especulações não são conhecimento. O que nós, pobres homens, precisamos é a certeza de um Deus que nos ama e tem cuidado por nós, tem um braço que nos pode ajudar e um coração que o deseja.


O inacessível. “Ninguém jamais viu a Deus, nem pode vê-Lo.” Ele não somente está além da compreensão, mas acima da percepção do entendimento. O conhecimento direto e imediato dEle é impossível. As nossas limitações e os nossos pecados nos impedem. Ele é “o Rei invisível”, o “Pai das luzes” que habita na gloriosa privacidade da luz, na qual não há trevas de modo algum. Então, a próxima verdade é que Cristo é a manifestação perfeita de Deus. Nele temos o invisível tornado visível. Por meio dEle conhecemos tudo o que sabemos de Deus, como algo distinto daquilo que supomos ou imaginamos ou suspeitamos dEle.
A única certeza firme o suficiente para encontrarmos poder sustentador contra as tentações da vida está em Cristo. Não há calor suficiente de amor para nós a fim de descongelar nossos congelados lábios à parte de Cristo. Nele e somente Nele, o distante e tremendo Deus se torna um Deus muito próximo, de quem podemos estar seguros de que nos ama e está pronto para ajudar, purificar e salvar. A grande palavra com que Paulo se opôs à teia da especulação dos gnósticos é a palavra para nosso próprio tempo com todas as suas perplexidades: “Cristo é a imagem do Deus invisível”.

Temos o relacionamento de Cristo com a criação publicada neste grande título: “O primogênito da criação.” À primeira vista, isso parece incluí-Lo na grande família de criaturas como a mais antiga e tratá-Lo como uma delas. Esse significado foi atribuído às palavras, mas não é o que podemos depreender da linguagem do próximo verso, que foi adicionado para provar e explicar o título. O título encerra a prioridade em existência e em supremacia. Ele substancialmente significa o mesmo que a outra proclamação do “Filho primogênito”, com a diferença de que a posterior destaca a relação do Filho com o Pai, enquanto a primeira enfatiza Seu relacionamento com a criação. Mais adiante deve ser notado que essa menção se aplica à Palavra eterna e não à encarnação da Palavra, ou, para colocar de outra forma, a divindade e não a humanidade do Senhor Jesus é que o apóstolo tem em vista.

Uma série de cláusulas se seguem colocando mais plenamente a relação do Filho primogênito com a criação, assim confirmando e explicando o título. Todo o Universo está colocado numa classe e somente Cristo à sua frente. Nenhuma linguagem poderia ser mais abrangente. Quatro vezes numa frase temos “todas as coisas”: todo o Universo, mencionado várias vezes e direcionado para Ele como Criador e Senhor; onde quer que essas criaturas estejam e o que quer que sejam, Ele fê-las. Paulo agrupa todo o universo dos seres criados, reais ou imaginários, e, então, acima e separado dEle, o seu Senhor e Criador, o seu princípio e fim. Paulo aponta para a pessoa majestosa do único Filho primogênito de Deus, o Seu primogênito, mais alto do que todos os governantes da Terra, quer sejam humanos ou sobre-humanos.


A linguagem empregada dá um forte destaque aos muitos relacionamentos que o Filho sustenta com o Universo. A primeira dessas palavras, “nEle”, considera-O como o centro criativo, e pode ser comparada àquela no prefácio do Evangelho de João: “NEle estava a vida.” O erro dos gnósticos foi colocar o ato da criação e a coisa criada tanto quanto possível distantes de Deus, e elas são ajuntadas por essa notável expressão que conduz a criação e a criatura a um senso íntimo muito real do restringir da natureza divina, como manifestado na Palavra.

Os perigos possíveis dessa profunda verdade são prevenidos pela próxima proposição usada: “Todas as coisas foram criadas por Ele.” Ele é a imagem do Deus invisível e por meio dEle todas as coisas foram criadas. A mesma conexão de ideias é encontrada na passagem paralela na Epístola aos Hebreus, onde a expressão “pela qual Ele fez o universo” se coloca em conexão imediata com “o Filho é o resplendor da glória de Deus.”

Mas ali resta ainda outra relação entre Ele e o ato da criação. “Por Ele” todas as coisas foram feitas. Todas as coisas vêm dEle e tendem para Ele. Ele é o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. Todas as coisas emergem de Sua vontade, extraem a sua existência daquela fonte e retornam para Ele. Essas relações que são aqui declaradas em relação ao Filho são, em mais de um lugar, ditas em relação ao Pai. A Sua existência antes de toda a criação é repetida com uma força nas palavras “Ele é” que mal pode ser apresentada na nossa língua. A primeira é enfática, “Ele mesmo”, e a segunda enfatiza não somente a preexistência, mas a absoluta existência. Ele era antes de todas as coisas não diria tanto quanto: Ele é antes de todas as coisas.” Somos informados pelas Suas próprias palavras: “Antes que Abraão existisse, Eu sou.”

