8 de janeiro de 2011

J. C. Ryle

J. C. Ryle (1816-1900) Bispo anglicano contemporâneo ao grande pregador Charles Haddom Spurgeon e que desponta como um dos mais eminentes representantes da fé genuína no século XIV. John Charles Ryle nasceu em Macclesfield, em 10/05/1816 e foi educado em Eton e no Christ Church, em Oxford. Ryle foi um apoiador da escola evangélica e um crítico do ritualismo. Totalmente dedicado à doutrina evangélica, Ryle não comprometia seus princípios. Foi um escritor prolífico, um pregador vigoroso e um pastor fiel. Estudando em Oxford, remou e jogou críquete; depois foi convidado a lecionar, o que declinou. Como filho de um rico banqueiro, estava destinado a uma carreira política, antes de ser chamado pelo Senhor da seara para o Seu ministério. Em 1838, Ryle foi despertado espiritualmente enquanto lia Efésios 2 na igreja. Foi ordenado bispo em Winchester em 1842. Por 38 anos pastoreou Helmingham e depois Stradbrooke, em Suffolk. Também foi líder do partido evangélico na Igreja da Inglaterra, destacando-se por seus escritos doutrinários e polêmicos. Em 1880, com 64 anos, tornou-se o primeiro bispo de Liverpool, pela recomendação do PM Benjamin Disraeli. Aposentou-se em 1900, aos 83 e morreu no mesmo ano, em 10/06. Ryle combinou seu espírito de liderança e sua vigorosa defesa evangélica com graça e amabilidade em seus relacionamentos pessoais. Um vasto número de homens e mulheres da classe trabalhadora frequentavam suas pregações e muitos foram levados à fé em Cristo. http://escoladeprofetasmic.wordpress.com/biografias/imagem-j-c-ryle/ Textos de J. C. Ryle (10 de Maio de 1816 - 10 de Junho de 1900) NÃO QUERO PERDOAR Em Mateus 18.21-35, o Senhor Jesus abordou um assunto de máxima importância — COMO DEVEMOS PERDOAR AS OFENSAS. Vivemos num mundo maligno, e é inútil esperar que consigamos escapar aos maus tratos, por mais cuidadosamente que nos comportemos. Saber como nos devemos comportar, quando somos maltratados, é algo importantíssimo para as nossas almas. Em primeiro lugar, o Senhor Jesus estabeleceu uma regra geral, de que devemos perdoar às outras pessoas o máximo. Foi Pedro quem apresentou a indagação: "Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?" E, como resposta, Jesus disse-lhe: "Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete". A regra aqui estabelecida, naturalmente, precisa ser interpretada com sobriedade. O nosso Senhor não quis dar a entender que as transgressões contra as leis da Terra e contra a boa ordem social devam ser desconsideradas e passadas em claro. Ele também não quis dizer que devamos permitir que as pessoas cometam furtos e assaltos com a impunidade. Tudo quanto Ele quis dizer é que devemos manter uma atitude geral de misericórdia, dispostos a perdoar aos nossos irmãos e semelhantes. Precisamos tolerar muita coisa e suportar muitas injustiças, ao invés de logo entrarmos em conflito com os nossos ofensores. Também devemos abrandar sobre muitas coisas, submetendo-nos a muitas imposições, antes de entrarmos em choque com outras pessoas. E, da mesma maneira, devemos repelir tudo quanto tenha aparência de malícia, de contenda, de vingança ou de retaliação. Sentimentos dessa ordem servem apenas para os incrédulos, pois são totalmente indignos de qualquer discípulo de Cristo. Quão mais abençoada seria a vida neste mundo, se essa norma ditada por nosso Senhor fosse mais largamente reconhecida e melhor obedecida! Quantas das desgraças que sobrevêm à humanidade são ocasionadas por disputas, querelas, acções judiciais e um aobstinada tenacidade quanto àquilo que os homens costumam intitular de "meus direitos"! Quantos conflitos entre os homens poderiam ser evitados, se ao menos os homens se dispusessem mais ao perdão, e desejassem mais que a paz imperasse! Nunca nos deveríamos esquecer que nenhuma