12 de agosto de 2013

LILIAS TROTTER - MISSIONÁRIA NA ARGÉLIA


Lilias Trotter e a Linguagem que Ninguém Conhece



Enquanto escrevo isto, a minha mulher Noël está em Knoxville, Tennessee, onde foi falar numa conferência de mulheres. Entre os seus temas ela tem uma biografia de Lilias Trotter. Trotter foi para a Argélia em 1888 como missionária e fundou a Algiers Mission Band. Uma das coisas mais notáveis sobre ela é que era uma pintora bastante talentosa antes de sair para África, uma das melhores artistas do século XIX, de acordo com John Ruskin. Desistiu desta carreira em troca de viagens perigosas em regiões muçulmanas onde ganhou convertidos entre os árabes, os franceses, os judeus e africanos negros.

Noël indicou-me um dos seus perspicazes pensamentos. Ele tem profundas implicações para a propagação da fé cristã no nosso mundo deveras secular. Citá-lo-ei e depois farei alguns comentários. Cautela, pois não é simples de entender no início. Ela escreveu em 1929,

Quando queremos uma palavra de humildade, esperança ou santidade, só podemos buscá-la nos clássicos, vagamente conhecidos por leitores comuns. Nós escrevemos para um povo ainda não espiritualmente nascido; as palavras só serão entendidas quando as realidades nas quais elas se firmam necessitem serem expressas. Temos de construir uma linguagem espiritual contra a época em que será desejada (I. Lilias Trotter, por Blanche AF Pigott, [London: Marshall, Morgan & Scott Ltd, nd], pp . 129-30)



Não se trata apenas de apresentar um Evangelho em palavras que as pessoas podem compreender, mas de dar-lhes a semente de uma linguagem espiritual em que as coisas que o Espírito Santo ensina possam ser expressas. A carência disso parece ser inversamente proporcional à riqueza da linguagem no respeito aos assuntos seculares... As palavras para as realidades espirituais têm de ser enxertadas na linguagem coloquial, esperando a seiva da nova vida para uni-las numa torrente através delas. (ibid., p. 137)

Pense por um instante em como as palavras se relacionam com a realidade. A palavra "dor de cabeça" existe porque essa experiência existe. Uma pessoa que nunca teve uma dor de cabeça só pode adivinhar o que a palavra se refere. Pode tentar fazer uma analogia: Talvez seja como uma náusea na cabeça. Ou pegue na palavra "cavalheirismo." Se um homem não tem essas tão nobres inclinações não importa quantas definições usemos, ele não saberá, na realidade, do que estamos falando.

Ou perguntemos: "Por que é que existe a palavra obsequioso?" Ela existe porque ao longo do tempo as pessoas mais exigentes viram um tipo de atitude e comportamento que precisavam de uma palavra para descrever. Se você ainda não viu e sentiu este tipo de comportamento, então ouvir sinônimos tais como adulador, bajulador, ou lisonjeiro não vão despertar esse conhecimento.

O que Lilias Trotter disse foi que as palavras referentes a realidades espirituais devem ser usadas mesmo quando a audiência - a cultura, a época - não tenha nenhuma experiência com a qual preencha os termos. "As palavras vão ser compreendidas quando as realidades para as quais se destacam venham a precisar de expressão. Temos de fazer uma linguagem espiritual [que sirva] o tempo em que será necessitada."

Imagine tentar comunicar a realidade da "santidade" e "reverência" a um bando de criminosos que apenas têm desprezo para com a religião e sem pano de fundo religioso. Imagine dizer-lhes que a palavra de Deus é "doce", ou que o "mansos" herdarão a terra, ou de que a fé apreende a "luz do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo." Estas realidades são absolutamente preciosas e cruciais. Elas não podem ser facilmente contidas ou transmitidas numa linguagem criada e definida sem essas experiências espirituais.

Noutras palavras, Lilias Trotter estava alertando contra a ideia de que todas as realidades cruciais podem ser comunicadas na linguagem e categorias que as pessoas trazem para o evangelho. Para ter certeza, o esforço deve ser feito para ajudar as pessoas a ver a nova realidade, usando como ponteiros as palavras que eles já conhecem. No dizer dela, "As palavras para realidades espirituais têm de ser enxertadas no coloquial." Mas o que vai fazer com que o entendimento aconteça será o despertar da nova vida espiritual, preenchendo as palavras enxertadas com a realidade. Então, como ela diz, "A seiva da vida nova [irá] uni-las numa torrente através delas."