“Nele subsistem todas as coisas” ou “são mantidas juntas.” Ele é o elemento no qual tem lugar e pelo qual é causada essa criação contínua que é a preservação do Universo, por ser Ele o elemento no qual o ato criativo original teve lugar no passado. Todas as coisas vieram a ser e formam uma unidade ordenada nEle. Ele é “o vínculo da perfeição”, a pedra fundamental da abóbada, o centro de rotação.

Tal então é o ensinamento do apóstolo sobre a Palavra eterna e o Universo. Que pensamento maravilhoso é que todo o curso dos acontecimentos humanos e os processos naturais  era e é dirigido por Aquele que morreu na cruz! O leme do Universo é segurado pelas mãos que foram perfuradas por nós. O Senhor da natureza e motor de todas as coisas é aquele Salvador sobre cujo amor podemos repousar a nossa cabeça dorida. Em todos os lugares podemos ver o nosso Salvador, e do lado de fora de toda a tempestade podemos ouvir a Sua voz através da escuridão dizendo: “Sou Eu, não temas!”.

A última relação nessa importante porção é aquela entre Cristo e a Sua Igreja. “Ele é a cabeça do corpo, da Igreja; é o princípio, o primogênito dentre os mortos.”

Claramente é pretendido que um paralelo seja traçado entre a Sua relação com a criação material e com a Igreja, a criação espiritual. O que a Palavra de Deus antes da encarnação é para o Universo, assim é o Cristo encarnado para a Igreja. Como Ele é o primeiro no tempo e superior em dignidade na primeira ordem, assim Ele é na segunda ordem. Como no Universo Ele é a fonte e a origem de todo o ser, assim na Igreja Ele é o princípio, tanto como o primeiro quanto como à origem de toda vida espiritual. Como as palavras incandescentes que descreveram a Sua relação com a criação começam com o importante título “o Primogênito”, assim aquelas que descrevem a Sua relação com a Igreja encerram-se com o mesmo título numa diferente aplicação.

Temos aqui Cristo, a cabeça, e a Igreja, o Seu corpo. No reino mais baixo, a Palavra eterna era o poder que mantinha todas as coisas juntas, e similar, porém mais elevada em forma, é a relação entre Ele e toda a multidão de almas crentes. O Senhor é a fonte da vida espiritual misteriosa que flui dEle para todos os membros, Ele é a visão no olho, o fortalecimento no braço, a ligeireza nos pés, o rubor na face, sendo abundantemente variado em Suas manifestações, mas um em natureza e tudo dEle. A mesma misteriosa derivação da vida dEle é ensinada na Sua própria metáfora da vide, na qual cada ramo, mesmo que distante da raiz, vive pela vida comum circulante por todos, a qual se apega às gavinhas e se avermelha nos cachos, e não é delas embora esteja nelas.

O conceito de fonte da vida guia necessariamente para o outro: que Ele é o centro da unidade, por quem os “muitos membros” se tornam “um corpo”, e o emaranhado de ramos, uma vide. A cabeça naturalmente vem a ser o símbolo para autoridade, e essas três ideias de base da vida, de centro da unidade e de emblema do poder absoluto parecem ser essencialmente aquelas indicados aqui.

Cristo é o princípio para a Igreja. No mundo natural Ele era antes de tudo e fonte de tudo. A mesma ideia dupla está contida neste título: “o Princípio.” Isso não significa apenas o primeiro membro de uma série que a inicia, como a primeira ligação numa cadeia, mas significa o poder que causa o início da série.

Ele é a cabeça e o princípio para a Sua Igreja por meio da Sua ressurreição. Ele é o primogênito da morte, e a Sua comunicação de vida espiritual para a Sua Igreja requer o fato histórico da Sua ressurreição como base, pois um Cristo morto não poderia ser a fonte da vida, e que a ressurreição complete a manifestação da Palavra encarnada, pela nossa fé nela, para a Sua vida espiritual fluir para o nosso espírito. A menos que Ele ressuscitasse da morte, todas essas reivindicações seriam nada mais que um sábio ensinamento e um caráter integro desintegrado, e pensar nEle como uma fonte de vida seria impossível.

Ele é o princípio por meio da Sua ressurreição também com respeito a Ele levantar-nos da morte. Ele é as primícias daqueles que dormiram e levaram a promessa de uma poderosa colheita. Ele ressurgiu da morte e, dessa maneira, não temos apenas uma demonstração para o mundo de que há vida depois da morte, mas a certeza para a Igreja de que, porque Ele vive, nós também vivemos. Não pode haver um corpo morto e uma cabeça viva. Ele ressurgiu para que pudesse ser o primogênito entre muitos irmãos.

