6 de agosto de 2015

Winkie Pratney

Confiemos em Deus mesmo quando não enxergamos nada 
 
 Winkie Pratney 











 estamos para viver um período de trevas. Estou convencido de que em determinados lugares vai ser muito difícil para o crente. É verdade que muitos filhos de Deus já sofreram perseguições e adversidades em algumas nações. Mas o período de trevas a que estou-me referindo não é a perseguição do mundo. Falo de uma experiência que sobrevirá a todo crente que quiser empenhar-se no serviço cristão ou a todo que fizer uma séria decisão de agradar somente a Deus.
“Quem há entre vós que tema ao Senhor, e ouça a voz do seu Servo que andou em trevas sem nenhuma luz, e ainda assim confiou em o nome do Senhor e se firmou sobre o seu Deus? Eia! Todos vós, que acendeis fogo, e vos armais de setas incendiárias, andai entre as labaredas do vosso fogo, e entre as setas que acendestes; de mim é que vos sobrevirá isto, e em tormentas vos deitareis.” (Is 50:10,11) 



Na primeira vez em que li essa passagem, supus que ela fosse dirigida a incrédulos, já que fala de trevas. Eu sabia que a Bíblia mencionava apenas três tipos de trevas, e todo mundo sabe que as trevas são para os incrédulos . Talvez Isaías estivesse falando do primeiro tipo de treva – a do pecado. Pois a Bíblia diz: “Os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3:9). 

Em segundo lugar, a palavra trevas na Bíblia tem o sentido de ignorância, e o oposto dela é o termo “luz”. Uma das declarações básicas que as Escrituras fazem acerca de Deus é a seguinte: “Deus é luz, e não há nEle treva nenhuma” (I Jo 1:5). 


E em terceiro lugar, o poder demoníaco por vezes é chamado de “o poder das trevas” (Lc 22:53, At 26:18, Ef 6:12, Cl 1:13). 

Mas as trevas de que fala Isaías não tem relação com nenhum desses conceitos. O fato mais estranho com relação a esse texto (e a esse tipo de trevas) é que isso acontece somente a pessoas que estão caminhando com Deus e que o amam; a crentes que não estão “brincando” com o pecado nem são ignorantes. Então os homens e mulheres de Deus podem conhecer um tipo de trevas que não tem nada a ver com o pecado, nem com a falta de sabedoria, nem com o diabo. E o grande problema é que, quando alguns filhos de Deus passam por ela, não entendem nada e quase são arrasados. 

Todo aquele que tomou a decisão de servir a Deus, mais cedo ou mais tarde, passará por essas trevas. Isso já lhe aconteceu, meu irmão?
Um belo dia descobrimos, de repente, que não temos nenhuma sensação espiritual. Oramos, e nada acontece. Lemos a Bíblia, compreendemos as palavras, mas parece que não há luz. Sondamos o coração e sentimos que não há nada nele que justifique o momento que estamos vivendo. Repreendemos o diabo, pedimos que outros orem por nós, vamos ouvir um pregador de que gostamos e nada acontece. Parece que nada que nos dizem resolve o problema. Nenhuma solução dá certo. 

São João da Cruz chamou a isso “a negra noite da alma”. Tozer denominou-o “o ministério da noite”. Spurgeon também falou sobre “o filho da luz andando em trevas”. Cada um desses homens de Deus abordou a questão por um ponto de vista diferente, mas a experiência é a mesma. Não se trata das trevas do erro, do sentimento de culpa nem da opressão demoníaca. E nem tampouco estão elas relacionadas com o pecado. Trata-se de um inexplicável sentimento de perda e de incerteza. É acima de tudo a impressão de queperdemos o senso da presença de Deus. 


Como são essas trevas ? 
A primeira coisa que acontece é uma estranha sensação de vazio. Não vemos nenhum sinal de Deus. Assistimos aos cultos, copiamos o sermão, achamos a mensagem maravilhosa, mas não sentimos nenhuma vibração no coração. Percebemos que todo mundo está sentindo alguma coisa, mas nós não sentimos nada. 

Então resolvemos orar. Ajoelhamo-nos e dizemos a Deus que não estamos nos sentindo espiritualmente bem. Alguém já disse que a oração “opera maravilhas” , mas dessa vez não recebemos nenhuma luz dos céus. Então resolvemos ouvir um estudo bíblico que sempre nos inspira muito, na esperança de que ali voltaremos a experimentar os rios de água viva – mas nada acontece! Saímos do culto, percebendo que todo mundo foi “grandemente abençoado”, e então pensamos: 

“O que será que eu fiz?” 