Então, como ela conclui, não podemos simplesmente assumir que a linguagem secular pode compreender a realidade espiritual que queremos comunicar. Ao invés disso, devemos "dar-lhes a semente de uma linguagem espiritual em que as coisas que o Espírito Santo ensina possam ser expressas." Existem conceitos, palavras e categorias que talvez tenham de ser introduzidas (enxertadas em algo familiar), de modo a que as realidades preciosas possam ser entendidas. "As palavras serão entendidas quando as realidades para as quais se destacam venham a necessitar de expressão". Quando a "riqueza da língua para todas as finalidades seculares" é superior, ela diz, haverá pobreza da língua para fins espirituais.

Assim, apliquemo-nos a conhecer a realidade por detrás de toda a linguagem bíblica. E trabalhemos em construir tantas pontes para o nosso mundo quantas possamos para que os significados as possam atravessar. Mas não temamos em usar a linguagem espiritual da Bíblia onde ela é estrangeira. Quando todos os nossos esforços na comunicação forem feitos, Deus criará a realidade e preencherá as palavras.

Parábolas da Cruz (1ª parte)
I. Lilias Trotter : Revista À Maturidade - Inverno de 1986
Publicação: 20/07/2009
http://www.celebrandodeus.com.br/imagens/icones/Startright.gif"Para aqueles que se voltam em direção a Ele, para a redenção...".
A morte é o portão da vida
Houve uma profunda percepção nestas antigas palavras. Porque o pensamento natural do homem a respeito da morte é o de um triste fim, em degeneração e decomposição. E ele está correto, do seu ponto de vista, pois a morte, como punição do pecado, é um fim.
Porém, é bastante diferente o pensamento de Deus na redenção do mundo. Ele toma a própria morte, que entrou com a maldição, e a torna em caminho de glória. A morte se torna um começo, em vez de um fim, pois ela se torna o meio de liberação de uma nova vida.
Assim sendo, a esperança que reside nessas lições de morte e vida em forma de parábolas, tem significado somente para aqueles que se voltam em direção a Ele, para a redenção. Para aquele que não se voltaram, a morte permanece inevitável, irrevogável, em toda a sua terrível sentença. Para estes não há nenhum raio de luz que venha através dela.
“A morte de Cruz – a hora triunfante da morte – este foi o ponto onde o portão de Deus se abriu. É a este portão que nos achegamos vez após vez, à medida em que a nossa vida se desenrola e é através dele que passamos, ainda aqui na terra, para a nossa jubilosa ressurreição, para uma vida cada vez mais abundante, pois a cada momento o morrer é ainda mais profundo. A vida cristã é um processo de livramento de um mundo para outro e a “morte”, como em verdade tem sito dito, “é o único caminho para fora de qualquer mundo em que estejamos”.
“A morte é o portão da vida”. É assim que ela é vista por nós? Temos nós aprendido a descer uma vez e outra ao amontoado das suas sombras, em tranqüilidade e confiança, sabendo que há sempre “uma melhor ressurreição” além?
É nos estágios do crescimento de uma planta, no seu desabrochar, florescer, e na produção de sementes, que essa lição veio a mim; a lição da morte em seu poder libertador. Ela veio não como meras imagens extravagantes, mas como uma das muitas vozes com as quais Deus fala, trazendo força e alegria do Seu Santo lugar.
Não podemos traçar o sinal da Cruz na primeira insinuação da nova aurora da primavera? Em muitos casos, como no caso da castanheira, antes que uma única velha folha perca o brilho, os brotos do ano seguinte podem ser vistos, no cume dos ramos e dos galhos, formados à sua própria semelhança; em outros, os brotos das folhas parecem levar a suas marcas ao se romperem através da haste vermelho-cor-de-sangue. De volta aos primeiros estágios da planta, o toque carmesim deve ser encontrado nas folhas com sementes, nos novos brotos e até mesmo nos brotos escondidos. Olhe para o fruto do carvalho, por exemplo, quando ele quebra a sua concha e veja como o broto de árvore leva a sua marca de nascença: é o vermelho-cor-de-sangue, através do qual o aspecto do raio solar surge, saindo das trevas, e o sol nasce saindo da noite. As próprias estrelas, a ciência nos diz, reluzem com esta mesma cor ao nascerem, no universo, das antigas estrelas que morrem.
Que seja também verdadeiro no mundo da graça, assim como o é na Natureza, que cada alma que entre na verdadeira vida, leve no seu princípio este selo carmesim; deve haver o “aspergir do Sangue de Jesus Cristo” individual. Que cada alma saia através do Portão da Cruz.
