28 de agosto de 2010

Christmas Evans - "O John Bunyan de Gales"



Seus pais deram-lhe o nome de Christmas porque nasceu no dia de "Christmas" ( Natal ), em 1766. O povo deu-lhe a alcunha de "Pregador Caolho" porque era cego de um olho. Alguém assim se referiu a Christmas Evans: "Era o mais alto dos homens, de maior força física e o mais corpulento que jamais vi. Tinha um olho só; se há razão para dizer que era olho, pois mais propriamente pode-se dizer que era uma estrela luzente, brilhando como Vênus". Foi chamado, também, de "O João Bunyan de Gales", porque era o pregador que na história desse país, desfrutava mais do poder do Espírito Santo. Em todo o lugar onde pregava, havia grande número de conversões. Seu dom de pregar era tão extraordinário, que, com toda a facilidade, podia levar um auditório de 15 a 20 mil pessoas, de temperamento e sentimentos vários, a ouvi-lo com a mais profunda atenção. Nas igrejas, não cabiam as multidões que iam ouvi-lo durante o dia; à noite, sempre pregava ao ar livre, sob o brilhar das estrelas.

Evans, durante a sua mocidade, viveu entregue à devassidão e à embriaguez. Numa luta, foi gravemente esfaqueado; outra vez foi tirado das águas como morto e, ainda doutra vez, caiu de uma árvore sobre uma faca. Nas contendas era sempre o campeão, até que, por fim, numa briga, seus companheiros cegaram-lhe um olho. Deus, contudo, fora misericordioso durante esse período, guardando-o com vida para, mais tarde, fazê-lo útil no seu serviço. Com a idade de 17 anos, foi salvo: aprendeu a ler e, não muito depois, foi chamado a pregar e separado para o ministério. Seus sermões eram secos e sem fruto até que, um dia, em viagem para Maentworg, segurou seu cavalo e entrou na mata onde derramou a sua alma em oração a Deus. Como Jacó em Peniel, de lá não saiu antes de receber a benção divina. Depois daquele dia reconheceu a grande responsabilidade de sua obra; regozijava-se sempre no espírito de oração e surpreendeu-se grandemente com os frutos gloriosos que Deus começou a conceder-lhe. Antes destas coisas, possuía dons e corpo de gigante; porém, depois, foi-lhe acrescentado o espírito de gigante. Era corajoso como um leão e humilde como um cordeiro; não vivia para si, mas para Cristo. Além de ter, por natureza, uma mente ativa e uma maneira tocante de falar, tinha um coração que transbordava de amor para com Deus e o próximo. Verdadeiramente era uma luz que ardia e brilhava. No Sul de Gales andava a pé, pregando, às vezes, cinco sermões num só dia. Apesar de não andar bem vestido e de possuir maneiras desastrosas, afluíam grandes multidões para ouvi-lo. Vivificado com o fogo celestial, subia em espírito como se tivesse asas de anjo e quase sempre levava o auditório consigo. Muitas vezes os ouvintes rompiam em choro e outras manifestações, coisas que não podiam evitar. Por isso eram conhecidos por " Saltadores Galeses " .

Era convicção de Evans que seria melhor evitar os dois extremos: o excesso de ardor e a frieza demasiada. Porém Deus é um ser soberano, operando de várias maneiras. A alguns Ele atrai pelo amor, enquanto a outros Ele espanta com os trovões do Sinai, para acharem preciosa paz em Cristo. Os vacilantes, às vezes, são por Deus sacudidos sobre o abismo da angústia eterna, até clamarem pedindo misericórdia e acharem gozo indizível. O cálice desses transborda até que alguns, não compreendendo, perguntam: - " Por que tanto excesso ? " Acerca da censura que faziam dos cultos, Evans escreveu: " Admiro-me de que o gênio do mau, chamando-se ' o anjo da ordem, queira experimentar tornar tudo, na adoração a Deus, em coisas tão seca como o monte Gilboa. Esses homens da ordem desejam que o orvalho caia e o sol brilhe sobre todas as suas flores, em todos os lugares, menos nos cultos ao Deus todo-poderoso. Nos teatros, nos bares e nas reuniões políticas, os homens comovem-se, entusiasmam-se e são tocados de fogo como qualquer ' Saltador Galês ' . Mas, segundo eles desejam, não deve haver coisa alguma que dê vida e entusiasmo à religião ! Irmãos, meditai nisto ! - Tendes razão, ou estais errados ? "