Assim o apóstolo conclui que em todas as coisas Ele é o primeiro, e todas as coisas são para que Ele seja o primeiro. Quer seja em natureza ou em graça, a Sua preeminência é absoluta e suprema. O fim de toda majestade da criação e de todas as maravilhas da graça é que Sua figura única esteja em pé claramente como centro e Senhor do Universo, e o Seu nome seja exaltado acima de todo o nome.


Assim a questão das questões para todos nós é: “O que pensas de Cristo?” Os nossos pensamentos têm de se voltar para o objeto que pode parecer abstrato e remoto, mas essas verdades que estivemos tentando tornar claras e apresentar nas suas conexões não são meros termos ou proposições de uma teologia meio mística distante de nossa vida diária, mas ostentam grave e diretamente a maioria dos nossos mais profundos interesses. “O que é Cristo para nós?” O nosso coração salta com um alegre ámen quando lemos as importantes palavras desse texto? Estamos prontos para coroá-Lo Senhor de tudo? É Ele a nossa cabeça, para nos encher com vitalidade, para nos inspirar e nos comandar? É Ele o alvo e o fim da nossa vida individual? Podemos cada um de nós dizer: “Vivo por Ele, nEle e para Ele”? Somos bem-aventurados se damos a Cristo a preeminência.

http://elescreram.blogspot.com.br/2011/08/alexander-mclarem-o-principe-dos.html

10 de setembro de 2014

ENTENDENDO O LIVRO DE JÓ C. H. Mackintosh

ENTENDENDO O LIVRO DE JÓ

C. H. Mackintosh


 
O livro do Jó ocupa um lugar muito particular na Palavra de Deus. Tem um carácter totalmente próprio, e ensina lições que as não vamos encontrar em nenhuma outra parte do inspirado Volume. Recebemos o livro do Jó como parte das Santas Escrituras e, por conseguinte, para o proveito e bênção do povo de Deus. Recebemos o livro como procedente de Deus, e isto basta-nos. Cremos de todo coração que é um escrito inspirado, e sentimos que não nos incumbe discutir a questão referente a onde, quando ou por quem foi escrito.


 Queira o Espírito eterno — o Autor do livro— explicá-lo e aplicá-lo às nossas almas!

A GRANDE PROSPERIDADE DE JÓ

Na primeira folha deste notável livro vemos o patriarca Jó  rodeado de tudo quanto o mundo podia fazer agradável aos seus olhos, assim como de coisas que neste mundo lhe podiam outorgar um lugar importante. “
Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal.” (Jó 1:1 ) Vemos aqui o que era Jó na sua vida.
VEJAMOS O QUE JÓ POSSUIA-


E nasceram-lhe sete filhos e três filhas. E o seu gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do oriente. E iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem com eles.” (Jó 1:2-4 )
VEJAMOS TAMBÉM O QUE JÓ FAZIA-

Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia ele: Talvez pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim fazia Jó continuamente. (Jó 1:5 )


Aqui temos, pois, um modelo de homem bastante fora do comum. Era perfeito e reto, temeroso de Deus e afastado do mal. Além disso, a mão de Deus o protegia em tudo, e derramava sobre o seu caminho as mais ricas bênçãos. Jó tinha tudo o que o coração pudesse desejar: filhos, abundância de riquezas, honra e distinção sobre todos os que o rodeavam. Numa palavra, quase diríamos que a taça do seu deleite terrestre estava cheia.

O ORGULHO DO JÓ


Mas Jó precisava de ser provado. Abrigava no seu coração uma profunda raiz moral que tinha de ser manifestada à luz; uma justiça própria que tinha de sair à superfície e ser julgada. Podemos, com efeito, vislumbrar esta raiz nos versículos que acabamos de ler. Ele diz: “
Talvez pecaram meus filhos” (Jó 1:5 ). Não parece ter contemplado a possibilidade de que ele mesmo tenha cometido algum pecado. Uma alma que realmente se julgou a si mesma, uma alma quebrantada ante Deus, verdadeiramente consciente do seu próprio estado, das suas tendências e incapacidades, teria pensado nos seus próprios pecados e na necessidade de oferecer um holocausto por si mesmo.