fogueira pode continuar queimando sem lenha. Da mesma maneira, são necessárias duas pessoas para que comece uma briga. Portanto, que cada uma das duas pessoas resolva, pela graça de Deus, que não contribuirá para que a briga tenha início e prossiga. Antes, devemos resolver pagar o mal com o bem, e a maldição com a bênção, dissipando assim toda inimizade e transformando os nossos adversários em amigos (Rm 12.20). Era uma excelente qualidade de carácter do arcebispo Cranmer que, se alguém chegasse a ofendê-lo, certamente acabaria tornando-se amigo dele. Em segundo lugar, nosso Senhor supriu-nos dois poderosos motivos para exercitarmos um espírito perdoador. Jesus contou a história de um homem que devia uma enorme quantia ao seu senhor; mas, como não tinha "com que pagar", chegado o momento da prestação de contas, o seu senhor compadeceu-se dele "e perdoou-lhe a dívida". E Jesus continuou dizendo que esse mesmo homem, após haver sido perdoado, encontrando-se com um seu companheiro que lhe devia uma importância insignificante, recusou-se a perdoar-lhe. Além disso, aquele servo exigiu que o seu conservo fosse lançado no cárcere, não querendo perdoar-lhe a mínima parcela da dívida. Finalmente, conforme o Senhor Jesus ajuntou, o castigo sobreveio àquele servo cruel, que não se dispunha a perdoar. Porquanto, após ter-lhe sido mostrada misericórdia, ele também deveria ter-se mostrado misericordioso para com o seu semelhante. E o Senhor Jesus conclui a sua parábola com estas impressionantes palavras: “Assim vos fará também meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas.” (Mt 18:35 ARC1995) Nesta parábola de Jesus fica patenteada a verdade que um dos motivos para perdoarmos aos nossos semelhantes deveria ser a lembrança de que todos precisamos ser perdoados diante de Deus. Dia após dia, caímos em muitas transgressões e ficamos muito aquém do que deveríamos ser, e "deixamos de fazer, e fazemos aquilo que não deveríamos fazer". Dia após dia, solicitamos de Deus misericórdia e perdão. As ofensas que outras pessoas têm praticado contra nós são coisas desprezíveis, em confronto com as nossas gravíssimas ofensas contra o Senhor. Sem dúvida alguma, não condiz com a nossa condição de pobres criaturas pecaminosas, como somos, mostrar-nos excessivamente severos, fazendo cobrança por causa de pequenas falhas que os nossos irmãos na fé cometem contra nós, ou mostrando-nos inclinados a não perdoá-los prontamente. Uma outra razão para que nos mostremos dispostos a perdoar às outras pessoas deveria ser a lembrança acerca do Dia do Juízo Final, por causa do padrão que será utilizado naquele dia, acerca de todos os que forem julgados. Naquele dia, não será dado perdão aos indivíduos que não se dispuseram a perdoar os seus semelhantes. Esses indivíduos, na verdade, não estão aptos para viver no Céu. Pois não seriam capazes de dar o devido valor a um lugar de habitação onde a "misericórdia" é o único título de posse, onde a "misericórdia"é o tema do cântico perene. Sem dúvida, se estamos planeando sermos um daqueles que estarão em pé, à direita de Jesus, quando Ele se sentar no Seu trono de Glória, então teremos de aprender a ser perdoadores, enquanto ainda estamos neste mundo. Que essas verdades lancem raízes profundas nos nossos corações. É um triste facto que tão poucos mandamentos cristãos estejam sendo postos em prática com tanta parcimónia e má vontade como o dever de perdoarmos ao próximo. E é entristecedor verificarmos quanto amargor de espírito, quanto falta de compaixão, quanto despeito, quanta dureza e quanta falta de gentileza se manifestam entre os homens. No entanto, poucos mandamentos são tantas vezes ressaltados, nas Escrituras do Novo Testamento, como esse. Mas, poucas outras falhas de carácter são capazes de fechar tão definitivamente a um homem as