Conta-se que, em certo lugar, havia três pregadores para falar, sendo Evans o último. Era um dia de muito calor; os primeiros dois sermões foram muito longos, de forma que todos os ouvintes ficaram indiferentes e quase exaustos. Porém, depois de Evans haver pregado cerca de quinze minutos, sobre a misericórdia de Deus, tal qual se vê na parábola do " Filho Pródigo ", centenas dos que estavam sentados na relva, repentinamente, ficaram em pé. Alguns choravam e outros oravam sob grande angústia, Foi impossível continuar o sermão: o povo continuou a chorar e orar durante o dia inteiro e de noite até amanhecer. Na ilha de Anglesey, porém, Evans teve de enfrentar certa doutrina chefiada por um orador eloqüente e instruído. Na luta contra o erro dessa seita, começou a esfriar espiritualmente. Depois de alguns anos, não mais possuía o espírito de oração nem o fogo da vida cristã. Mas ele mesmo descreveu como buscou e recebeu de novo a unção do poder divino que fez a sua alma abrasar-se ainda mais do que antes: " Não podia continuar com o meu coração frio para com Cristo, sua expiação e a obra do Espírito. Não suportava o coração frio no púlpito, na oração particular e no estudo, especialmente quando me lembrava de que durante quinze anos o meu coração se abrasava como se eu andasse com Jesus no caminho de Emaús. Chegou o dia, por fim, que nunca mais esquecerei. Na estrada de Dolgelly, senti-me obrigado a orar, apesar de ter o coração endurecido e o espírito carnal. Depois de começar a suplicar, senti como que pesados grilhões me caíssem e como que montanhas de gelo se derretessem dentro de mim. Com esta manifestação, aumentou em mim a certeza de haver recebido a promessa do Espírito Santo. Parecia-me que meu espírito inteiro fora solto de uma prisão prolongada, ou como se estivesse saindo do túmulo num inverno muito frio.
Correram-me abundandemente as lágrimas e fui constrangido a clamar e pedir a Deus o gozo da sua salvação, e que Ele visitasse, de novo, as igrejas de Anglesey que estavam sob meus cuidados. Tudo entreguei nas mãos de Cristo... No primeiro culto depois, senti-me como que removido da região estéril e frígida de gelo espiritual, para as terras agradáveis das promessas de Deus.
. Comecei, então, de novo os primeiros combates em oração, sentindo um forte anelo pela conversão de pecadores, tal como tinha sentido em Leyn. Apoderei-me da promessa de Deus. O resultado foi, que vi, ao voltar para casa, o Espírito operar nos irmãos de Anglesey, dando-lhes o espírito de oração com importunação " .