Mas deve ficar claro ao leitor que Jó era um verdadeiro santo de Deus, uma alma divinamente vivificada, um possuidor da vida divina e eterna. Não poderíamos insistir o suficiente sobre este ponto. Ele era um homem de Deus tanto no primeiro capítulo como no último. Se não nos apercebemos disto, privar-nos-emos de uma das grandes lições deste livro. O versículo 8 do primeiro capítulo estabelece este ponto fora de toda a dúvida:              
“E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal. (Jó 1:8 )


Todavia, apesar disso, Jó nunca tinha sondado as profundidades do seu próprio coração. Não se conhecia a si mesmo. Nunca tinha captado realmente a verdade da sua própria condição de ruína, da sua total corrupção. Jamais tinha aprendido a dizer: “
Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm 7:18 ) Se não se compreender este ponto, não se entenderá o livro de Jó. Não captaremos o objetivo específico de todos esses profundos e penosos exercícios pelos quais Jó teve que passar, a menos que tenhamos clarificado o solene fato de que a sua consciência nunca tinha estado realmente na presença divina, que ele nunca se tinha examinado ante a luz, que jamais se mediu com a vara divina e que nunca se tinha pesado na balança do santuário de Deus.


Se nos remetermos por uns instantes ao capítulo 29 acharemos uma prova fidedigna do que acabamos de afirmar. Veremos ali de forma clara a profunda e robusta raiz da satisfação pessoal que havia no coração deste querido e honrado servo de Deus, e a maneira como esta raiz se nutria dos mesmos sinais do favor divino que a rodeavam. Este capítulo encerra um patético lamento pelo brilho embaciado dos seus dias passados; além disso, o tom e o caráter deste lamento deixam manifesto quão necessário era que Jó se despojasse de tudo a fim de conhecer-se si mesmo à luz da presença divina que tudo esquadrinha. Escutemos suas palavras:

AH! QUEM ME DERA SER COMO EU FUI NOS MESES PASSADOS, COMO NOS DIAS EM QUE DEUS ME GUARDAVA! QUANDO FAZIA RESPLANDECER A SUA LÂMPADA SOBRE A MINHA CABEÇA E QUANDO EU PELA SUA LUZ CAMINHAVA PELAS TREVAS. COMO FUI NOS DIAS DA MINHA MOCIDADE, QUANDO O SEGREDO DE DEUS ESTAVA SOBRE A MINHA TENDA;

QUANDO O TODO-PODEROSO AINDA ESTAVA COMIGO, E OS MEUS FILHOS EM REDOR DE MIM. QUANDO LAVAVA OS MEUS PASSOS NA MANTEIGA, E DA ROCHA ME CORRIAM RIBEIROS DE AZEITE; QUANDO EU SAÍA PARA A PORTA DA CIDADE, E NA RUA FAZIA PREPARAR A MINHA CADEIRA, OS MOÇOS ME VIAM, E SE ESCONDIAM, E ATÉ OS IDOSOS SE LEVANTAVAM E SE PUNHAM EM PÉ; OS PRÍNCIPES CONTINHAM AS SUAS PALAVRAS, E PUNHAM A MÃO SOBRE A SUA BOCA; A VOZ DOS NOBRES SE CALAVA, E A SUA LÍNGUA APEGAVA-SE AO SEU PALADAR. OUVINDO-ME ALGUM OUVIDO, ME TINHA POR BEM-AVENTURADO; VENDO-ME ALGUM OLHO, DAVA TESTEMUNHO DE MIM; PORQUE EU LIVRAVA O MISERÁVEL, QUE CLAMAVA, COMO TAMBÉM O ÓRFÃO QUE NÃO TINHA QUEM O SOCORRESSE. A BÊNÇÃO DO QUE IA PERECENDO VINHA SOBRE MIM, E EU FAZIA QUE REJUBILASSE O CORAÇÃO DA VIÚVA. VESTIA-ME DA JUSTIÇA, E ELA ME SERVIA DE VESTIMENTA; COMO MANTO E DIADEMA ERA A MINHA JUSTIÇA.

EU ME FAZIA DE OLHOS PARA O CEGO, E DE PÉS PARA O COXO. DOS NECESSITADOS ERA PAI, E AS CAUSAS DE QUE EU NÃO TINHA CONHECIMENTO INQUIRIA COM DILIGÊNCIA. E QUEBRAVA OS QUEIXOS DO PERVERSO, E DOS SEUS DENTES TIRAVA A PRESA. E DIZIA: NO MEU NINHO EXPIRAREI, E MULTIPLICAREI OS MEUS DIAS COMO A AREIA. A MINHA RAIZ SE ESTENDIA JUNTO ÀS ÁGUAS, E O ORVALHO PERMANECIA SOBRE OS MEUS RAMOS; A MINHA HONRA SE RENOVAVA EM MIM, E O MEU ARCO SE REFORÇAVA NA MINHA MÃO. OUVIAM-ME E ESPERAVAM, E EM SILÊNCIO ATENDIAM AO MEU CONSELHO.
HAVENDO EU FALADO, NÃO REPLICAVAM, E MINHAS RAZÕES DESTILAVAM SOBRE ELES; PORQUE ME ESPERAVAM, COMO À CHUVA; E ABRIAM A SUA BOCA, COMO À CHUVA TARDIA. SE EU RIA PARA ELES, NÃO O CRIAM, E A LUZ DO MEU ROSTO NÃO FAZIAM ABATER;
EU ESCOLHIA O SEU CAMINHO, ASSENTAVA-ME COMO CHEFE, E HABITAVA COMO REI ENTRE AS SUAS TROPAS; COMO AQUELE QUE CONSOLA OS QUE PRANTEIAM. AGORA, PORÉM, SE RIEM DE MIM OS DE MENOS IDADE DO QUE EU, CUJOS PAIS EU TERIA DESDENHADO DE PÔR COM OS CÃES DO MEU REBANHO. (JÓ 29:2 A 30:1 )


