5 de novembro de 2015

CARTAS DO INFERNO CS Lewis CONSELHOS DE UM VELHO DIABO AO SEU APRENDIZ

CARTAS DO INFERNO
CS Lewis
CONSELHOS DE UM VELHO DIABO AO SEU APRENDIZ

Neste livro de CS Lewis, o velho diabo Screwtape aconselha seu sobrinho Wormwood sobre táticas diabólicas para tirar os humanos do caminho do Senhor.


 “Sua maior ocupação deve ser portanto a de prender a atenção da vítima de modo a jamais se libertar da corrente do "Se eu vejo, creio!". Ensine-o chamar esta corrente "Vida Real", e jamais deixe-o perguntar a si próprio o
que significa "Real". Lembre-se que ele não é puramente espírito
como você. Nunca tendo sido humano (E abominável a
vantagem do Inimigo (Deus ) neste ponto) você não percebe o quanto os
humanos são escravizados à rotina”
“Graças a processos que ensinamos em séculos passados, os
homens acham quase impossível crer em realidades que não
lhes sejam familiares, se estão diante de seus olhos fatos mais
ordinários. Insista pois em lhe mostrar o lado comum das coisas.
Acima de tudo, não faça qualquer tentativa de usar a Ciência
(digo, a verdadeira) como defesa contra o Cristianismo.
Certamente, as Ciências o encorajariam a pensar em realidades
que a visão e o tato não percebem. Tem havido tristes perdas
para nós entre os cientistas da Física. Se a vítima teimar em
mergulhar na Ciência, faça tudo que você puder para dirigi-la
para estudos econômicos e sociais, acima de tudo, não deixe
que ela abandone a indispensável "Vida Real".

“Vejo, com muito desgosto que sua vítima tornou-se um
cristão. Nem por sonho alimente a esperança de que poderá
escapar aos castigos normais; com efeito, em seus melhores
momentos, espero que você nem mesmo pense em tal coisa.
Enquanto isso é preciso que façamos o possível para remediar
essa situação tão indesejável. Não é necessário cairmos no
desespero, conta-se por centenas esses convertidos em idade
adulta que foram reconquistados, depois de uma breve estada
nos arraiais do Inimigo e agora se encontram conosco. Todos os
hábitos do paciente, tanto intelectuais quanto físicos, estão
ainda a nosso favor. Aliás, um dos maiores aliados que temos
hoje é a própria Igreja. Não me interprete mal. Não me refiro à
pestilenta Igreja que vemos difundida através dos séculos por
toda parte com suas raízes na Eternidade, terrível como um
invencível exército com suas bandeiras. ESSE espetáculo
confesso que traz insegurança e inquietação”


Sem dúvida é quase impossível impedir-lhe que interceda por sua mãe, mas temos meios para fazer com que tal intercessão fique nula. Certifique-se de que as orações sejam sempre muito espirituais, de modo que o paciente se preocupe incessantemente com o estado da alma de sua mãe e não com seus "reumatismos".
“Já tive pacientes tão bem manipulados que poderiam mudar num instante de uma
apaixonada oração pelas "almas" de sua esposa ou filhos para o
espancamento e insulto dos familiares reais sem constrangimento algum.”
“A melhor coisa, quando possível, é manter o
paciente totalmente fora da intenção séria de orar.”
“É divertido como os mortais sempre nos pintam como
"colocando coisas em suas mentes": na realidade, nosso melhor
trabalho consiste justamente em evitar que certas coisas
cheguem a suas mentes. Se isto tudo falhar, você deverá
retroceder em um sutil mau encaminhamento de sua intenção.
Sempre que os homens estão procurando fazer a vontade do
Inimigo nós estamos derrotados, mas há formas de evitar que
eles façam assim. A mais simples destas formas é desviar a
contemplação deles do Inimigo para eles próprios. Mantenha-os
na introspecção de suas próprias mentes e na tentativa de
produzir sentimentos "nobres" interiores por sua própria vontade
pessoal. Quando, por exemplo, eles forem pedir ao Inimigo o
dom da compaixão, deixe-os, ao invés disso, iniciar uma
tentativa de produzir sentimentos de compaixão por suas
próprias energias e não se aperceberem que é isso que estão
fazendo. Quando eles começarem a orar por coragem, dê-lhes
uma convicção de serem dotados de bravura. Quando eles
disserem que estão orando pelo perdão, leve-os a já se sentirem
perdoados. Ensine-os a avaliar a eficácia de cada oração pelo
seu sucesso em produzir o sentimento desejado; e nunca
permita que eles suspeitem que o sucesso ou fracasso deste
gênero depende de como eles estejam no momento, seja
dispostos ou doentes, lépidos ou cansados.”