Passou então o grande avivamento do pregador ao povo em todos os lugares da ilha de Anglesey e em todo o Gales. A convicção de pecado, como grandes enchentes passava sobre os auditórios. O poder do Espírito Santo operava até o povo chorar e dançar de alegria. Um dos que assistiram ao seu sermão sobre " O Endemoninhado Gadareno ", conta como Evans retratou tão fielmente a cena do livramento do pobre endemoninhado, a admiração do povo ao vê-lo liberto, o gozo da esposa e dos filhos quando voltou a casa, curado, que o auditório rompeu em grande riso e choro. Alguém assim se expressou: " O lugar tornou-se em um verdadeiro ' Boquim ' de choro " ( Juízes 2: 1-5 ). Outro ainda disse que o povo do auditório ficou como os habitantes duma cidade abalada por um terremoto, correndo para fora, prostrando-se em terra e clamando a Deus. Não semeava pouco, portanto colhia abundantemente; ao ver a abundância da colheita, sentia seu zelo arder de novo, seu amor aumentar e era levado a trabalhar ainda mais. A sua firme convicção era de que nem a melhor pessoa pode salvar-se sem a operação do Espírito Santo e nem o coração mais rebelde pode resistir ao poder do mesmo Espírito. Evans sempre tinha um alvo quando lutava em oração: firmava-se nas promessas de Deus, suplicando com tanta importunação como quem não podia desistir antes de receber. Dizia que a parte mais gloriosa do ministério do pregador era o fato de agradecer a Deus pela operação do Espírito Santo na conversão dos pecadores . Como vigia fiel, não podia pensar em dormir enquanto a cidade se incendiava. Humilhava-se perante Deus, agonizando pela salvação de pecadores, e de boa vontade gastou suas forças físicas, ou mentais, pregou o último sermão, sob o poder de Deus, como de costume. Ao findar disse: " Este é meu último sermão " . Os irmãos entenderam que se referira ao último sermão naquele lugar. Caiu doente, porém, na mesma noite. Na hora da sua morte, três dias depois, dirigiu-se ao pastor, seu hospedeiro, com estas palavras: " O meu gozo e consolação é que, depois de me ocupar na obra do santuário durante cinqüenta e três anos, nunca me faltou sangue na bacia. Prega Cristo ao povo " . Então, depois de cantar um hino, disse: " Adeus ! Adeus ! " e faleceu. A morte de Christimas Evans foi um dos eventos mais solenes em toda a história do principado de Gales. Houve choro e pranto no país inteiro. O fogo do Espírito fez os sermões deste servo de Deus abrasar de tal forma os corações, que o povo da sua geração não podia ouvir pronunciar o nome de Christimas Evans sem ter uma lembrança vívida do Filho de Maria na manjedoura de Belém; o seu batismo no Jordão; do jardim do Getsêmani; do tribunal de Pilatos; da coroa de espinhos; do monte Calvário; do Filho de Deus imolado no altar, e do fogo santo que consumia todos os holocaustos, desde os dias de Abel até o dia memorável em que esse fogo foi apagado pelo sangue do Cordeiro de Deus.
 

 
 O Triunfo do Calvário
CHRISTMAS EVANS

"Quem é este que vem de Edom, de Bozra. com vestes tintas? Este que é glorioso em sua vestidura, que marcha com a sua grande força? Eu. que falo em justiça, poderoso para salvar. Por que está vermelha a tua vestidu­ra? E as tuas vestes, como as daquele que pisa uvas no lagar? Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém se achava comigo; e os pisei na minha ira e os esmaguei no meu furor; e o seu sangue salpicou as minhas vestes, e manchei toda a minha vestidura. Porque o dia da vingança estava no meu coração, e o ano dos meus redimidos é chegado. F. olhei, e não havia quem me ajudasse; e espantei-me de não haver quem me sustivesse; pelo que o meu braço me trouxe a salvação, e o meu furor me susteve. E pisei os povos na minha ira e os embriaguei no meu furor, e a sua força derribei por terra." (Is 63-1-6)

ESTA passagem é uma das mais sublimes da Bíblia. Não mais majestosa e impressionante é a voz de Deus saindo da sarça ardente. Ela apresenta o Capitão de nossa salvação, deixado sozinho no calor da batalha, marchan­do vitoriosamente pelas colunas quebradas do inimigo, irrompendo as barreiras a parte, conquistando os portões de bronze e libertando me­diante conquista os cativos do pecado e da morte. Em primeiro lugar, vamos determinar os eventos a que nosso texto se relaciona, e depois explicaremos brevemente as perguntas e respostas que contém.

I. Temos aqui uma vitória maravilhosa, obtida por Cristo, na cida­de de Bozra, na terra de Edom. Nossa primeira investigação diz res­peito ao tempo e lugar dessa conquista.

Algumas profecias são literais, outras figurativas. Algumas já se cumpriram, outras estão em processo diário de cumprimento. Com respeito a esta profecia, os clérigos discordam. Uns julgam que é uma descrição do conflito de Cristo e da vitória fora dos portões de Jerusa­lém, dezoito séculos atrás; e outros entendem que se refere à grande batalha do Armagedom, predito no Apocalipse c ainda a ser realizada antes do fim do mundo.

