6 de julho de 2013

William Chalmers Burns – O tutor de Hudson Taylor


William Chalmers Burns – O tutor de Hudson Taylor

( O avô das missões modernas )


William foi influenciado por grandes pregadores bretões, poderosos ministros evangélicos que sofreram, triunfaram e morreram pela fé na Escócia.Seu pai foi um apóstolo do reavivamento, revelado na história dos poderosos movimentos do Espírito Santo. Na geração de William ocorreria um novo reavivamento, 100 anos mais tarde, em 1840, quando Deus o usou grandemente. William Chalmers Burns era amigo de Robert Murray McCheyne, era missionário e pregador itinerante, e acabou seus dias como missionário à China, onde conheceu e influenciou a J. Hudson Taylor.


Seu nascimento

Nasceu em 10 de Abril de 1815, na cidade de Dun,Escócia.Sua inclinação era correr atrás de riquezas que lhe pudessem trazer junto prazeres. Advogados eram ricos e viviam em belas casas e mansões, e portanto, ele se tornou um Advogado. Ele cegamente falou a seus pais que ele não queria ser um pobre pregador e que ele estava indo para o mundo em  busca de dinheiro.

Sua Conversão

Antes de obter o seu diploma, Deus alterou os planos de William. Isto aconteceu através das suas duas irmãs, que não se conformavam com o descuido com que William tratava sua alma. William era obediente aos pais, inteligente, brilhante, amava aos seus familiares e amigos, no entanto ele não era salvo e estava a caminho do inferno. Elas foram compelidas pelo Espírito a escrever para William uma carta urgente, admoestando-o a largar o mundo e aceitar o glorioso Filho de Deus como Salvador e Senhor. William foi grandemente tocado pela carta e pediu para as irmãs enviarem para ele alguma literatura que o ajudasse. Elas enviaram  o livro de Thomas Boston - "Fourfold State"-. Outro livro que ajudou por este tempo foi o livro de Pike - "Early Piety".  Sozinho com Deus, com lágrimas nos olhos, ele creu em Deus para salvação. A esse respeito ele disse: "Eu tinha a esperança de ser salvo pela soberania do infinitamente gracioso Deus; e quase no mesmo instante, eu senti que podia deixar minha presente ocupação e devotar minha vida a Jesus, como ministro do glorioso evangelho pelo qual eu tinha sido salvo".

Seu Chamado para a pregação

Logo após a sua conversão, William chegou inesperadamente na casa de seu pai, que era pastor em Kilsyth, e entrou na sala. Surpreso, seu pai lhe perguntou: "William, o que você está fazendo aqui?!". Ele havia cavalgado trinta e seis milhas de Edimburgo até Kilsyth, trazendo as boas novas de sua conversão. Então ele virou-se para a sua mãe e disse: "Mãe, o que você diria se eu te contasse que eu quero ser um ministro do evangelho acima de tudo o mais!?". Nem precisa dizer qual era o pensamento de sua mãe. Ela e toda a sua família estavam entusiasmados com a notícia. Imediatamente puseram-se a ouvir o relato de sua conversão, como aconteceu aquela revolução em sua vida. Gastaram a manhã conversando sobre isso, ao redor da lareira. Sua mãe, observando o rosto decidido de seu filho, e a nova expressão de alegria em sua face, sabia que, por mais precipitado que parecesse, a sua decisão de ser um ministro do evangelho era algo para a vida e para a morte. Nada o demoveria disso.

Logo o jovem   William deixou as coisas deste mundo de lado. O odor das "ervas do Egito" eram ofensivas a ele, enquanto que a vida de autocontrole e piedade que ele buscou viver eram provas da profundidade da atuação do Espirito Santo na sua alma. Foi na universidade de Glasgow que ele ouviu um médico missionário  chamado Dr. Carlton falando sobre a sua viagem à China, de como ele se colocou no altar de Deus para um trabalho missionário para com os ímpios esquecidos naquela terra distante e a forma como Deus o enviou. Mais tarde esse relato seria usado por Deus para estimulá-lo a também ser um missionário.