Estas, certamente, são expressões muito notáveis. Em vão procuraremos aqui os suspiros de um espírito contrito e quebrantado. Não há sinais de nenhum aborrecimento próprio, nem muito menos de uma desconfiança em si mesmo. Expressões que manifestem consciência de debilidade ou de insignificância, brilham pela sua ausência. Só no decurso deste capítulo, Jó menciona-se a si mesmo mais de quarenta vezes, enquanto que os seus pensamentos não se dirigem a Deus mais do que cinco vezes.

Este constante predomínio do eu faz-nos recordar o capítulo sete de Romanos “Não sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido. Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra. Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado. E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento que era para vida, achei eu que me era para morte. Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele me matou. E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom. Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno. Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.” (Rm 7:1-25);
 Mas há que assinalar uma importantíssima diferença, a saber, que no capítulo sete de Romanos, o eu é uma pobre, débil, imprestável e miserável criatura que se acha em presença da santa lei de Deus; enquanto que em Jó 29, o eu é um personagem de destacada importância e influência, um personagem admirado e quase adorado pelos seus semelhantes.




Tradução de Carlos António da Rocha

9 de setembro de 2014

Johann Sebastian Bach

Johann Sebastian Bach


No castelo de Wartburg, algum tempo antes, Lutero havia-se recolhido para traçar os planos da Reforma. Ali mesmo Bach compôs muitas de suas obras.

O mesmo espírito que presidiu à Reforma foi o que deu vida e força à sua obra: a paixão pelo Cristianismo na sua pureza primitiva. A grande obra da vida de Bach foi oferecer-nos uma versão musical do Cristianismo. Os pintores do Renascimento, os seus escultores e arquitetos, cuidaram de fixar o espírito cristão em linhas, cores e volumes. Bach transformou o Cristianismo em som. E essa versão é, sem dúvida, a mais fiel, a mais pura e a mais profunda. Há, entre a música e o Cristianismo, um parentesco íntimo. Em ambos o que vale é o que não se vê, o real é o que está acima dos nossos sentidos. O Reino de Cristo não é o mundo físico: o seu domínio começa justamente onde termina a nossa capacidade de ver, de compreender e de sentir. 

O reino de Cristo é uma linguagem além das palavras, uma escada que nos liga ao mundo que os nossos pés não podem atingir, mas onde a nossa alma se sente como na sua própria pátria. A música no Cristianismo representa um esforço no sentido do crente se libertar do frio e imutável silêncio que o cerca, para entrar em comunhão com o Seu Criador, Salvador e Senhor, que o acolhe.

O Cristianismo foi a grande paixão do tempo de Bach, e a sua própria. Ele é protestante no exato sentido de Lutero: o seu desejo era o retorno à verdadeira doutrina de Cristo, isenta das adaptações e das interpretações dos Padres. A sua música fixa e exalta de tal forma esse sentimento que dá a impressão de uma longa prece, que sobe aos Céus e vai até ao Trono de Deus. A linguagem musical de Bach alcançou uma significação universal porque é a expressão do anseio e da esperança do imutável coração humano de se encontrar com o Seu Salvador. Não apenas as suas energias espirituais cristãs, mas todas as forças espirituais cristãs do seu tempo se reuniram em torno da criação do seu estilo.

As cantatas de Bach arrastam-nos para um mundo de estranhas, majestosas e fantásticas visões. Bach levou o estilo barroco às últimas consequências. A sua polifonia é tão intrincada, a floresta da sua música é tão densa, que os próprios contemporâneos não chegaram a perceber a sua beleza selvagem. Ele é tão claro e ardente quanto o Sol, que ninguém consegue olhar a olho nu. Foi necessário que a névoa do tempo se interpusesse entre ele e nós para podermos contemplar o seu fulgurante esplendor. O barroco de Bach é a vida em plenitude, a vida na sua impetuosidade de anseios, de beleza, de miséria e de infinita beleza. Bach sentiu a música como uma porta aberta para o Eterno, a qual é dada ao homem cristão, para ele poder consolar-se da sua miséria e das suas fraquezas, quer alegrando-se com a esperança da sua vocação eterna, para comunicar-se com o Ser Divino, com o mundo dos seus anseios, a pátria das suas íntimas esperanças, o Paraíso de Deus!