Não estou propenso a passar pelo monte do Calvário e pelo sepulcro novo de José de Arimatéia em meu caminho ao campo do Armagedom; nem estou inclinado a parar na cena da crucificaçào e da ascensão sem ir mais distante, à conquista final do inimigo. Creio que a inspiração divina incluiu ambos os eventos no texto: a vitória já ganha no Calvário e a vitória ainda a ser cumprida no Armagedom; a vitória completa da paixão do Messias e a vitória progressiva do Evan­gelho e da sua graça.

A principal dificuldade cm entender algumas partes da Palavra de Deus surge de palavras não traduzidas, muitas das quais encontram-se em nossa versão como também na de nossos vizinhos ingleses. Por exem­plo, está escrito:

"E chegou e habitou numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno" (Mt 2.23).

Onde nos profetas está predito que Cristo será chamado Nazareno? Em nenhum lugar. Quando os nomes próprios são traduzidos, a dificuldade desaparece. "E chegou e habitou numa cidade chamada Plantação, para que se cumprisse o que fora dito pelos profe­tas: Ele será chamado o Renovo". Este nome lhe é dado por Isaías, Jeremias e Zacarias. Esta é precisamente a dificuldade que ocorre em nosso texto, e a tradução dos termos resolve o problema: "Quem é este que vem de Edom [terra vermelha], de Bozra [tribulação], com vestes tintas?"

A primeira parte do texto tem referência à vitória do Calvário; a última antecipa a batalha e triunfo do Armagedom, mencionados em Apocalipse. A vitória do Calvário é consumada na manhã do terceiro dia depois da crucificação. O Vencedor sobe da terra e exclama: "Eu sozinho pisei no lagar do Calvário; e eu os pisarei na minha ira e os embriagarei no meu furor na batalha do Armagedom. Eu surpreende­rei e destruirei a besta e o falso profeta, e a antiga serpente, o diabo, com todas as suas hostes".

Quando o curso da batalha dirigiu-se ao campo de Waterloo, o duque de Wellington montou em seu cavalo e perseguiu o inimigo derrotado. Assim o Vencedor de Isaías, tendo derrotado os poderes do inferno no Calvário, persegue-os e os destrói no campo do Armagedom. Aqui Ele é apresentado como herói a pé, um príncipe sem exército; mas João, o revelador, viu-o montado num cavalo bran­co, seguido pelos exércitos do céu, todos em cavalos brancos, e nin­guém a pé entre eles.

A vitória do Calvário é como o sangue da expiação no santuário. Um querubim olhava numa direção, e o outro em outra, mas os dois olhavam o sangue reconciliador. Assim, todos os grandes eventos do tempo — todas as provas e triunfos do povo de Deus —, os que aconteceram antes, os que aconteceram desde então e os que ainda estão para acontecer, estão todos olhando para a luta do Getsêmani, o conflito do Gólgota e o triunfo das Oliveiras. A fuga do Egito e a volta da Babilônia olhavam adiante para a cruz de Cristo; e a fé do homem perfeito de Uz apoiava-se num Redentor ressurreto. Os már­tires cristãos venceram pelo sangue do Cordeiro, e todas as suas vitó­rias ocorreram em virtude de uma grande conquista. O sepulcro de Jesus é o local de nascimento da imortalidade do seu povo, e o poder que o ressuscitou dentre os mortos abrirá os sepulcros de todos os santos. "Os teus mortos viverão, os teus mortos ressuscitarão; despertai e exultai, vós que habitais no pó, porque o teu orvalho, ó Deus, será como o orvalho das ervas, e a terra lançará de si os mortos" (Is 26.19)-