O jovem Burns foi licenciado para pregar e ocupar o lugar no púlpito de Robert Murray McCheyne, na igreja de St. Peter , em Dundee. Ele aceitou a oferta, tendo a idade de 24 anos, dizendo: "Eu sou realmente impróprio, eu não sou adequado para assumir este árduo porém nobre trabalho. Mas, o que importa? Gloria seja dada a Jesus, sua graça é suficiente para mim, porque seu poder se aperfeiçoa na fraqueza!".

De acordo com o que se percebe nos livros a respeito de McCheyne, havia uma extraordinária similaridade entre estes dois servos de Deus, porém seus dons e temperamentos eram notoriamente diferentes. McCheyne era um poeta, de temperamento suave, meigo, dócil. Destacava-se o amor e a reverência. Em Burns via-se palavras mais fortes, diretas ao pregar a verdade de Deus. Ele fazia o povo tremer ante o poder de Deus. Em outras palavras, McCheyne era um pastor e Burns era um evangelista. McCheyne gastava o seu tempo em adoração, oração e contemplação do grande amor de Cristo demostrado no calvário, enquanto que Burns preocupava-se muito com as almas que iam para o inferno sem salvação, passando o tempo em agonia de alma pelos não salvos.

Um dia, sua mãe fora fazer compras em Glasgow e o perdeu na multidão. Recuou sobre seus próprios passos e encontrou Burns com a expressão de grande sofrimento e agonia. Sua mãe perguntou se ele estava doente ou com dor. Ele então respondeu: "Ó mamãe, ó mamãe!! O andar destas pessoas sem Cristo em direção ao inferno parte o meu coração".

Sua atuação na igreja em St.Peter, o relato do Dr. F.B.Mayer explica que Burns era jovem, inexperiente, sem nenhum peculiar dom poético na pregação, mas que foi grandemente respeitado pela sua congregação , porque, ainda que suas palavras eram poucas, diretas, pouco adornadas, no entanto vinham cheias de poder, como flechas lançadas por um exímio atirador. Essa flechas atingiam em cheio o coração e a consciência dos ouvintes. Por tudo isso o povo o considerava como um "mensageiro de Deus". Literalmente pode-se dizer dele que suas palavras não eram cheias de sabedoria humana, mas uma demonstração do Espírito e de poder. O resultado visível foi um aumento no entendimento espiritual do povo e um tom elevado de solenidade e sobriedade se tornou generalizado entre os crentes daquela igreja.

O templo já tinha se enchido antes, mas agora a multidão se tornou mais densa e entusiástica que antes. As salas se encheram de pessoas até não Ter mais lugar. Alma após alma vinham a ele para dizer como encontraram paz ao crer nas palavras que ele havia pregado. Assim, os primeiros quatro meses em Dundee foram meramente um prefácio de coisas melhores que os meses seguintes foram testemunha.

Reavivamento em Kilsyth

Enquanto Burns ministrava na Igreja de St. Peter, Dundee, em Kilsyth o Senhor estava começando a se mover de uma maneira extraordinária. O pai de William decidiu pregar diante do monumento a James Robe, protagonista de um reavivamento na Igreja em Kilsyth à 100 anos atras. Seu objetivo era entusiasmar os crentes a orarem por um novo avivamento e pela salvação das almas perdidas. "Deus não está morto!" ele exclamava. "O Evangelho não perdeu o seu poder. Somos nós que perdemos o nosso poder junto à Deus. Deus está pronto agora mesmo para nos dar a mesma benção que Ele deu a 100 anos atrás - e muito mais! Vocês estão prontos para deixar que Deus sonde os vossos corações,  para ver que ali não há pecado que faça o Senhor voltar atrás em suas bênçãos?"