portas do Reino de Deus, como essa. Queremos dar provas de que realmente fomos reconciliados com Deus, lavados no sangue de Cristo, nascidos do alto pelo poder do Espírito Santo, e feitos filhos de Deus por adopção, em resultado da graça divina? Então não nos esqueçamos desse passo bíblico. Seguindo o exemplo dado por nosso Pai celestial, disponhamo-nos a perdoar os nossos ofensores. Porventura, fomos ofendidos por alguém? Que perdoemos o tal, agora mesmo. É conforme comentou Leighton: "Deveríamos perdoar pouco a nós mesmos, e muito aos outros". Pretendemos ser elementos benéficos à humanidade? Queremos exercer uma influência positiva sobre os nossos semelhantes, para que percebam quão excelente é a Religião Cristã? Então não nos esqueçamos dessa passagem. Indivíduos que não se importam com as doutrinas cristãs, podem compreender perfeitamente bem o temperamento perdoador de um crente. Queremos desenvolver-nos pessoalmente na graça, tornando-nos mais santos, em toda a nossa formação, e em todas as nossas palavras e obras? Então não nos esqueçamos dessa passagem. Coisa alguma entristece tanto o Espírito Santo e obscurece tanto a alma como deixar-se o indivíduo levar por um espírito rixoso e pelo temperamento que não se dispõe a perdoar (Ef 4:30-32). Fonte: http://www.apriscoonline.com/profiles/blogs/nao-quero-perdoar-por-j-c CINCO MANEIRAS NAS QUAIS PODEMOS DANIFICAR O EVANGELHO 1. Podemos danificar o Evangelho por substituição. Se apenas desviarmos o olhar do pecador do grande objecto da fé de que fala a Bíblia, Jesus Cristo; e o substituímos por outro objecto em Seu lugar... E o dano parece. Substitua algo por Cristo, e o Evangelho acaba-se!... 2. Podemos danificar o Evangelho por adição. Se apenas adicionarmos algo a Cristo, o grande objecto da fé, apenas alguns outros objectos como igualmente dignos de honra, e o dano parece. Adicione algo a Cristo, e o Evangelho deixa de ser um Evangelho puro!... 3. Podemos danificar o Evangelho por interposição. Se apenas empurrarmos algo entre Cristo e o olho da alma, para desviarmos a atenção do pecador do Salvador, e então o dano está feito... 4. Podemos danificar o Evangelho por desproporção. Se apenas anexarmos uma importância exagerada às coisas secundárias do Cristianismo, e uma importância atenuada às coisas primárias, e o dano parece. Uma vez alterada a proporção das partes da Verdade, e a Verdade será logo muito vacilante. 5. Podemos danificar completamente o Evangelho por direcções confusas e contraditórias. Declarações obscuras e complicadas a respeito da fé, do baptismo, de privilégios da Igreja, e dos benefícios da Ceia do Senhor... são quase tão maus como não dizer nada em qualquer caso. Fontes:1. J.C Ryle, “Evangelical Religion” ONDE O MUNDO REINA NO CORAÇÃO Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.” (1Jo 5:4 ARC1995) O que realmente crê em Cristo, vence o mundo. Um verdadeiro cristão não se deixa ser dirigido pelo mundo — pelas normas do bem e do mal, da verdade e do engano, que o mundo define. Ele é independente da opinião do mundo. Ele não se preocupa muito com o elogio do mundo. Ele não se comove pela censura do mundo. Ele não procura os prazeres do mundo. Ele não se afana em excesso pelas recompensas do mundo. O verdadeiro cristão põe o olho nas coisas que não se vêem. Ele vê um Salvador invisível, um julgamento vindouro e uma coroa de glória incorruptível. A contemplação destas coisas fá-lo pensar relativamente pouco neste mundo e no seu resplendor. Onde o mundo reina no coração, não há fé salvadora. O homem que se conforma habitualmente a este mundo, não tem o direito de se considerar um cristão! Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.” (1Jo 5:4 ARC1995) In “Where the world reigns in the heart” (J. C. Ryle, “Faith”) Sermões 1-LEMBRAI-VOS DA MULHER DE LÓ
(Lc. 17: 32)