Cristo se ofereceu em sacrifício por nós e bebeu o cálice da justa indignação de Deus em nosso lugar. Ele foi pisado pela poderosa justiça como um cacho de uvas no lagar da Lei, até que os vasos de misericórdia transbordassem com o vinho da paz e do perdão, o que fez milhares de espíritos arrependidos e humildes "[se alegrarem) com gozo inefável e glorioso" (1 Pe 1.8). Ele sofreu por nós para que triunfássemos com Ele. Mas nosso texto o descreve como Rei e Con­quistador. Ele era, ao mesmo tempo, a vítima moribunda e o vence­dor imortal. No "poder de uma vida infinita", Ele estava em torno do altar quando o sacrifício queimava. Ele estava vivo nos vestuários sacerdotais, com o incensário de ouro na mão. Ele estava vivo na glória real, com a espada e o cetro na mão. Ele estava vivo na proeza conquistadora, e tinha dado um fim ao pecado e ferido a cabeça da serpente, despojado os principados e poderes do inferno, e abaixado os exércitos derrotados do príncipe das trevas ao lagar da ira do Deus Todo-poderoso. Então na manhã do terceiro dia, quando Ele ressusci­tou dos mortos e os expôs publicamente — aí começou o ano do jubileu com poder!

Depois de os profetas dos tempos antigos terem visto por muito tempo através das névoas da futuridade os sofrimentos de Cristo e a glória que se seguiria, um grupo deles estava reunido no auge do Calvário. Eles viram um exército de inimigos subindo a colina, dis­postos para a batalha e de aspecto muito terrível. No meio da linha de ataque estava a lei de Deus, ardente, explícita em extremo e operante em ira. À direita, encontrava-se Belzebu com suas tropas de demôni­os infernais, e à esquerda, Caifás com os sacerdotes judeus e Pilatos com seus soldados romanos. A retaguarda foi coberta pela morte, o último inimigo. Quando os santos profetas viram este exercito e per­ceberam que estava se aproximando, recuaram e prepararam-se para fugir. Quando olharam em volta, viram o Filho de Deus que avançava com passos intrépidos, tendo a face fixa no grupo hostil. "Vês o peri­go que está diante de ti?", perguntou um dos homens de Deus. "Eu os pisarei na minha ira", respondeu Ele, "e os embriagarei no meu fu­ror". "Quem és tu?", disse o profeta. Ele respondeu: "Eu que falo em retidão, poderoso para salvar". "Tu te aventurarás na batalha sozi­nho?", perguntou o profeta. O Filho de Deus respondeu: "Eu olhei, e não havia quem me ajudasse; e espantei-me que não houvesse quem me sustivesse; pelo que o meu braço me trará salvação, e o meu furor me susterá". "Em que ponto tu começarás o ataque?", inquiriu o pro­feta, ansioso. "Primeiro irei ao encontro da Lei", respondeu Ele, "e passarei sob sua maldição: pois, vejam! Venho para fazer a tua vonta­de, ó Deus. Quando eu tiver sido bem-sucedido no centro da linha de ataque, a batalha virará a meu favor". Assim dizendo, avançou. Imedi­atamente, ouviram-se os trovões do Sinai, e o grupo inteiro dos pro­fetas estremeceu de terror. Mas Ele avançou, destemido, entre os rai­os fulgurantes. Por um momento, Ele ficou escondido da visão; c a bandeira da ira ondulou em triunfo.

De repente, a cena mudou. Um fluxo de sangue verteu do seu lado ferido c apagou todos os fogos do Sinai. A bandeira da paz foi vista agora desfraldada; e a consternação encheu as fileiras dos inimi­gos. Então Ele esmagou, com o calcanhar ferido, a cabeça da antiga serpente; e pôs todos os poderes infernais em fuga. Com a vara de ferro Ele despedaçou os inimigos à esquerda, como vaso de oleiro. Ainda restou a morte, que se julgava invencível, tendo até ali triunfa­do sobre todos. Ela avançou, bradando seu aguilhão que havia sido afiado nas tábuas de pedra do Sinai. Ela o arremessou ao Conquista­dor, mas o aguilhão virou para baixo e ficou dependurado como a correia flexível de um chicote. Espantada, ela se retirou para o sepulcro, seu palácio, onde o Conquistador a perseguiu. Num canto escuro da cova, ela se sentou no seu trono formado de crânios e chamou os vermes, até então seus aliados fiéis, para ajudá-la no conflito; mas eles responderam: 'Sua carne não verá corrupção!" O cetro lhe caiu da mão. O Conquistador agarrou a morte, amarrou-a e condenou-a ao lago de fogo. O Conquistador então subiu do sepulcro, seguido por um grupo de cativos libertos que saíram depois da sua ressurrei­ção para serem testemunhas da vitória que Ele havia conquistado.