Os crentes ouviram estas palavras e não se furtaram a buscar a face de Deus em humilhação e contrição permanecendo assim muito tempo. A sensação geral era de estar no "vale dos ossos secos". Nesta atmosfera foi que William chegou de Dundee para passar um tempo na companhia dos irmãos da igreja e de seus familiares, por ocasião da Ceia do Senhor, onde foi fortemente relembrado o custo da salvação - o precioso sangue de Cristo. William veio somente como um membro da igreja e não pretendia pregar, mas os planos de Deus eram diferentes. Seu tio, Dr. Burns, pediu para que ele pregasse em seu lugar. William aceitou e pregou no Sábado e no Domingo e seu discurso causou tanta impressão nos ouvintes, que seu pai e seu tio pediram que ele pregasse uma vez mais na Terça-feira, no mercado. Esta Terça, dia 23 de julho de 1839, permanece como um dos grandes dias em toda a história dos reavivamentos. Aquela manhã foi fixada por toda a eternidade dentro do conselho de Jeová como  uma nova etapa na história da redenção de Deus.

Durante a noite anterior, o povo de Deus se colocou em oração durante a noite toda, esquecendo-se das horas, tão ocupados estavam em suas orações. Por muitas semanas William Burns estava tão ocupado em oração que nem ele descansou. Por causa da chuva, a grande multidão que tinha se ajuntado no mercado agora se reunia dentro da igreja, com suas roupas de trabalho, homens, mulheres e crianças , junto com alguns dos mais devassos pecadores do distrito. Eles cantaram o Salmos 102, e quando o narrador do hino leu as seguintes linhas:

"O tempo do seu favor chegou!
Atente bem, é agora vem o fim."

A palavra AGORA tocou seu próprio coração (o de William) e encorajou-o na esperança de que o tempo de Deus era agora, e estava em Suas mãos realizar um novo avivamento. O texto escolhido foi um outro salmo, o 110. Foi um sermão muito cuidadoso em sua ordem de exposição, e também evangelístico em seu ensino. Quando William ia chegando ao fim do seu sermão, ele subitamente sentiu-se guiado pelo Espírito Santo para contar alguns dos poderosos avivamentos na história da Escócia. Contou sobre John Livingstone, como Deus operara por meio dele no reavivamento à 100 anos atrás. Contou que Livingstone estava por terminar a mensagem, quando caiu uma chuva sobre o povo, e como o povo começou a se movimentar par ir embora, ele disse: "Se uns pequenos pingos de chuva tão facilmente afastam vocês de ouvir a mensagem de Deus, então que dirá no dia do julgamento, quando Deus fará chover fogo e enxofre sobre os que rejeitam a Cristo?" Então Livingstone os incitava  a buscar a "cidade de refúgio" em Cristo. O resultado disso foi que 500 pessoas foram convertidas por ocasião de seu sermão.

Enquanto Burns contava a história, a emoção ia tomando conta da multidão. O que  se seguiu foi memorável. O próprio William narrou assim: " Eles (o povo) choravam e se lamentavam, intermeado com súbitos momentos de alegria e oração, junto com alguns do povo de Deus. A impressão que eu tive do púlpito era do estado dos ímpios na volta de Cristo, no dia do julgamento. Alguns demonstravam grande agonia - outros caiam no chão como mortos".

Este movimento prosseguiu durante semanas, permanecendo estável e aprofundando-se cada vez mais. William, que pretendia voltar a Dundee naquele dia, ainda pregou mais três vezes naquele mesmo dia, e nos dias seguintes. Mal acabava a primeira pregação  já em seguida começava o outro. Às vezes ia até tarde da noite, e assim se sucedia no dia seguinte. Esse temor e emoção tomou conta da cidade e arredores, lembrando um pouco o avivamento que se deu nos EUA sob Jonathan Edwards. O tema das conversas era sobre as coisas do Senhor. Era verdadeiramente o céu na terra, na região de Kilsyth. Toda a Escócia ouviu a grande nova com alegria, e centenas de intercessores por avivamento literalmente saltaram de alegria.

O Reavivamento em Dundee e Perth

Ao retornar para Dundee em Agosto de 1839 William encontrou o mesmo cenário que havia deixado em Kilsyth. Se sua oração antes era cheia de poder, agora também tinha se tornada mais profunda. Robert McCheyne estava doente, quase à morte, no Líbano  e William se colocou em oração junto à sua congregação em Dundee por McCheyne. No final da sua primeira pregação em Dundee, William fez um breve relato do que estava acontecendo em Kilsyth e chamou os não-convertidos a deixar a sua condição de pecado. Dr. Andrew Bonar narrou estes fatos assim: "de repente o poder de Deus pareceu descer, e todos começaram a chorar de grande emoção - a mão de Deus se revelou neste dia e nas semanas seguintes".