É ouvindo uma cantata de Bach que somos tocados pela compreensão da nossa presença no mundo e do sentido do nosso destino. Fomos feitos, como os pássaros, como as flores, para louvor e honra do nosso Criador. O desejo mais alto de Bach foi chegar a Deus. E conseguiu esse intento libertando-se de toda a contingência humana e pondo toda a sua esperança no sacrifício vicário de Jesus. Bach buscou traduzir em música esse seu sentimento de alegria na vitória final de Jesus. E fê-lo com tanta força criadora e com tanta sinceridade, que é, ainda hoje, escutando a sua maravilhosa música que os Cristãos são como que transportados ao Céu e dialogam com Deus.



Não se pode dizer que Bach foi o maior dos músicos, porque não há fita métrica para medir o génio. E como as árvores, os homens devem ser avaliados, não pela sua aparência, mas pelas raízes que têm sobre a Terra. Essas raízes são o sustentáculo contra o vendaval do tempo, que tudo leva de roldão. Nesse sentido Bach dispõe de uma situação privilegiada. A sua fortaleza é uma glória inexpugnável já que tem as suas raízes numa fé simples e sincera na obra de salvação do Seu Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A música de Bach é densa e impenetrável como uma floresta tropical. Os que, no entanto se aventuram a enfrentar os perigos dessa selva, descobrem no seu interior maravilhosas estradas, calçadas de pedrarias raras e atapetadas de flores, que nos induzem ao distante e verdadeiro Reino de Emanuel.



Os Evangelistas trouxeram-nos, através de palavras, até nós a lição de Cristo. Bach compreendeu que o Homem vive longe do Seu Criador. O Homem perdido nos seus pecados tem medo do Seu Criador, não compreende as coisas espirituais. Bach era um crente em Jesus. Na sua obra Jesus surge na sublime apoteose da pureza, como o Filho do Homem, capaz de sentir as dores e as alegrias, e, sobretudo, o Salvador capaz de perdoar os pecados e as fraquezas, que são as contingências da nossa natureza e os símbolos do nosso nada. Desde o “Oratório de Natal” até as “Paixões”, Bach acompanha toda a vida terrena de Jesus. Nunca na música o espírito de Cristo foi tão bem fixado.

Em Mülhlausen, confessou humildemente: “Tive sempre o pensamento de fazer progredir a música, para maior glória de Deus”.


No “Orgelbüchlein”, em que reúne uma série de trabalhos compostos em Weimar, Bach escreveu essa epígrafe: “Para maior glória do Altíssimo e melhor instrução do próximo”

.”

A música de Bach valorizava e purificava todos os temas. Nas suas mãos os temas mais comuns adquiriam brilho e o esplendor. Transformou, seguindo o exemplo de Lutero, canções licenciosas e picantes em corais piedosos.

De tal maneira a música de Bach fixa a alegria da Terra, dos homens simples e das almas puras, pela vinda do Salvador!


A arte tem, sobre as demais atividades humanas, a vantagem de estar liberta das contingências do tempo. Um estudante de astronomia pode hoje refutar Aristóteles; muita da ciência de Platão faz rir, agora, ao aluno mais medíocre; um neófito na medicina muito teria a ensinar a Hipócrates. No terreno da Música, tudo se passa diferentemente. Há, sim, um torvelinho de escolas e estilos, de linguagens e expressões. Mas uma obra, como a de Bach, que expressa uma concepção do mundo e simboliza o sentido de uma época, jamais será superada. As gerações hão de reverenciá-la pelos séculos fora, como uma das mais altas expressões do espírito humano, que nela se fez música para viver além do tempo e levar a Deus a gratidão do homem crente, satisfeito com a obra redentora de Jesus Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus!

Antes, durante, e após, a audição de música de Bach, eu apenas pronuncio: “Assim, os justos louvarão o Teu nome; os retos habitarão na Tua presença.” Sl 140:13


Artigo de Carlos António da Rocha

A FORÇA DO HOMEM NADA FAZ SOZINHO ESTÁ PERDIDO Lloyd-Jones


A FORÇA DO HOMEM NADA FAZ
SOZINHO ESTÁ PERDIDO



Por David Martyn Lloyd-Jones

A questão final com que nos defrontamos é: O que é que impede este ou aquele Cristão de cair e perder-se? Se não for o que temos dito aqui, isto é, que somos “chamados segundo o Seu propósito” e que, porque é Seu propósito, Ele próprio nos impede de cair, bem, então, que será que nos guarda e nos impede de cair? Consideremos a situação daqueles que acreditam ser possível um Cristão regenerado, nascido de novo, ir definitivamente para a perdição, cair e perder a posição de estar “em Cristo”.