João, no Apocalipse, não olhou tanto para trás quanto a ver o Conquistador pisando este lagar; mas ele o viu montado no cavalo branco, ornamentado com muitas coroas, os olhos como chamas de fogo, uma espada de dois gumes na mão, à frente dos exércitos do céu, avançando vencendo e para vencer. Este é o cumprimento da sua declaração em nosso texto: "E pisei os povos na minha ira e os embriaguei no meu furor". Este é o começo do jubileu, a batalha do Armagedom, em que serão subvertidas toda a idolatria e superstição pagas, a besta e o falso profeta serão desbaratados, e o Diabo e suas legiões levados prisioneiros pelo Emanuel e fechados no inferno. AquEle que conquistou os principados e poderes no Calvário não deixará o campo até que todos os inimigos sejam postos por seu escabelo, c regerá o cetro sobre um universo de súditos. Tendo envi­ado o Evangelho de Jerusalém, Ele o acompanha com a graça do Espírito Santo; e o Evangelho não voltará a Ele vazio, mas realizará o que lhe agrada e prosperará para o que Ele o enviou.

A vitória do Armagedom é obtida em virtude da vitória do Calvário. É apenas a consumação da mesma campanha gloriosa; c o primeiro golpe decisivo dado no príncipe das trevas é precursor seguro da vitória final. 'Eu te encontrarei novamente em Filipos!", disse Júlio César a Brutus. "Eu te encontrarei novamente no Armagedom!', disse o Filho de Deus a Satanás no Calvário. 'Eu te encontrarei no travamento de combate entre o bem e o mal, a graça e a depravação, no coração de todos os crentes; na peleja da verdade divina com os erros huma­nos, da religião de Deus com as superstições dos homens; em cada sermão, em cada reavivamento, em cada empreendimento missioná­rio; na expansão e glória do Evangelho nos últimos dias, eu te encon­trarei; e o calcanhar que tu feriste esmagará a tua cabeça para sem­pre!"

A libertação do homem é de Deus. O homem não tinha nem a inclinação nem o poder. Sua salvação originou-se no amor divino, e

jorrou impetuosamente como oceano das fontes da eternidade. Satanás, como leão voraz, tinha tomado a presa e estava correndo para a cova com a ovelha ensangüentada na boca; mas o Pastor de Israel o persegue, alcança-o e despedaça-o como se fosse um cabrito. A de­claração de guerra foi feita no Éden: "E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3-15) terá cumprimento. A liga com o inferno e a aliança com a morte não permanecerão. A rebelião será sufocada, a conspiração esmagada e o homem forte armado entrega­rá a fortaleza a um mais forte. As obras do Diabo serão destruídas, e a presa será tirada dos dentes do terrível. A casa de Davi se fortalece­rá cada vez, e a casa de Saul se enfraquecerá cada vez, até que os reinos deste mundo venham a se tornar o Reino de nosso Deus e do seu Cristo; Satanás será amarrado com cadeias de escuridão e lançado no lago de fogo. Todos os inimigos de Sião serão derrotados, o favor perdido de Deus será recuperado, e os territórios perdidos da paz, santidade e imortalidade serão restaurados para os homens.