Tão grande era a fome pela Palavra que Burns pediu ajuda a outros pregadores. Ele dificilmente encontrava tempo para comer ou dormir, porque a multidão seguia-o por onde ele fosse em Dundee. Era claro para todos que o jovem ministro tinha construído seu ministério em Kilsyth e Dundee sobre o fundamento que tinha deixado seu pai e McCheyne, mas também era claro que o fator principal do avivamento era o extraordinário poder de Burns na pregação e na oração. Como John Welsh, ele gastava noites em intercessão agonizante pelas almas dos perdidos. "Oh! Suas orações! Eu não consigo fugir delas" - disse certa vez um seu ouvinte.

"Com a calma da exaltação, com santa persuasão, e com riqueza suprema na exposição, ele podia mostrar a glória de Cristo e as maravilhas da redenção; então, com um brilho espiritual, terminava com uma visão que parecia que os céus se abriam para que eles o vissem, e centenas de corações se prostrassem em adoração, num senso de presença inefável de Deus",  palavras estas ditas por outro ouvinte.

Em seguida, retornou McCheyne de sua viagem à terra santa, e juntou-se a William na tarefa de fortalecer os jovens convertidos na fé e levar mais almas à Cristo.

Convites de toda a Escócia chegavam ao jovem William, mas ele somente podia ir onde o Espírito Santo de Deus o enviasse. A próxima cena de poderosa visitação do Espírito Santo foi na cidade de Perth. William foi ali para pregar por três dias e acabou ficando três meses. Ele mesmo descreve o que aconteceu ali: " A igreja era uma massa sólida de vida, mas vida física e não espiritual. Eu tinha clara direção para falar baseado em Dt. 32:35 em meu sermão: "Minha é a vingança e a recompensa, ao tempo em que resvalar o seu pé; porque o dia da sua ruína está próximo, e as coisas que lhes hão de suceder se apressam a chegar". Eu tomei como base o sermão de Jonathan Edwards  . Durante a pregação, estas afirmações foram acompanhadas de uma medida extraordinária do Espírito Santo, e o sentimento dos ouvintes se tornou tão intenso que, quando um homem nas galerias exclamou audivelmente, "Senhor Jesus, venha e me salve", a grande massa da congregação deu um audível sinal de emoção ao chorar em voz alta. Eu imediatamente comecei a repetir, como em Kilsyth, o convite de Isaías, dizendo que Jesus é o Dom de Deus que traz libertação. Homens e mulheres literalmente se banharam em choro, em agonia de alma."

Burns era um grande pregador ao ar livre. Onde os homens se congregavam, ele estava ali para pregar a eles: no mercado, nas feiras, nos parques. Ele era o homem dos homens. Centenas podiam ouvi-lo. Algumas vezes, como John Wesley, às cinco da manha se podia ouvir as suas palavras. Algumas vezes McCheyne deixava Dundee e se juntava a Burns em seus encontros evangelísticos. Como a multidão crescia cada vez mais, ele escreveu uma carta à McCheyne para que ele o ajudasse, e dedicasse a sua vida inteira à evangelização e ao fortalecimento na fé dos novos convertidos. Nessa carta ele clamou que McCheyne deixasse a acomodação. "Não espere pela chamada da igreja. A chamada de Cristo é melhor. Almas estão perecendo. Vamos socorrê-los. Não me entenda mal; eu não estou desvalorizando o trabalho pastoral, mas apenas vendo que a necessidade urgente está aqui".  McCheyne respondeu dizendo que ele estava buscando cumprir o que o Senhor tinha para ele: "Nós não podemos ver com os olhos dos outros. Temos que cumprir o caminho que o Senhor tem para nós - isto é o mais importante. O trabalho de Deus pode florescer por nós, se ele florescer mais ricamente em nós".  Pouco tempo depois o Senhor o chamaria para a glória (1843).