E aqui está o indispensável. A morte é o único caminho para fora do mundo de condenação em que residimos. Encerrados neste mundo, é vã qualquer batalha para sair dele por esforço próprio; nada pode revogar o decreto: “a alma que pecar, esta morrerá”.
A única escolha que resta é esta: Ou será a nossa própria morte sob a antiga liderança de Adão, segundo todo o significado que Deus dá a essa palavra, ou será a morte de outro em nosso lugar, sob a liderança de Cristo.
É quando chegamos ao desespero, quando nos sentimos imobilizados esperando a nossa ruína, que a glória e a beleza do caminho de escape divino, amanhecem sobre nós, e nos submetemos a Ele neste caminho. Toda a resistência se quebra, à medida em que a fé se firma no fato: “Ele me amou e se entregou por mim”. Recebamos a expiação tão duramente ganha, e saiamos para dentro da vida, não somente perdoados, mas purificados e justificados.
A morte para a penalidade do pecado é o caminho para uma vida de justificação
À medida em que saímos livres, descobrimos que do outro lado da Cruz uma nova existência realmente começou; que o amor do Crucificado tocou as fontes do nosso ser – estamos em outro mundo, sob um céu aberto. “Cristo sofreu pelos pecados, o Justo pelos injustos, para que pudesse nos trazer a Deus”.
Será que você, que lê essas palavras, é alguém que está tentando lutar para sair desta vida natural, para entrar na espiritual, por algum outro caminho que não seja este caminho da Cruz? Isso é tão impossível quanto seria passar de hoje para amanhã, sem fazê-lo através da noite. Sua batalha é uma batalha contra Deus. Renda-se e aceite as Suas condições. Renda-se agora!
Mas, por mais abençoada que possa ser esta passagem para uma vida de paz com Ele, ai da alma que estaciona, pensando que o alvo foi alcançado, e mingua, constituindo-se, por assim dizer, um broto atrofiado. Santidade, não segurança, é o objetivo do nosso chamamento.
E acontece então, que a pressão de uma nova necessidade de livramento é logo sentida por aquele que é leal a voz de Deus em seu coração. As duas vidas estão ali juntas, uma recém-nascida e frágil, a outra forte com um crescimento anterior. “A carne milita contra o espírito e o espírito contra a carne”, e o poder da vontade é dividido entre as duas vidas, tal como a seiva que flui parcialmente para as velhas folhas condenadas e parcialmente para os tenros rebentos.
Consequentemente, há o conflito de um reino dividido contra si mesmo: algumas vezes elas lutam lado a lado, até que o clamor é arrancado – “Ó, desventurado homem que sou; quem me livrará?”
E novamente aqui, quando o ponto de desespero é alcançado, e chegamos a ver que nossos esforços em busca da santidade são tão inúteis quanto os nossos esforços em busca da aceitação para com Deus, é que a porta de escape se abre outra vez.
Glória seja dada a Deus, pois há um caminho definido que conduz para fora da prisão da vida de luta e derrota, pecado e arrependimento, onde tantas almas se debatem por anos, após resolvida a questão do perdão. E este caminho é, novamente, o caminho de morte.
Um estágio de morte deve vir sobre a planta, antes que as novas folhas possam crescer e florescer. Deve haver uma escolha deliberada entre o antigo crescimento e o novo; um deve dar lugar ao outro; o fruto do carvalho tem que chegar ao ponto em que deixe de sustentar a pobreza da sua antiga existência, e permita que toda a seiva vá para o novo rebento; o galho deve retirar sua seiva da folha do ano anterior, e deixa-la fluir para o rebento deste ano.
E antes que a alma possa realmente entrar em uma vida de santidade, com todas as suas abençoadas e infindáveis possibilidades, uma escolha semelhante deve ser feita: todo pecado conhecido deve ser deliberadamente abandonado, para que a marcha ascendente possa ter pleno desenvolvimento.
“Mas”, você diz, “tenho tentado uma vez e outra abandonar o pecado; tenho orado e tenho feito propósitos, mas a vontade encontra seu caminho de volta pelos antigos canais, e mantém vivo o passado, antes que eu o perceba”.
Olhe para a nossa parábola. Os botânicos dizem que em volta do caule da folha, no outono, forma-se uma camada de células de parede fina denominada, “a camada da separação”. Estas células comprimem e rompem as células mais velhas, e, por sua vez, se desintegram até que, sem nenhum esforço, a folha se desprende num corte tão perfeito como se feito por uma faca. A planta sentencia a folha à morte, e os ventos de Deus executam a sentença.
Mas, onde está a barreira que podemos colocar entre nós e a velha natureza? Onde está a sentença de morte que podemos pronunciar sobre ela?
Estamos novamente de volta à cruz! É ali, ao nosso alcance. “Nosso homem velho foi crucificado; pois quem está morto está justificado do pecado”.