Esta campanha é feita às custas do governo do céu. A tesouraria é inesgotável; as armas são irresistíveis; portanto, a vitória é segura. O Rei Todo-poderoso desceu; tomou a cidade de Bozra; regeu seu cetro em Edom; ressuscitou vitoriosamente e subiu com um brado, como o líder de todo o exército. Este é senão o penhor e o desejo ardente das suas futuras realizações. Na batalha do Armagedom, Ele avançará como homem poderoso; incitará o temor como homem de guerra; e preva­lecerá contra os inimigos. Eles retrocederão, ficarão muito envergo­nhados com sua confiança nos ídolos; que dizem às imagens de fun­dição: "Vós sois nossos deuses!" Então Ele abrirá os olhos cegos e tirará os prisioneiros da prisão e depois os que se assentam nas trevas exteriores à prisão. Ele desnudará o braço santo; mostrará a espada na mão que estava escondida debaixo do manto escarlate; manifesta­rá seu poder na destruição dos inimigos e na salvação do seu povo. Tão certo quanto Ele derramou o sangue no Calvário, assim toda a sua vestidura ficará manchada com o sangue dos inimigos no campo do Armagedom. Tão certo quanto Ele bebeu até à última gota do cálice da ira e recebeu o batismo de sofrimento no Calvário, assim Ele bradará a vara de ferro da justiça e regerá o cetro dourado da miseri­córdia no campo do Armagedom. A espada já foi desembainhada, o golpe decisivo foi dado, o capacete de Apoliom foi partido e os laços da iniqüidade estão completamente cortados. O fogo já está aceso, c todos os poderes do inferno não podem extingui-lo. O fogo caiu do céu; está consumindo o acampamento do inimigo; está inflamando o coração dos homens; está renovando a terra e purgando a maldição. "A resplandecente Estrela da Manha" subiu no Calvário; e logo "o Sol da Justiça" brilhará no campo do Armagedom. As trevas que cobrem a terra e a espessa escuridão que envolve as pessoas se dissiparão; e o islamismo, o paganismo e o catolicismo romano, com seu príncipe, o Diabo, buscarão abrigo no inferno!

Depois de uma batalha, ficamos ansiosos em saber quem está morto, quem está ferido e quem está faltando nas fileiras. Na disputa do Messias com Satanás e seus aliados ocorrida no Calvário, o calca­nhar do Messias foi ferido, mas Satanás e seus aliados receberam uma ferida mortal na cabeça. A cabeça denota sabedoria, esperteza, poder, governo. O Diabo, o pecado e a morte perderam o domínio sobre o crente em Cristo, desde a conquista do Calvário. Não há condenação, não há medo do inferno. Mas a serpente, ainda com a cabeça ferida. pode mover a cauda e alarmar os de pouca fé. Porém não dura por muito tempo. A ferida é mortal, e o triunfo é certo. No Calvário, a cabeça do dragão foi esmagada pelo Capitão de nossa salvação; de­pois da batalha do Armagedom, sua cauda nunca mais sacudirá!

Não há disparos nesta guerra. Aquele que está alistado sob a ban­deira da cruz tem de permanecer fiel até a morte; não deve pôr de parte as armas até que a morte seja tragada na vitória. Então cada vencedor trará a imagem do divino, e usará a coroa em vez da cruz, e levará a palma cm vez da lança. Sejamos fortes no Senhor e no poder da sua força, para que possamos ficar firmes no dia mau; e depois que toda a guerra estiver terminada, continuar aceitos no Amado, a fim de que reinemos com Ele para sempre e sempre.



II. Resta-nos explicar, com muita brevidade, o colóquio glorioso no texto; as interrogações da Igreja e as respostas do Messias.

Quão grande foi a maravilha e alegria de Maria quando ela en­controu o Mestre no sepulcro, revestido em imortalidade, onde ela pensou encontrá-lo amortalhado na morte! Quão indizível foi a sur­presa e arroubo dos discípulos, quando o Senhor que eles tinham acabado de enterrar entrou na casa onde eles estavam reunidos e disse: "Paz seja convosco!" Esses são os sentimentos que a Igreja é representada como a expressar neste colóquio sublime com o Capi­tão da sua salvação. Ele viajou à terra da tribulação; Ele desceu ao pó da morte; mas vejam, Ele voltou vencedor; o cetro dourado de amor na mão esquerda, a vara de ferro da justiça na direita, e na cabeça uma coroa com muitas estrelas. A Igreja o vê com grande assombro c júbilo. Ela há pouco o seguira, chorando, à cruz, e lamentara sobre o corpo no sepulcro; mas agora ela o vê realmente ressurreto, depois de haver destruído a morte e o que tinha o poder da morte — isto é, o Diabo. Ela vai ao encontro dEle com cânticos de alegria, como as filhas de Israel saíram para dar as boas-vindas a Davi, quando ele voltou do vale com a cabeça do gigante na mão e o sangue escorren­do pela roupa.