William Chalmers Burns pregou em muitas cidades, espalhando o evangelho por toda a Escócia. Muitos livros podiam ser escritos demonstrando o caráter e o ministério dele. Mas creio que até aqui temos uma idéia de como era esse grande homem de Deus. Ele se tornou conhecido posteriormente porque foi um missionário ousado na China.

Do Canadá para a China

De Dundee, o Espirito Santo chamou Burns para ir ao Canadá, onde permaneceu dois anos, pregando em Montreal e outras cidades. Sofreu muito nas mãos dos romanistas, que dificultaram o evangelho; Mesmo com o trabalho intenso, não negligenciava a comunhão pessoal com Deus: "Eu tenho algumas suaves e doces visões de Cristo assentado ao lado direito do Pai".

Não devemos nos esquecer que a chamada original de Burns era para ir pregar o evangelho em terras distantes, aos pagãos. Lembre-se que ele se ofereceu à Sociedade Missionária da Universidade de Glasgow para ir à Índia, mas eles não puderam enviá-lo. Quando foi chamado ele estava no meio do reavivamento em seu país, e então não poderia deixá-lo; porém ele não se esqueceu do seu chamado. Agora no Canadá, ele sentiu que havia chegado o tempo de ir pregar a mensagem onde ainda não havia sido proclamada. Orava: "Óh, abençoado Espírito Santo, que terra pagã Tu queres me enviar agora?". Mais tarde veio uma carta de Londres, perguntando aos irmãos na Escócia se podiam recomendar algum missionário para ser enviado à China. Quando Burns tomou conhecimento da carta , entendeu ser este um sinal enviado por Deus para o seu chamado. Ele escreveu ao comitê em Londres: "Eu estou pronto a ser queimado pelo Reino de Deus. Eu estou pronto a sofrer qualquer dificuldade, se eu, por qualquer meio, possa salvar alguns. O desejo do meu coração é tornar conhecido meu glorioso Redentor  para aqueles que nunca ouviram falar dele". O comitê em Londres recebeu a sua carta com grande entusiasmo, já que eles conheciam o sofrimento de Burns com os Romanistas na Escócia e Canadá, e sabiam que, se há um homem na Escócia que tinha paixão pelas almas, esse homem era William Chalmer Burns.

Então, após viver situações que lembravam o Pentecostes, esse ardente apóstolo foi abruptamente transferido para uma terra que não gosta de estrangeiros - uma terra de ídolos e adoradores pagãos. Ao invés de pregar para milhares, agora pregava para dois ou três. Tinha nesta ocasião a idade de 31 anos. Eu creio que nenhum outro episódio mostra tão claramente o caráter deste homem, como o fato de deixar popularidade, prestígio, saúde e o amor dos amigos e pelos amigos em função das almas perdidas num país distante. Perguntado pelo Sínodo  quando ele estaria pronto para ir `a China, respondeu: "AGORA!", mesmo sem precisar voltar à Escócia . Ele foi o primeiro missionário Inglês à China enviado pela igreja Presbiteriana.

Enquanto esperava a saída do navio em Junho, ele pregava diariamente na Inglaterra. Seus pais, seu irmão Isley e sua esposa vieram para visitá-lo e permaneceram até que ele deixou à Inglaterra. A sua saída da Inglaterra foi repentina. O navio à vela - The Mary Bannatyne - dependia dos ventos favoráveis para partir, então não havia dia marcado para sair. Num dia, ao anoitecer, após pregar na igreja escocesa de Woolwich, perto de Londres, veio a notícia de que o navio ia partir e o esperava em Portsmouth. William rapidamente partiu de trem até o local e embarcou no navio para a longa viagem.  O último sinal que seu irmão - Isley - conseguiu ver de William foi ele estar em pé, junto ao convés, com a Bíblia levantada na mão direita, apontando para ela com a esquerda, "como se", disse  Isley, "para dizer que ali estava a única coisa digna de viver em todo o mundo, e que a Bíblia era o meio de união eterna entre aquele que parte e aquele que fica. O navio ia desaparecendo na escuridão... Eu continuava a ver a William, na mesma atitude, mesmo que agora desaparecido totalmente na escuridão. Eu fui separado, não somente de um irmão, mas de um verdadeiro santo de Deus".