Talvez seja um pecado não confessado, pensamos. Pedimos perdão a todo mundo. Escrevemos cartas confessando erros do passado e até da infância. Examinamos tudo que poderia ser a causa do problema, e nada. E concluímos: 

“Ah! Isso só pode ser coisa do diabo, claro. Ainda não assumi autoridade sobre ele em Cristo.” 

E tomamos essa atitude também. E ainda assim nada acontece. 

Precisamos saber que esse tipo de experiência não é novidade. Todos os grandes homens e mulheres da Bíblia passaram por isso. Aconteceu com Abraão, quando estava esperando que Deus aceitasse seu sacrifício (Gn 15:12). Aconteceu a Moisés quando estava na montanha, esperando para receber os mandamentos, na “escuridade” onde Deus se encontrava (Dt 5:22). Ocorreu a Jó, quando este aguardava “o bem” e lhe “veio o mal” (Jó 30:26). Davi também passou por isso quando teve a sensação de que tudo desabava sobre sua cabeça. 

Os profetas também passaram por isso, e choraram. Os reis justos também o experimentaram, e se humilharam diante de Deus. Até mesmo Jesus, o próprio Filho de Deus, teve o seu dia de trevas. E qualquer um que resolver em seu coração buscar a Deus conhecerá tais trevas. Ninguém está isento. Nenhum crente está livre delas. Elas constituem um fator essencial em nossa vida para que tenhamos uma experiência cristã completa e profunda. 

Isso se dá até na natureza. Nenhum ser vivo toleraria viver constantemente à luz do sol. É preciso que haja noite, os dias de nuvens e chuva. Tanto a luz como a escuridão são importantes para o desenvolvimento da planta. Se o sol brilhasse continuamente a Terra viraria um deserto. E assim como há as estações do ano também as do espírito. O verão é muito agradável, mas é preciso que haja inverno também.
Não nos espantemos com a presença das trevas. Mais cedo ou mais tarde Jesus nos ajudará a atravessá-las. 


Como encarar as sensações 
Certa vez uma jovem não crente que estudava numa faculdade evangélica me fez uma pergunta muito interessante:
- Será que os crentes realmente amam a Cristo ou apenas gostam das sensações agradáveis que tem por amarem a Deus? 

Jó teve de encarar essa questão ao ver que seu mundo se desmoronava, e Deus não atendia ao seu clamor. Ele vivera sempre debaixo do cuidado divino, e se sentira seguro, sabendo que Deus, seu Amigo, era também seu protetor e provedor. Ele era também um homem temente a Deus que confiava no Senhor. Foi por isso que Satanás interpelou a Deus a respeito dele. O que o diabo disse, na verdade, foi o seguinte: 
- É claro que Jó te ama e adora. Por que não iria adorar-te: Tu lhe dás tudo que ele quer. Retira as dádivas que lhe tens dado e verás se ele não se torna um dos meus. 


Então Deus permitiu que Satanás submetesse Jó a provas. E ele passou no teste – mas passou raspando. 

E foi assim que aquele homem conheceu as trevas mais terríveis que podem sobrevir a um filho de Deus. Não as trevas do pecado, nem da ignorância, nem dos poderes demoníacos, mas as trevas divinas – as trevas da sensação de que nos afastamos da presença de Deus.
 

E o que podemos fazer para sairmos dessas trevas? Nada. Nada mesmo. Quando é Deus que nos coloca nessas trevas não há nada que possamos fazer para sair delas. É por isso que todas as providências que tomamos dão em nada, todas as orientações que buscamos se mostram inúteis, e nossas frustradas tentativas de solucionar o problema eventualmente acabam num vazio. 

As provas de Deus são enviadas por Ele, e só se dissiparão depois que tiverem concluído a obra que tem de realizar em nossa alma. Jacó se viu “só”, na escuridão, e “lutava com ele um homem, até ao romper do dia” (Gn 32:24). Não podemos nos livrar delas, mas podemos perfeitamente sobreviver a elas. 


Como agir em meio às trevas 
Cumprir nosso dever apesar de tudo.
 O que fazemos quando nos vemos em trevas? Nós logo indagamos: 

- Senhor, entendo que esta situação é muito difícil. Mas o que devo fazer? Silêncio, Não há resposta. 

- Mostra-me pelo menos o que temos de fazer, insistimos. 