O que tais pessoas acreditam é que há dois tipos de Cristãos: um deles se manterá seguro à verdade e à fé, e finalmente chegará à glória; o outro não consegue manter-se seguro, por um motivo ou outro, cai, e vai para a perdição. Elas explicam a diferença entre estes dois Cristãos asseverando que um teve vontade e desejo de manter-se seguro, e que o outro não teve essa vontade e esse desejo. A diferença é determinada inteiramente pela vontade, pelo desejo e pela determinação pessoal do Cristão particular. Sobre esse pressuposto, esta é a única conclusão a que se pode chegar.


Entretanto, se isso fosse verdade, uma decorrência seria que tal pessoa é mais forte do que Adão antes da Queda. Adão era perfeito e estava sem pecado. Tinha livre-arbítrio completo, mas escolheu deliberadamente dar ouvidos ao diabo, e por isso caiu e causou as consequências que bem conhecemos, nele e em sua progénie. Disso decorre que aquele que por seu próprio esforço conseguisse manter-se na fé teria vontade e determinação mais fortes do que as que Adão tinha. Pode-se, porém, replicar: “O Cristão está em melhores condições do que Adão; ele recebeu vida divina de Cristo e, portanto, tem algo superior ao que Adão tinha. Ele recebeu em seu ser nova vida de Deus, e é isso que o capacita a permanecer firme de um modo que Adão era incapaz de o fazer”. Mas esse argumento não nos ajuda nada, pois todos os Cristãos, por definição, receberam essa mesmíssima nova vida. Por conseguinte, isso não explica a diferença. A causa da diferença não pode ser a nova vida recebida, porque ambos os grupos a possuem. Somos induzidos à inevitável conclusão de que, em última análise, o que mantém o Cristão na sua fidelidade ao Senhor não é nada mais nada menos do que o poder da vontade e determinação do próprio homem. É uma qualidade natural e, portanto, a sua conclusão final é que não é a regeneração que determina a salvação final; é uma força natural de vontade e de entendimento, um poder inerente ao homem. Quer dizer, você é induzido a uma conclusão que está em completa contradição com a doutrina da graça. O homem não é finalmente salvo devido à ação de Deus pela qual Ele lhe dá nova vida e o regenera. O fator determinante é a capacidade pessoal do homem em persistir apegado à fé; alguns a têm, outros não. É uma qualidade natural e, assim, é uma final contradição de todo o ensino bíblico concernente à salvação, e especialmente da regeneração. Essa é a conclusão à qual você será levado inevitavelmente, se rejeitar esta doutrina da perseverança final dos santos, que se baseia no propósito de Deus [...]


Se a doutrina da perseverança não fosse verdadeira, então, se acaso você se visse na glória, a glória teria que vir a si por ter-se empenhado em permanecer firme e seguro. Você, como muitos outros, receberam a mesma dádiva da salvação; os outros, tolamente, não se agarram a ela, mas você agarrou-se e continua assim. Portanto, a glória vem a si pelo seu empenho em segurar-se à bênção da salvação. Entretanto isso é uma completa contradição do ensino das Escrituras, de capa a capa. Não há quem possa gabar-se quanto a esta questão. “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”. O homem não tem coisa alguma de que se gabar. E quando eu e vocês chegarmos ao céu, perceberemos plenamente que lá estamos, não porque nos seguramos firmemente quando outros desistiram, e sim porque Ele nos segurou, porque estamos no propósito de Deus e porque Ele nos guardou, apesar de nós mesmos, da nossa fraqueza e da nossa tendência de seguir os nossos caprichos pessoais. E daremos a Ele todo o louvor, toda a honra e toda a glória. Veremos que esse foi o Seu glorioso plano do princípio ao fim, e adoraremos o Cordeiro, o Filho de Deus, que realizou tudo isso. A Ele cabe toda a glória. A salvação é um feito inteiramente Seu, e o louvor e a glória são devidos a Ele, e somente a Ele.


Martin Lloyd-Jones

(Extraído do livro A Perseverança Final dos Santos)

2 de setembro de 2014

A alegria do Senhor é a vossa força David Wilkerson


"A alegria do Senhor é a vossa força" (Ne 8:10).

David Wilkerson
Quando essas palavras foram ditas, Israel havia recém voltado do cativeiro da Babilônia e liderados por Neemias eles estavam
reconstruindo os muros caídos de Jerusalém com 7200 servos, 245 cantores levitas e mais de 50000 pessoas ao todo.
 O primeiro mover de Deus na volta do seu povo foi o despertar de uma fome pela palavra. “ E o povo insistia com Esdras, o escriba para ele trazer livro da lei de Moisés...”
Esdras então, pregou para a
multidão por cinco ou seis horas, “ ...da manhã até ao meio dia”(Ne 8.3) e ninguém estava preocupado com o tempo “ os ouvidos de todos estavam atentos para o livro da lei “. Estas pessoas estavam totalmente cativadas pelo poder da palavra do Senhor.