Apenas não permita que nenhuma excitação passageira o distraia de seu real
trabalho de minar o alicerce de fé do paciente, bem como evitar nele a formação de virtudes.”


“Nossa política no momento é de auto-ocultação. E verdade que nem sempre foi assim. Estamos realmente enfrentando um cruel dilema. Quando os humanos não acreditam em nossa existência, perdemos todo o prazer resultante do terrorismo direto e não produzimos feiticeiros, mágicos, esotéricos e assemelhados. Por outro lado, quando eles acreditam em nós, não podemos formar materialistas e ateístas, uma vez que qualquer humano que acreditasse em nós também creria no Inimigo com
facilidade.”
“Os humanos são anfíbios - metade espíritos e metade
animais. (A determinação do Inimigo para produzir estes híbridos
tão revoltantes foi uma das coisas que determinou Nosso Pai a
retirar o apoio que antes prestava a Ele). Como espíritos, eles
fazem parte da existência eterna, mas como animais eles vivem
presos ao tempo. Isso implica em que seus espíritos podem ser
direcionados a objetos eternos e seus corpos, paixões e
imaginações estão em contínua mudança, já que estar ligado ao
tempo significa estar em mutação.”
“A sua característica mais próxima da constância que
caracteriza tudo que é eterno é portanto a ondulação - o retorno
repetido a um nível no qual ele havia caído anteriormente, ou
melhor, uma série de picos e valas. Se você tivesse observado
melhor seu paciente, teria observado esta ondulação em todos
os departamentos de sua vida - seu interesse pelo trabalho, sua
afeição pelos amigos, seus apetites físicos, tudo subindo e
descendo. Portanto, você contemplará, nos períodos emocionais
que ele vivência na terra, riqueza e alegria com períodos
alternados de tristeza, depressão e pobreza. Desta forma, a sequidão
e desânimo que seu paciente está atravessando agora estão longe de
ser -como você imaginava – o fruto vitorioso de seu trabalho;
ele está apenas atravessando um fenômeno natural que não nos
 trará nenhum benefício por si mesmo, a menos que você faça
 bom uso dele.”
“Agora, uma coisa que pode surpreender você é o fato de
que o Inimigo, em sua luta por conquistar almas, Ele as mantém
às vezes por mais tempo nos vales desagradáveis que nos picos
gloriosos, a despeito do desagrado que isso causa nos seres
humanos. E alguns de Seus favoritos especiais são exatamente
os que passam por aflições mais profundas e prolongadas.”
“Temos que encarar a realidade de que tudo que se fala a respeito de Seu amor
pelos homens e sua obra de proporcionar perfeita liberdade não é (como muitos
poderiam acreditar sorridentes) mera propaganda, mas uma
aterradora realidade. Ele realmente quer encher o Universo com
um monte destas pequenas réplicas dEle mesmo, criaturinhas
cujas vidas em uma escala miniaturizada seriam
qualitativamente como Ele próprio, não porque Ele as tivesse
absorvido mas porque suas vontades livres eram semelhantes à
dEle. Nós queremos criar gado que finalmente nos sirva de
alimento; Ele quer servos que mais tarde converterá em filhos.
Nós queremos sugá-los, Ele quer premiá-los; Nos somos vazios e
queremos nos encher através deles, Ele é pleno e assim
transborda.”
“E é aí mesmo que a coisa aperta. Você tem freqüentemente
se maravilhado porque o Inimigo não faz maior uso de Seu poder
para se apresentar sensivelmente às almas humanas em
qualquer grau que lhe desse vontade, e a qualquer momento.
Mas agora você entende que o Irresistível e o Indisputável são as
duas armas que a própria natureza do Inimigo o proíbe de usar.
Apenas sobrepujar uma vontade humana (com sua própria
Presença num grau que parecesse inquestionável ao homem)
não valeria coisa alguma para Ele.”