William embarcou, esperando nunca mais ver seus amados e sua amada Escócia novamente.

Seu diário durante a viagem é extremamente interessante. Era Junho quando deixou a Inglaterra e não chegaria a Hong Kong antes de Novembro. Durante este tempo William continuou como tinha começado, orando pela sua família em sua cabine ao amanhecer e ao anoitecer, e, quando o capitão permitia, em outras partes do navio. Estudava o chinês, usando o Novo Testamento em chinês do Dr. Morrinson, tomando conhecimento desta língua, e indo além de suas próprias expectativas, aprendendo rapidamente esta nova língua. Numa noite de Sábado, perto da ilha de Luzon, abateu-se-lhes uma violenta tempestade, a ponto de romper o mastro principal. A tempestade durou até Segunda-feira, deixando o barco à deriva, ao sabor das ondas, levando-o em direção da costa perigosamente. Porém, inesperadamente, o vento mudou de direção e os livrou. Mais tarde William acrescentou que acreditara ser esta tempestade para o bem espiritual de muitos dos seus companheiros de viagem. Certamente eles ficaram impressionados com a fé, a firmeza na verdade de Deus que William demonstrou neste período. O capitão permitiu que realizasse cultos de adoração no barco. Como ele disse, para ele morrer ou viver era algo de pouco valor , mas sim o salvar almas. E era isso que ele buscava fazer em qualquer circunstância.

A China

Burns trabalhou em Canton onde ele tentou pregar em Chinês para prisioneiros em uma jaula comum. Dali ele foi para a ilha de Amoy e traduziu uma edição do "O Peregrino" e um livro de hinos. Depois, de cidade em cidade, ele ia distribuindo literatura evangelística e pregando ao ar livre. Durante uma destas viagens, ele parou em Pechuia, uma cidade central e comercial muito importante. Ali um avivamento começou, e foi tal que relembrava o avivamento que ele presenciou na Escócia. O povo voltava com grande comoção para os caminhos de Deus, e os chineses destruíam seus ídolos e símbolos ancestrais - objetos amados pelos chineses como símbolo de veneração. A simplicidade e o zelo destes novos convertidos literalmente estontearam a comunidade e o movimento alastrou-se espontaneamente como fogo, de vila em vila.

Os últimos dias de um santo

Com exceção de uma curta visita à Escócia sete anos mais tarde, em 1854, o resto de seus dias foram gastos na China.  Ali, vestido como um nativo daquele país, e somente com companhia  chinesa  ele procurou tornar conhecido as verdades salvadoras do seu glorioso evangelho. Foi em Shangai que Burns entrou em contato com outro homem de Deus, Hudson Taylor. Taylor percebeu rapidamente que ali estava um pioneiro no evangelho, um homem único em termos de piedade e amor pelas almas. Mais e mais vezes Taylor comentava em suas audiências na Inglaterra e Estados Unidos como sua própria vida havia sido influenciada e enriquecida com a vida de William Chalmers Burns. Taylor assim escreveu a respeito de Burns: "Aqueles meses felizes foram de uma alegria e conforto inexplicáveis para mim. Seu amor pela Palavra era admirável, e sua santidade, vida de reverência e constante comunhão com Deus fez crescer nossa comunhão ao ponto do meu coração ficar profundamente impressionado com ele. Sua participação nos avivamentos e suas perseguições no Canadá, Dublin e no sudeste da China foram instrutivos tanto quanto interessantes. Com um verdadeiro discernimento espiritual ele geralmente apontava para os propósitos de Deus nas dificuldades, com isso Deus estava dando as  nossas vidas um grande valor, pois participamos nos planos de Deus. Sua  visão especialmente a respeito do evangelismo como sendo o grande trabalho da Igreja, e a ordem bíblica de envio de evangelistas como uma ordem perdida, e que devia ser restaurada, foram pensamentos que estimularam e produziram a conseqüente organização missionária ao interior da China."