J.C. Ryle

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Há poucas advertências na Escritura mais solenes que esta. O Senhor Jesus Cristo nos diz, "Lembrai-vos da mulher de Ló."

A esposa de Ló professava a verdadeira religião: seu marido era um "homem íntegro" (2 Pedro 2:8). Ela deixou Sodoma com ele no dia da sua destruição; ela olhou para trás, em direção a cidade, em desobediência a ordem expressa de Deus; ela morreu imediatamente, transformando-se em uma estátua de sal. E o Senhor Jesus Cristo a utiliza como exemplo para Sua igreja; Ele diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando consideramos a pessoa que Jesus menciona. Ele não nos convida a lembrar de Abraão, ou Isaque, ou Jacó, ou Sara, ou Ana, ou Rute. Não! Ele escolhe alguém cuja alma estava perdida para sempre. Ele clama a nós: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando nós consideramos sobre o tema de Jesus. Ele está falando da Sua segunda vinda, quando virá julgar o mundo; Ele está descrevendo o estado terrível de despreparo no qual muitos serão achados. Os últimos dias estão na Sua mente, quando Ele nos diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando nós pensamos na Pessoa que a faz. O Senhor Jesus é amoroso, misericordioso e compassivo; Ele é Aquele que "não esmagará a cana quebrada nem apagará a torcida que fumega"(Is.42:3). Ele lamentou a incredulidade de Jerusalém e orou pelos homens que O crucificaram; contudo, Ele julga proveitoso nos dar esta advertência solene e nos fazer lembrar das almas perdidas. Ele nos diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando nós pensamos nas pessoas para as quais Ele, primeiramente, dirigiu estas palavras. O Senhor Jesus estava falando aos Seus discípulos; Ele não estava falando para os escribas e fariseus que o odiaram, mas a Pedro, Tiago e João, e muitos outros que O amaram; mesmo para esses, Ele julga proveitoso uma palavra de precaução. Ele os diz: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

É uma advertência solene, quando nós consideramos a maneira que Ele falou. Ele não diz somente: "Cuidado! Não sejam como a mulher de Ló". Ele usa uma palavra diferente; Ele diz: "Lembrai-vos". Ele fala como se nós corrêssemos o perigo de esquecer o assunto; Ele incita nossas memórias preguiçosas; Ele nos ordena a manter o caso em nossas mentes. Ele clama: "Lembrai-vos da mulher de Ló".

Agora, consideremos os privilégios religiosos que a esposa de Ló desfrutou.

Nos dias de Abraão e Ló, a verdadeira religião salvadora era escassa na terra; não havia ainda a Bíblia, pastores, igrejas, credos ou mesmo missionários. O conhecimento de Deus estava limitado a algumas famílias agraciadas; a maior parte dos habitantes do mundo estava vivendo em escuridão, ignorância, superstição e pecado. Talvez não houvesse um em cem, que contasse com tal bom exemplo, ou com tal convivência espiritual, tal clareza de conhecimento e advertências tão claras como a esposa de Ló. Comparada com os milhões de criaturas do seu tempo, a esposa de Ló era uma mulher agraciada.

Ela teve um homem religioso como marido; ela teve Abraão, o pai da fé, como tio através do matrimônio. A fé, o conhecimento e as orações destes dois homens íntegros não poderiam ter sido desconhecidos dela. É impossível que ela pudesse ter morado em tendas com eles durante tanto tempo, sem saber de Quem eles eram e a Quem eles serviam. Religião para eles não era nenhum negócio formal; era o princípio governante das suas vidas e a razão de suas ações. Tudo isso a esposa de Ló deve ter visto e conhecido. Este não era um pequeno privilégio.

Quando Abraão recebeu as promessas, a esposa de Ló provavelmente estava lá. Quando ele construiu sua tenda entre Ai e Betel, é provável que ela estivesse presente ...; quando os anjos vieram a Sodoma e advertiram seu marido para fugir, ela os viu; quando eles os levaram pela mão e os conduziram para fora da cidade, ela era um daqueles que eles ajudaram a escapar. Mais uma vez, eu digo, estes não foram privilégios pequenos.

Contudo, quais foram os resultados positivos, de todos estes privilégios, no coração da esposa de Ló? Nenhum, nada. Apesar de todas as oportunidades e meios de graça, todas as advertências especiais e mensagens do céu, ela viveu e morreu sem a graça de Deus, sem Deus, impenitente e descrente. Os olhos do seu entendimento nunca foram abertos; sua consciência nunca foi realmente despertada ou estimulada; sua vontade nunca foi verdadeiramente trazida a um estado de obediência a Deus; suas afeições nunca foram fixadas nas coisas lá do alto. A forma de religião que ela teve foi mantida por conveniência e não por um verdadeiro sentir; era uma capa usada para agradar a seu marido, e não por qualquer senso de seu valor. Ela fez como outros ao redor dela na casa de Ló: ela se conformou aos costumes do seu marido; ela não fez nenhuma oposição à religião dele; ela se permitiu ser conduzida passivamente por ele; mas em todo tempo o seu coração estava em pecado diante de Deus. O mundo estava no seu coração, e o seu coração estava no mundo. Neste estado ela viveu, e neste estado ela morreu.