Nada. Mas o que fazia a pessoa mencionada em Isaías 50:10? Veja bem, ele estava caminhando. A primeira coisa que temos de fazer quando nos sentimos em trevas é cumprir nosso dever, é seguir na mesma direção em que estávamos seguindo antes. Temos de continuar com nosso viver diário. 

O que foi que Deus nos disse antes que as trevas nos sobreviessem? O que Ele nos havia dito antes, quando ouvíamos claramente sua voz? Continuemos a seguir a orientação dada. Continuemos caminhando. O caminho não muda em nada; o que mudou foi apenas a nossa percepção dEle. Mas apesar disso continuemos cumprindo nosso dever, continuemos andando, mesmo quando as luzes se apagam. 
Confiar no nome do Senhor. Quem está sem luz tem de confiar no nome do Senhor. “Torre forte é o nome do Senhor, à qual o justo se acolhe e está seguro” (Pv 18:10). “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome” (Sl 9:10). O nome de Deus define o que Ele é, e Ele está presente nEle. É o imutável, inabalável e infinito Deus. Ele continua sendo como sempre foi; as trevas não fazem com que Ele mude em nada. O fato de não o vermos não significa que Ele esteja ausente. Deus fez uma aliança conosco. Ele é fiel e continuará sendo. “... ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre” (Hb 13:8). 

Então vamos nos ajoelhar e orar: 

- Senhor, não estou sentindo a tua presença. Não estou experimentando o teu poder. Mas sei que estás presente apesar de tudo, pois a Tua Palavra não muda. Amém. 

Lembrar-se do Caráter de Deus.
E há mais uma coisa que podemos fazer no momento de trevas: relembrar tudo que Deus fez por nós. Nós recebemos muitas bençãos dEle, bençãos reais e não sonhos imaginários. Deus realmente operou em nossa vida. Agora é a hora de relembrar tais coisas.

Vamos lembrar também seu caráter. Quando não pudermos enxergar o caminho, vamos abrir a Palavra, e ler a respeito dEle, recordar como Ele é. Vamos recordar o que Ele já fez por nós. O que já aprendemos a respeito de Deus por experiência própria? É possível que já tenhamos dito: 

- Vi a mão de Deus operando; sei como Ele é. E consagrei-me a Ele para sempre.
 

Será que dissemos isso pra valer? 

Antes nós, outros cristãos já andaram em trevas. E também eles aprenderam que a fé não é algo a que nos agarramos, mas Alguém que nos segura. 


Os perigos do fogo falso 
São João da Cruz compreendeu com rara clareza um aspecto dessa caminhada na “noite escura da alma”. Disse ele: 

“O que eles devem fazer não é entregar-se a meditações e ponderações, já que não é hora para isso. Devem apenas permitir que a alma fique em silêncio e calma, ainda que tenham a impressão de que, não fazendo nada, estão desperdiçando tempo, e mesmo que achem que não tem desejo de pensar em nada por causa de uma fraqueza pessoal. O fato é que se tiverem paciência e perseverarem em oração sem nenhum esforço, já estarão fazendo muita coisa.” 

O texto de Isaías 50 contém uma séria advertência para nós: não procuremos resolver o problema por nossa conta. Se Deus não acender a luz, não devemos fazê-lo nós mesmos. Algumas pessoas tentam agir assim, e depois, encolerizados, explicam: 
- Já que Deus não fala nada, vou tocar em frente. Já que Ele não me dá a orientação certa, vou fazer o que eu acho certo.
O que tais pessoas estão dizendo é: 
- Está bom, Deus, já que o Senhor não quer me orientar, vou seguir minha própria cabeça. 

O que obtemos com isso é uma luz muito rápida e efêmera. Não irá durar muito, e pode cegar-nos. Não acendamos uma luz. Não cometamos o tolo e inútil erro de acender nosso próprio fogo. Se Deus nos deixou em trevas, permitamos que elas façam em nossa alma a obra que Ele deseja. Foi Ele que nos colocou em trevas; podemos estar certos de que Ele nos tirará delas. Se teimarmos em acender nosso fosforozinho, e em fazer aquilo que achamos certo, veremos, por meio dessa luz humana, a destruição de boa parte da benção que Deus tem para nós. Então limitemo-nos a andar segundo a orientação que Deus já nos deu, e permaneçamos fiéis a Ele até recebermos a nova orientação. 