J. Hudson Taylor se tornou o fundador da Missão ao Interior da China, e pode se dizer com segurança que esse poderoso movimento espiritual teve origem com William Chalmers Burns, pois ele influenciou grandemente a vida e o pensamento do fundador.
Em 1867, William foi para Nieuchwang, na esperança de estabelecer uma missão na Manchuria. Sua saúde, porém, estava gradualmente deteriorando, e, em janeiro de 1868 ele teve uma queda abrupta da temperatura e em seguida uma febre alta, da qual ele nunca se recuperou. Um santo do lugar, chamado Wanghwang, que era seu auxiliar no ministério, cuidava dele com ternura. "às vezes ele sorria" disse Wanghwang, e eu perguntava porquê. Ele respondia: "Deus está falando comigo agora, e eu estou extremamente feliz" Seus últimos pensamentos forma a respeito do cuidado com os crentes chineses. Dizia: "quando eu for, vocês não terão mais um missionário aqui. Vocês precisam orar muito, pensar e ler muito, só então vocês poderão obter sabedoria. Aleluia! Eu encontrarei vocês no Céus".




O pai de William tinha sido chamado para a glória a alguns anos antes, mas sua mãe ainda estava viva, e enquanto ainda tinha forças ele escreveu para ela uma poucas linhas de conforto e de despedida.
Um irmão missionário estava com Burns quando o fim chegou. Ele leu para ele o salmo favorito de todos os filhos da Escócia . No silencio patético daquele quarto solitário, a voz da leitor foi abruptamente interrompido com essas solenes palavras, "SIM, AINDA QUE EU ANDE PELO VALE..."; e a voz de Burns se tornou mais forte e completou o Salmo para ele. Então após ler o décimo quarto capítulo do evangelho de João e repetindo a oração do Senhor, William juntou todas as forças que ainda tinha, e com grande alegria, juntou-se na final e triunfante nota, "PARA ELE SEJA O REINO, O PODER E A GLORIA...", a voz falhou, a face calma se tornou acinzentada. O fim logo chegou.  

O corpo foi sepultado num cemitério para estrangeiros em Nieuchwang, mas depois foi removido para um novo lugar, no qual se lê a seguinte inscrição:

REV. WILLIAM C. BURNS, M. A.
Missionário para os chineses.
Nascido em Dundee, Escócia,
em 1º de Abril de 1815.
Chegou à China em Novembro de 1847.
Morreu em Nieuchwang, em 4 de Abril de 1868.

"Você conhece William Burns?", um missionário foi perguntado. "Se eu conheço?" disse o missionário, "toda a China o conhece e sabe que ele foi o homem mais santo que aqui viveu!".

Que vida! Que vida vivida para Deus! Certamente a vida deste crente é um estímulo para todos nós nestes dias fáceis, dias de luxúria e egocentrismo disfarçado.

A antítese apostólica resume bem a vida de Burns: "COMO NÃO TENDO NADA, E POSSUINDO TODAS AS COISAS".

"Tão vividamente eu relembro os momentos, a poucos anos atrás", escreveu seu irmão e biógrafo, "quando ele retornou da China, ele tinha consigo apenas algumas páginas impressas em Chinês, uma bíblia inglesa e uma chinesa, uma roupa chinesa simples, um ou dois pequenos livros, uma lanterna chinesa e uma bandeira azul escrito: "O barco do evangelho". Certamente ele era um homem muito, muito pobre", disse seu irmão Isley.

Sim, isto está absolutamente correto, e ao mesmo tempo absolutamente falso. Desde que Cristo estava com ele, e ele viveu somente para Ele e para torná-lO conhecido, ele era rico acima de toda a imaginação. Uma vez ele disse: "estar em união com Cristo, que é o Leão de Israel, e caminhar muito próximo a Ele, que é Sol e Escudo - é tudo o que um pobre pecador necessita para ser feliz entre este mundo aqui e o Céus".  Que assim seja conosco também.

Fonte: Adaptado e resumido por Valdir Noll a partir do livro William Chalmers Burns - James A. Stewart - Editora Lamplighter Publications.