Em tudo isso há muito a ser aprendido. Eu vejo uma lição aqui que é da maior importância nos nossos dias. Você vive em tempos em que há muitas pessoas vivendo igual a esposa de Ló. Ouça pois, a lição que o caso dela nos ensina.

Aprenda que a mera possessão de privilégios religiosos não salvarão a alma de ninguém. Você pode ter vantagens espirituais de todo tipo; você pode viver e gozar das mais ricas oportunidades e meios de graça; você pode desfrutar da melhor pregação e das instruções mais verdadeiras; você pode morar no meio da luz, conhecimento, santidade e boa companhia. Tudo isso é possível; contudo, você ainda pode permanecer não convertido, e estar perdido para sempre.

Eu ouso dizer que esta doutrina parece dura a alguns leitores. Eu conheço a idéia de que eles não querem nada mais do que privilégios religiosos para decidirem ser cristãos. Eles não são o que eles devem ser no momento, eles concordam; mas a posição deles é tão difícil, eles argumentam, e suas dificuldades são tantas. Dê-lhes um cônjuge crente, ou amizades cristãs, ou um patrão crente; dê a eles a pregação do Evangelho, os privilégios, e então eles caminharão com Deus.

Tudo engano! Uma completa ilusão! Para salvar almas, é requerido muito mais do que privilégios. Joabe era o capitão de Davi; Geazi era o criado de Eliseu; Demas era companheiro de Paulo; Judas Iscariotes era discípulo de Cristo; e Ló teve uma esposa mundana e incrédula. Todos eles morreram em seus pecados. Eles baixaram à cova apesar do conhecimento, advertências e oportunidades; e todos eles nos ensinam que os homens necessitam não só de privilégios. Eles precisam da graça do Espírito Santo.

Vamos valorizar nossos privilégios religiosos, mas não vamos descansar completamente neles. Vamos desejar ter o benefício deles em nossas atividades, mas não vamos colocá-los no lugar de Cristo. Vamos usá-los com gratidão, se Deus no-los der, mas nos preocupemos em que eles produzam algum fruto em nosso coração e vida. Se eles não produzem o bem, eles seguramente causarão dano; eles cauterizarão a consciência, eles aumentarão a responsabilidade, eles agravarão a condenação. O mesmo fogo que derrete a cera endurece o barro; o mesmo sol que faz a árvore vivente crescer, seca a árvore morta e a prepara para queimar. Nada endurece mais o coração do homem, do que uma familiaridade estéril com as coisas sagradas. Mais uma vez eu digo, não são somente os privilégios que fazem as pessoas cristãs, mas a graça do Espírito Santo. Sem isso, nenhum homem jamais será salvo.

Eu peço aos que lêem esta mensagem hoje, que considerem bem o que eu estou dizendo. Você vai para a Igreja do sr. A ou B; você o considera um pregador excelente; você se deleita com seus sermões; você não pode ouvir nenhum outro com o mesmo conforto; você aprendeu muitas coisas desde que você começou a participar do seu ministério; você considera um privilégio ser um dos seus ouvintes. Tudo isso é muito bom. É um privilégio. Eu seria grato se ministros como o seu fossem multiplicados. Mas, afinal de contas, o que você recebeu no seu coração? Você já recebeu o Espírito Santo? Se não, você não é melhor que a esposa de Ló.

Eu peço para os filhos de pais crentes que gravem bem o que eu estou dizendo. Ser filhos de pais crentes é o mais elevado dos privilégios, pois torna-se o alvo de tantas orações. Realmente é uma bênção aprender o Evangelho na nossa infância, e ouvir falar de pecado, de Jesus, e do Espírito Santo, e santidade, e céu, desde o primeiro momento que podemos lembrar. Mas, cuidado para que vocês não permaneçam estéreis e infrutíferos no meio de todos estes privilégios; precavenham-se para que seus corações não permaneçam duros, impenitentes e mundanos, sem se quebrantar às muitas vantagens que vocês desfrutam. Vocês não poderão entrar no reino de Deus pelo crédito de seus pais. Vocês próprios têm que comer o Pão da Vida e ter o testemunho do Espírito nos seus próprios corações. Vocês têm que ter arrependimento próprio, fé própria e sua própria santificação. Se não, vocês não serão melhor que a esposa de Ló.