O coro da Igreja é dividido em dois grupos que cantam um ao outro em versos alternados. A divisão à direita começa o colóquio glorioso: "Quem é este que vem de Edom?". e a esquerda toma a interrogação e a repete com uma variação: "De Bozra, com vestes tintas?" "Este que é glorioso em sua vestidura", retoma o grupo da direita, 'glorioso apesar das tributações que tem suportado?" "Que marcha na grandeza de sua força?", replica o grupo da esquerda, "com força suficiente para destrancar as portas do sepulcro e libertar os cativos da corrupção?" O Conquistador celestial faz uma pausa e lança um olhar de benignidade infinita no grupo das filhas de Sião; e com voz de melodia de anjo, e mais que a majestade de anjo, Ele responde: "Eu, que falo em justiça, poderoso para salvar!" Agora eclode o cântico novamente, como o som de muitas águas, partindo da com­panhia da direita: "Por que está vermelha a tua vestidura?", e a réplica estrondeia de volta em trovão melodioso da esquerda: "E as tuas vestes, como as daquele que pisa uvas no lagar?" O Herói divino responde: "Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém se achava comigo. Até Pedro, com toda a sua coragem e afeto, me deixou; e quanto a João, falar do amor é tudo o que ele pode fazer. Eu triunfei sobre os principados e poderes. Eu fui ferido, mas eles estão derrota­dos. Vede o sangue que perdi! Vede os espólios que tomei! Agora montarei no meu cavalo branco, perseguirei Satanás, desmantelarei seu reino e o mandarei de volta à terra das trevas em cadeias perpé­tuas, e todos os seus aliados serão exilados com ele para sempre.

Meu próprio braço, que conquistou a vitória no Calvário e trouxe a salvação a todo o meu povo do sepulcro, ainda é forte o bastante para brandir o cetro dourado de amor e estraçalhar meus inimigos no campo do Armagedom.

Eu destruirei as obras do Diabo e arrasarei com todas as suas hostes; eu os esmigalharei como o vaso de oleiro. Pois o dia da vin­gança está no meu coração, e o ano da minha redenção é vindo. Minha compaixão está instigada pelos cativos do pecado e da morte; minha fúria está inflamada contra os tiranos que os oprimem. É tem­po de abrir as prisões e romper as correntes. Tenho de reunir meu povo para mim. Tenho de buscar os que estavam perdidos e trazer de volta os que foram expulsos. Tenho de ligar os que foram quebrados e fortalecer os que estavam fracos. Mas destruirei os que estiverem gordos e os fones. Eu os alimentarei com julgamento, eu os pisarei na minha ira, os embriagarei no meu furor, derribarei sua força por terra e mancharei minha vestidura com o sangue deles!"

Fujamos da ira por vir! Vejam, o sol subiu com força no dia da vingança. Que não sejamos encontrados entre os inimigos do Messi­as, para que não sucumbamos como sacrifício à sua indignação justa no campo do Armagedom! Escapemos por nossa vida, pois a tempes­tade de fogo da sua ira queimará até ao mais profundo do inferno! Oremos para que a graça se apodere da salvação dos remidos. É uma salvação livre, plena, perfeita, gloriosa e eterna. Voltem, ó resgatados, exilados da felicidade, voltem para a sua herança perdida! Este é o ano do jubileu. Venham a Jesus para que suas dívidas sejam cancela­das, seus pecados perdoados, a fim de que sejam justificados! Ve­nham, pois o Conquistador de seus inimigos está no trono! Venham, pois as trombetas da misericórdia estão soando! Venham, pois tudo já está pronto!