O objetivo das Trevas 
Mas alguém pode estar-se perguntando: 

“Por que Deus está fazendo isso comigo? Quanto tempo isso ainda vai durar? Por que ele não me responde quando falo com Ele? Por que não estou recebendo nenhuma revelação neste momento?” 
Provavelmente é porque este é o único meio pelo qual Deus pode ensinar-lhe lições importantes. E tais lições são basicamente as seguintes: aprender a obedecer a Deus, quer tenha vontade ou não; fazer o que Ele manda; firmar-se na verdade que Ele revelou, quer sinta ou não Sua presença. 

- Vai fazer isso? 

E essa pessoa talvez diga: 
- Claro que vou!
Mas e quanto ao fato de que talvez não sinta a presença dEle? 
Nós temos convicções que Deus gravou e fixou em nosso coração. E achamos que tais convicções são firmes, são inabaláveis, e que nunca duvidaremos delas. Mas assim que entramos no período de trevas começam as indagações. Será que essas convicções são realmente verdadeiras? Então as trevas tem exatamente essa finalidade: por à prova nossas convicções. Desse modo ficaremos sabendo se realmente cremos nelas. E depois que as trevas se dissiparem as únicas convicções que restarão são aquelas em que cremos de fato. 

Vejamos, por exemplo, nossa experiência de consagração. Tivemos uma experiência maravilhosa, talvez num culto da igreja. Vivemos um momento incrível, glorioso, fantástico. Naquele dia dissemos a Deus: 

- Senhor, sei que me chamaste,e agora estou entregando minha vida a Ti. neste momento consagro-me inteiramente a Ti. E nunca irei voltar atrás nesta decisão. 

Mas algum tempo depois passamos por trevas. Quanto tempo será que elas vão durar? Uma semana? Talvez mais. Talvez um ano. Mas assim que elas terminarem de operar em nós, tudo que poderia ser abalado, terá sido abalado. Só restará o que for firme, verdadeiro e sólido.
 


A luz no fim do túnel 
O objetivo das trevas é mostrar-nos que precisamos depender de Deus e somente dEle. Não nos aflijamos por causa da sensação de desamparo e vazio. Mais tarde Ele será uma benção para nós. Deus diz: “Dar-te-ei os tesouros escondidos” (Is 45:3). 



O mesmo acontece com as trevas de Deus. Enquanto não passarmos por essa disciplina divina, não aprenderemos a apreciar devidamente o brilho do conhecimento que possuímos. Entretanto essa escuridão é apenas um túnel. O trem continua sua viagem. Está-se dirigindo para o destino a que precisamos chegar, e o Maquinista conhece muito bem o caminho. O túnel não é eterno. Não permaneceremos para sempre em trevas. Então, eventualmente, sairemos da escuridão e aí a claridade será mais intensa do que era antes de entrarmos no túnel. 


Segurando a mão de Deus 
Deus habita em densa escuridão (Essas palavras falou o senhor a toda a vossa assembléia no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridão, com grande voz; e nada acrescentou. E escreveu-as em duas tábuas de pedra, que ele me deu.Dt 5.22). Para Ele, a luz e as trevas são a mesma coisa (Se eu disser: Ocultem-me as trevas; torne-se em noite a luz que me circunda; nem ainda as trevas são escuras para ti, mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa.Sl 139:11,12). Existem tesouros que só recebemos quando estamos nessa escuridão, pois nela Ele nos revela muitos fatos sobre Si mesmo e sobre nós, que de outra maneira nunca aprenderíamos. 

Lembremos sempre, meu irmão, que nas trevas descobriremos coisas maravilhosas. E ao fim do túnel ouviremos a voz do Senhor (Jesus) dizendo: “Muito bem, servo bom e fiel; entra no gozo do teu Senhor.” 

Precisamos pedir que Deus nos dê coragem para atravessar a escuridão que nos aguarda. Isso é muito necessário porque através dela Deus prepara seus filhos para obedecer-lhe independente do que estiverem sentido.

Você irá passar por essas trevas, amado irmão, mas procure tirar o máximo proveito delas! Com esse silêncio, Ele estará falando ao seu coração.
 

Lembro-me de que quando era garoto vi, na parede da casa de meu avô, um quadro com uns dizeres que muito me impressionaram. Na primeira vez em que o vi, ainda não era crente, mas nunca mais esqueci aquelas palavras. Dizia o seguinte: 

Encontrei um homem à entrada do portão das eras e lhe disse: 
- Dá-me uma luz, para que eu caminhe em segurança pelo desconhecido.

E ele me respondeu: 
- Entre na escuridão, e ponha sua mão na de Deus. Ele lhe será mais claro do que uma luz, e mais seguro do que um caminho conhecido. 

Autor: Winkie Pratney (publicada na revista Mensagem da Cruz)