4 de agosto de 2014

Livre da escravidão das opiniões humanas A W Tozer

Livre da escravidão das opiniões         humanas   
A W Tozer

A justiça própria é uma efetiva barreira para o favor de Deus porque lança de volta o pecador aos seus próprios méritos e o priva da justiça de Cristo imputada. E ser um pecador confesso e conscientemente perdido é necessário para o ato de receber a salvação por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. Isto jubilosamente admitimos e constantemente afirmamos, mas eis aqui a verdade que tem sido negligenciada em nossos dias:
Um pecador não pode entrar no reino de Deus.
As passagens bíblicas que declaram isto são demasiado numerosas e demasiado conhecidas para que seja necessário repeti-las aqui, mas o cético poderia examinar Gálatas 5.19-21 e Apocalipse 21.8. Como, então, pode alguém ser salvo? O pecador penitente encontra-se com Cristo e depois desse encontro salvador, não é mais pecador. O poder do Evangelho o transforma, muda a base da sua vida do ego para Cristo, faz com que ele dê meia-volta e tome nova direção, e faz dele uma nova criação. O estado moral do penitente quando vem a Cristo não afeta o resultado, pois a obra de Cristo varre dele tanto o que tem de bom como o que tem de mau, e o transforma noutro homem. O pecador que volta não é salvo por alguma transação judicial sem uma correspondente mudança moral. A salvação tem que incluir uma mudança judicial de estado, mas o que é passado por alto por muitos mestres é que ela inclui também uma real mudança na vida do indivíduo. E com isso queremos dizer mais do que uma mudança de superfície; queremos dizer uma transformação tão profunda quanto as raízes da vida humana. Se não chega a essa profundidade, não chegou a suficiente profundidade. Se não tivéssemos sofrido primeiro um sério declínio em nossas expectativas, não teríamos aceitado essa insípida e técnica concepção da fé.

As igrejas (mesmo as conservadoras) são mundanas no espírito, moralmente anêmicas, vivem na defensiva, imitando em vez de tomar iniciativas, e numa condição miserável, em geral porque durante duas gerações completas lhes têm dito que a justificação não é nada mais que um veredito de "não culpado" pronunciado pelo Pai Celeste sobre um pecador que pode apresentar a mágica moeda fé  com o maravilhoso "abre-te sésamo" gravado nela. Se a afirmação não é tão contundente assim, ao menos a mensagem é defendida de modo tal que chega a causar essa impressão. A coisa toda resulta de ouvir a Palavra sem poder e de recebê-la do mesmo modo.Ora, a fé é na verdade o abre-te sésamo da bem-aventurança eterna. Sem fé é impossível agradar a Deus, e nenhum homem pode salvar-se sem fé no Salvador ressurreto. Mas a verdadeira qualidade da fé é quase universalmente omitida, a saber, a sua qualidade moral.

A fé é mais que mera confiança na veracidade de uma afirmação feita na Escritura Sagrada. Ela é uma coisa altamente moral e de essência espiritual. Invariavelmente efetua transformação radical na vida de quem a exerce. Muda a visão interior, do ego para Deus. Introduz o seu possuidor na vida do céu estando ele na terra. Não é meu desejo diminuir o efeito justificador da fé. Nenhum homem que conheça as profundezas da sua própria iniqüidade ousaria comparecer perante a inefável Presença sem nada para recomendá-lo senão o seu próprio caráter, tampouco cristão algum, sábio após a disciplina dos fracassos e das imperfeições, quereria que a sua aceitação da parte de Deus dependesse de algum grau de santidade que ele pudesse ter atingido mediante as operações da graça interior.

Todo os que conhecem os seus próprios corações e as provisões do Evangelho se unirão na oração do homem de Deus: Quando ao som da trombeta Ele chegar,Oxalá nele eu seja visto;Da Sua justiça apenas revestido,Sem culpa diante do seu trono estar! Uma coisa angustiante é que uma verdade tão bela tenha sido tão pervertida. Mas a perversão é o preço que pagamos por deixar de dar ênfase ao conteúdo moral da verdade; é a maldição que acompanha a ortodoxia racional quando apaga ou rejeita o Espírito da Verdade. Ao afirmar que a fé no Evangelho efetua uma mudança da força motriz da vida, do ego para Deus, estou apenas afirmando os fatos puros e simples. Todo homem dotado de entendimento moral necessariamente tem consciência do flagelo que o aflige interiormente; necessariamente está cônscio daquilo a que chamamos ego, a que a Bíblia chama carne  (ser pessoal, natureza humana), mas, seja qual for o nome que se lhe dê, um senhor cruel e um inimigo mortal.
Jamais o Faraó dominou tão tiranicamente Israel como este inimigo oculto domina os filhos e filhas dos homens. As palavras de Deus a Moisés concernentes a Israel no cativeiro bem podem descrever-nos a todos:"Certamente vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causados seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento". E quando, como com tanta ternura afirma o Credo Niceno, nosso Senhor Jesus Cristo "por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne do Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio  Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras, e subiu aos céus e assentou-se à direita do Pai", para que o fez?   