Eu peço a Deus que todos os cristãos professos destes dias possam aplicar estas coisas aos seus corações. Que nós nunca esqueçamos que os privilégios sozinhos, não podem nos salvar. Luz e conhecimento, pregações fiéis, meios abundantes de graça e a companhia de pessoas santas são todos grandes bênçãos e vantagens. Feliz aqueles que os tem! Mas no final de tudo, há uma coisa sem a qual privilégios são inúteis: a graça do Espírito Santo. A esposa de Ló teve muitos privilégios; mas não teve a graça de Deus em seu coração.



2- UM PECADOR NO CÉU
Ryle serviu por quase 40 anos como ministro do Evangelho. Foi um escritor prolífico, um pregador vigoroso e um pastor fiel. Muitas de suas obras têm sido reeditadas e servido como fonte de instrução e consolo para o povo de Deus. A Editora Fiel publicou algumas de suas obras em português: o clássico “Santidade”; “Uma palavra aos moços”; “Fé genuína” e os quatro volumes de meditações nos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Por um momento, suponha que você, destituído de santidade, tivesse a permissão de entrar no céu. O que você faria ali? Que possíveis alegrias sentiria no céu? A qual de todos os santos você se achegaria e ao lado de quem se assentaria? O prazer deles não é o seu prazer; os gostos deles não são os seus; o caráter deles não é o seu caráter. Como você poderia sentir-se feliz ali, se não havia sido santo na terra?

Talvez agora você aprecie muito a companhia dos levianos e descuidados, dos homens de mentalidade mundana, dos avarentos, dos devassos, dos que buscam prazeres, dos ímpios e dos profanos. Nenhum deles estará no céu.

Provavelmente, você ache que os santos de Deus são muito restritos, sérios e individualistas; e prefere evitá-los. Você não encontra nenhum prazer na companhia deles. Mas não haverá no céu qualquer outra companhia.

Talvez você ache que orar, ler a Bíblia e cantar hinos são realizações monótonas e estúpidas, coisas que devem ser toleradas aqui e agora, mas não desfrutadas. Você reputa o dia de descanso como um fardo, uma fadiga; provavelmente, você não gasta mais do que um pequeníssima parte deste dia na adoração a Deus. Lembre-se, porém, de que o céu é um dia de descanso interminável. Os habitantes do céu não descansam, noite e dia, clamando: “Santo, santo, santo é o Senhor, Deus todo- poderoso” e cantam todo o tempo louvores ao Cordeiro. Como poderia um ímpio encontrar prazer em uma ocupação como esta?

Você acha que um ímpio sentiria deleite em encontrar-se com Davi, Paulo e João, depois de ter gasto a sua vida na prática daquelas coisas que eles condenaram? O ímpio pediria bons conselhos a estes homens e acharia que tem muitas coisas em comum com eles? Acima de tudo, você acha que um ímpio se regozijaria em ver Jesus, o Crucificado, face a face, depois de viver preso nos pecados pelos quais Ele morreu, depois de amar os inimigos de Jesus e desprezar os seus amigos? Um ímpio permaneceria confiantemente diante de Jesus e se uniria ao clamor: “Este é o nosso Deus, em quem esperávamos… na sua salvação exultaremos e nos alegraremos” (Is 25.9)? Ao invés disso, você não acha que a língua de um ímpio se prenderia ao céu de sua boca, sentindo vergonha, e que seu único desejo seria o ser expulso dali? Ele haveria de sentir-se estranho em um lugar que ele não conhecia, seria uma ovelha negra entre o rebanho santo de Jesus. A voz dos querubins e dos serafins, o canto dos anjos e dos arcanjos e a voz de todos os habitantes do céu seria uma linguagem que o ímpio não entenderia. O próprio ar do céu seria um ar que o ímpio não poderia respirar.

Eu não sei o que os outros pensam, mas parece claro, para mim, que o céu seria um lugar miserável para um homem destituído de santidade. Não pode ser de outra maneira. As pessoas podem dizer, de maneira incerta, que “esperam ir para o céu”, mas elas não meditam no que realmente estão dizendo. Temos de ser pessoas que possuem uma mentalidade celestial e têm gostos celestiais, na vida presente; pois, do contrário, jamais nos encontraremos no céu, na vida por vir.