Que cena incrível, meus irmãos! Você não vê isso nas igrejas modernas hoje em dia, mas eu lhes afirmo, que o verdadeiro avivamento nunca virá sem que primeiro venha uma grande fome pela palavra de Deus, mas o contrário também é verdade, quando o povo de Deus começa a desdenhar a sua preciosa palavra, a morte espiritual toma o seu curso e a alegria do Senhor se vai.

Apesar de tantos recursos que temos hoje em dia, como som de qualidade, bons músicos, cadeiras confortáveis, nos muros de Jerusalém não havia pregadores eloqüentes e nem sermões sensacionais, Esdras lia as escrituras para o povo assim como ela era e isso por horas sem que ninguém arredasse os pés do lugar e nem ficasse reclamando da demora, mas pelo contrário, quando mais passava o tempo, mais eufóricos eles ficavam. Até mesmo Esdras, ficava tão entusiamado, que de quando em quando parava para “bendizer o nome do Senhor”(Ne8.6).
Então a glória do Senhor caiu sobre a congregação e todos erguiam as mãos para celebrar o santo nome do Senhor. As pessoas se prostravam diante de Deus em humildade, arrependimento  e adoração.
Notem que ninguém contava testemunhos emocionantes e histórias pitorescas para captar a atenção do povo. O poder inerente da palavra de Deus tomava o seu curso e quebrava todos os grilhões.

Eu creio que Deus quer fazer o mesmo nos dias de hoje. Produzir um avivamento na palavra, desencadear uma fome sem precedentes, um desejo incontrolável de ouvir a voz de Deus.


O resultado deste  poderoso mover foi uma onda de quebrantamento  entre os ouvintes.


Meio dia de pregação não foi suficiente para estes famintos israelitas. Eles queriam mais de Deus, então eles formaram grupos de e foram levantados 17 anciões para auxiliarem Esdras na ministração da palavra.
E assim que as pessoas iam ouvindo a palavra de Deus elas começavam a se lamentar por seus pecados (Ne 8.9)

Eu já experimentei esse tipo de ajuntamento santo do povo de Deus. Quando era criança, nossa família ia no “ Living  Waters Camp Ground ” na  Pennsylvania. A segunda vinda de Jesus era pregada com tanto poder e autoridade que todos esperavam que o retorno Dele se daria antes do sol se por naquele dia. Um temor santo se apoderou da igreja e muitos caiam prostrados no chão. Alguns chegavam a sentir o calor das chamas do inferno debaixo de seus pés.

As vezes a palavra de Deus era pregada por todo o dia e durante uma parte da noite. No outro dia pela manhã era comum encontrar pessoas na sala de oração que haviam passado a noite toda intercedendo e alguns tinham de ser levados, pois não tinham forças para caminhar.
Foi numa noite daquelas que o Senhor me chamou para pregar a sua palavra, com a idade de oito anos. Eu estive no Espírito por horas, quebrantado e chorando muito, a palavra de Deus se tornou viva em meu coração. O retorno de Cristo se tornou uma verdade imediata para a minha vida. Jamais esquecerei tão maravilhosa experiência.    

Nós temos que entender que este avivamento que aconteceu em Jerusalém não era para pecadores não convertidos, mas era para aqueles cuja luz do evangelho estava se apagando em seus corações.
Igualmente, apenas alguns poucos pecadores perdidos iam ao “Living Waters camp meeting”.
Nos dois casos, o Senhor está renovando seus filhos, livrando eles da corrupção, dando a eles um batismo de alegria no Espírito e fortalecendo suas mãos decaídas e seus joelhos trôpegos.
O testemunho de Deus para  o mundo não é a cena de seu povo prostrado no chão chorando. Não, mil vezes não. O testemunho que Deus quer proclamar através de seu povo é a ALEGRIA, genuína e transbordante alegria.
“ A alegria do Senhor é a vossa força “
Essa alegria, que é resultado da pregação bíblica e verdadeiro arrependimento, trazem força para a igreja de Cristo e atraem pecadores para a casa de Deus.

Muitos cristãos não conseguem associar alegria com arrependimento, mas o arrependimento é exatamente a mãe de toda a alegria em Jesus.
Sem arrependimento pelos pecados não pode haver a alegria no Espírito Santo.


Mas todo cristão que anda em humildade e quebrantamento, que são fruto de um coração arrependido tem em seus olhos estampados a alegria dos céus.