-Para que nos pronunciasse tecnicamente livres e nos deixasse em nossa escravidão?
Nunca. Deus não disse a Moisés, "... desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra e uma terra boa e ampla, terra que mana leite  e mel... Chega-te a Faraó, e dize-lhe: Assim diz o Senhor:Deixa ir o meu povo..."? Para os seres humanos cativos do pecado Deus jamais tenciona menos que plena libertação. A mensagem cristã retamente entendida significa isto: O Deus que pela palavra do Evangelho proclama livres os homens, pelo poder do Evangelho de fato os faz livres .  Aceitar menos que isso é conhecer o Evangelho somente em palavra,sem o seu poder. Aqueles a quem a Palavra vem em poder experimentam este livramento, esta migração interior da alma, da escravidão para a liberdade, esta libertação do cativeiro moral. Conhecem por experiência uma radical mudança de posição, uma real travessia, e conscientemente se firmam noutro solo, sob outro céu, e respiram outro ar. Mudam-se os motivos da sua vida e se renovam os seus impulsos internos.
Que são esses velhos impulsos que outrora impunham a obediência com a ponta do chicote?
-Que são eles, senão pequenos mestres de obras, servos do grande mestre de obras, oEgo, os quais se põem diante dele e fazem a sua vontade?
Mencioná-los todos requereria um livro só para isso, mas gostaríamos de indicar um deles como tipo ou exemplo dos demais. É o desejo de aprovação social. Isto não é mau em si mesmo, e poderia ser perfeitamente inocente se estivéssemos vivendo num mundo sem pecado, mas desde que a raça humana apartou-se de Deus, caiu, e se juntou aos Seus inimigos, ser amigo do mundo é ser colaborador do mal e inimigo de Deus. Todavia, o desejo de agradar os homens está por trás de todos os atos sociais, desde as mais altas civilizações até os mais baixos níveis em que se acha a vida humana. Ninguém pode escapar disso. O fora da lei que burla as regras da sociedade e ao filósofo que se eleva em pensamento acima do comum, parecem ter evitado a armadilha, mas na realidade apenas estreitaram o círculo daqueles a quem eles desejam agradar. O fora da lei tem os seus comparsas diante dos quais  procura brilhar; o filósofo, o seu grupo de pensadores superiores cuja aprovação é necessária para a sua felicidade. Para ambos, a raiz dos motivos permanece intacta. Cada um deles aufere sua paz da idéia de que goza a estima dos seus companheiros, conquanto cada qual interprete à sua maneira toda a questão. Cada ser humano olha para os seus companheiros humanos porque não tem ninguém para quem olhar. Davi podia dizer: "Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra", mas os filhos deste mundo não têm Deus, só têm uns aos outros, e andam apegando-se uns aos outros e procurando uns aos outros para se sentirem seguros, como crianças apavoradas. Mas sua esperança lhes falhará, pois são como um grupo de homens dos quais  nenhum sabe manejar um avião em vôo e que, de repente, se vêem nos ares sem piloto, cada qual esperando que os outros os levem a salvo ao solo. A sua confiança desesperada, mas equivocada, não os pode salvar da destruição que certamente lhes sobrevirá.

Com este desejo de agradar os homens tão profundamente implantado dentro de nós, como podemos desarraigá-lo e mudar o nosso impulso vital para agradar a Deus,em vez de agradar os homens?
Bem, ninguém pode fazê-lo sozinho, nem com a ajuda doutras pessoas, nem por meio da educação ou de exercícios, nem por qualquer outro método conhecido debaixo do Sol. O que se requer é uma inversão da natureza (que,por ser uma natureza decaída, não é menos poderosa), e esta inversão tem que ser um ato sobrenatural. Esse ato o Espírito executa mediante o poder do Evangelho quando recebido com fé viva. Então Ele remove a velha natureza e instaura a nova. Então Ele invade a vida como a luz do Sol invade uma paisagem e expulsa os velhos motivos como a luz expulsa a escuridão do firmamento.O modo como age na experiência é mais ou menos assim: O homem que crê é subitamente dominado por uma vigorosa sensação de que só Deus importa ; logo isto passa a agir em sua vida mental e condiciona todos os seus juízos e todos os seus valores. 
Agora ele se vê livre da escravidão das opiniões humanas. Um forte desejo de agradar somente a Deus toma posse dele. Logo aprende a querer acima de tudo mais a certeza de que está sendo agradável ao Pai celestial. É esta mudança completa em sua fonte de prazer que torna invencíveis os homens de fé. Assim os santos e mártires puderam ficar sós, abandonados por todos os amigos terrenais, e morrer por Cristo debaixo do aborrecimento universal da humanidade. Quando, para intimidá-lo, os juízes de Atanásio o advertiram de que o mundo inteiro estava contra ele, Atanásio ousou replicar: "Então é Atanásio contra o mundo!" Esse brado cruzou os séculos e hoje pode fazer-nos lembrar que o Evangelho tem poder para livrar os homens da tirania da aprovação social e os torna livres para fazerem a vontade de Deus.Isolei este único inimigo para consideração, mas este é somente um, e existem muitos outros. Eles parecem existir por si mesmos e ter existência separada uns dos outros, mas é só aparência. Na verdade são apenas ramos da mesma vinha venenosa, desenvolvendo-se da mesma raiz má, e morrem juntos quando morre a raiz. Essa raiz é o ego, e a Cruz é seu único destruidor capaz. 

A mensagem do Evangelho é, pois, a mensagem de uma nova criação em meio a uma antiga, a mensagem da invasão da nossa natureza humana feita pela vida eterna de Deus e a substituição da velha natureza pela nova. A nova vida captura a natureza do homem de fé e se dedica à sua benévola conquista, conquista que não é completa enquanto a vida invasora não tiver tomado posse total e não tiver emergido uma nova criatura. E este é um ato de Deus, sem ajuda humana, pois é um milagre moral e uma ressurreição espiritual.