Agora, antes de prosseguir, permita-me falar-lhe algumas palavras de aplicação. Pergunto a cada pessoa que está lendo este artigo: você já é uma pessoa santa? Eu lhe suplico que preste atenção a esta pergunta. Você sabe alguma coisa a respeito da santidade sobre a qual lhe estou falando? Não estou perguntando se você costuma ir regularmente a uma igreja, ou se você já foi batizado, ou se você recebe a Ceia do Senhor, ou se tem o nome de cristão. Estou perguntando algo muito mais significativo do que tudo isso: “Você é santo ou não?”

Não estou perguntando se você aprova a santidade nos outros, se você gosta de ler sobre a vida de
pessoas santas, de conversar sobre coisas santas, de ter livros santos em sua mesa, se você sabe o que significa ser santo ou se espera ser santo algum dia. Estou perguntando algo mais elevado: “Você mesmo é um santo ou não?”

E por que eu lhe pergunto com tanta seriedade, insistindo com tanto vigor? Faço isto porque a Bíblia diz: “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Está escrito, não é minha imaginação; está escrito, não é minha opinião pessoal; é a Palavra de Deus, e não a do homem: “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Que palavras perscrutadoras e separadoras são estas! Que pensamentos surgem em meu coração, enquanto as escrevo! Olho para o mundo e vejo a maior parte das pessoas vivendo na impiedade. Olho para os cristãos professos e percebo que a maioria deles não têm nada do cristianismo, exceto o nome. Volto-me para a Bíblia e ouço o Espírito Santo: “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Com certeza, este é um versículo que tem de fazer-nos considerar nossos próprios caminhos e sondar nossos corações; tem de suscitar em nosso íntimo pensamentos solenes e levar-nos à oração.

Você pode menosprezar estas minhas palavras, dizendo que tem muitos sentimentos e pensamentos sobre estas coisas, mais do que muitos podem imaginar. Entretanto, eu lhe respondo: “Isto não é mais importante. As pobres almas no inferno fazem muito mais do que isto. O mais importante não é o que você sente e pensa, e sim o que você faz”.

Você pode argumentar: “Deus nunca tencionou que todos os cristãos fossem santos e que a santidade, conforme a descrevemos, é apenas para os grandes santos e para pessoas de dons incomuns”. Eu respondo: “Não posso encontrar este argumento nas Escrituras; e leio que ‘a si mesmo se purifica todo o que nele [em Cristo] tem esta esperança’” (1 Jo 3.3). “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Você pode argumentar que é impossível ser santo e, ao mesmo tempo, cumprir todos os nossos deveres nesta vida: “Isto não pode ser feito”. Eu respondo: “Você está enganado”. Isto pode ser feito. Tendo Cristo ao nosso lado, nada é impossível.
Outros já fizeram isto. Davi, Obadias, Daniel e os servos da casa de Nero, todos estes são exemplos que comprovam isto.

Você pode argumentar: “Se nos tornássemos santos, seríamos diferentes das outras pessoas”. Eu res- pondo: “Sei muito bem disso. Mas é exatamente isso que você deve ser. Os verdadeiros servos de Cristo sempre foram diferentes do mundo que os cercava — uma nação santa, um povo peculiar. E você tem de ser assim, se deseja ser salvo!”

Você pode argumentar que a este custo poucos serão salvos. Eu respondo: “Eu sei disso. É exatamente sobre isso que nos fala o Sermão do Monte. O Senhor Jesus disse, há muitos séculos atrás: “Estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mt 7.14). Poucos serão salvos, porque poucos se dedicarão ao trabalho de buscar a salvação. Os homens não renunciarão aos prazeres do pecado, nem aos seus próprios caminhos, por um momento sequer.

Você pode argumentar que estas são palavras severas demais; o caminho é muito estreito. Eu respondo: “Eu sei disso; o Sermão do Monte o disse”. O Senhor Jesus o afirmou há muitos séculos atrás. Ele sempre disse que os homens tinham de tomar a sua cruz diariamente e mostrarem-se dispostos a cortarem suas mãos e seus pés, se quisessem ser discípulos dEle. No cristianismo acontece o mesmo que ocorre em outros aspectos da vida: sem perdas, não há ganhos. Aquilo que não nos custa nada também não vale nada.