“Já Ele, não pode tentar suas virtudes, como usamos fazer.
Ele quer que eles aprendam a caminhar e então escolham
segurar em Sua mão; e esse conduzir pela mão é fortemente
aplicado nas situações em que eles estão lidando com seus
tropeços. Mas não se deixe enganar, Wormwood! Nossa causa
nunca estará mais ameaçada do que nas vezes que um ser
humano, mesmo não desejando pessoalmente alguma coisa,
estiver fazendo a vontade do Inimigo, ainda mais quando ele
estiver observando o universo em seu redor, sem conseguir ver
o menor traço do Inimigo se perguntando porque Ele o teria
abandonado assim, e mesmo assim OBEDECENDO.
Mas claro que estas situações de solidão também nos
beneficiam. Na próxima semana, eu lhe darei algumas dicas
acerca de como explorá-las.”
“Você consegue mais facilmente
transformar sua vítima num alcoólatra inveterado quando lhe
sugere usar o álcool como uma anestesia contra alguma dor ou
tristeza que o esteja acometendo. Não espere grandes
resultados quando tentar levá-lo ao vício da bebida exatamente
quando ele está feliz celebrando aniversários, vitórias do seu
time de futebol ou promoções na carreira profissional. Nunca se
esqueça de que quando estamos lidando com qualquer forma de
prazer sadio e qualquer forma de satisfação normal, de certa
forma estamos pisando no terreno do Inimigo. Eu sei que nós
temos alcançado muitas almas através dos prazeres; mas não
nos esqueçamos que todo prazer é invenção dEle! Ele criou
todos os prazeres; toda nossa pesquisa através dos séculos não
foi capaz de criar uma única forma de prazer. Tudo que podemos
fazer é encorajar os seres humanos a tomar os prazeres que o
Inimigo criou de formas ou intensidades que Ele mesmo tenha
proibido.”
“Mas existe uma forma ainda melhor de explorar os
"desertos". Quero dizer, através dos próprios pensamentos do
paciente a respeito do deserto. Como sempre, nosso primeiro
passo é afastar o conhecimento de sua mente. Não o deixe
sequer suspeitar da existência da Lei da Ondulação. Deixe-o
assumir que os primeiros ardores de sua conversão deveriam
permanecer indefinidamente, e mostre-lhe que deveriam, mas
passaram, e portanto a atual situação de sequidão e indiferença
é uma condição igualmente permanente. Uma vez que tenha
colocado essa mentira na mente dele, você pode agir de várias
maneiras.”
“Se ele é do tipo mais esperançoso, seu trabalho é mantê-lo
na baixa temperatura espiritual que se encontra e gradualmente
mudar a visão dele de forma a acreditar que ele não está tão
mal assim. Em uma semana ou duas você o verá começar a
duvidar se seus primeiros dias no Cristianismo não foram
exagerados ou excessivos. Fale a ele acerca da "moderação em
todas as coisas". Se você conseguir convencê-lo de que a
espiritualidade é muito boa mas só até certo ponto, pode
começar a sentir o gostinho de sua alma. Uma espiritualidade
morna é tão boa para nós quanto espiritualidade nenhuma, e
bem mais divertida, além disso.”

“Achar graça é algo estreitamente relacionado à alegria - um
tipo de frivolidade emocional que brota do instinto de brincar.
Isso é de quase nenhuma utilidade para você. Pode ser usada,
de acordo, para divertir humanos a partir de alguma coisa
contrária ao que o Inimigo gostaria que eles se divertissem: mas
a diversão em si mesma já traz tendências indesejáveis; ela
promove caridade, coragem, contentamento e muitos outros
males horríveis.”
“Se um sujeito sempre deixa os amigos pagarem sua
conta no restaurante, rapidamente seria qualificado como "mão
de vaca". Mas se nas ocasiões que isso acontecer ele fizer
piadas, gozando os amigos explorados e chamando a ele mesmo
de avarento, um fenômeno estranho acontece: Todos passam a
vê-lo não como sovina, mas como um sujeito engraçado. A
simples covardia é profundamente vergonhosa. Mas se a
adornarmos com um monte de gracejos e comentários
exagerados (tipo brincarmos com um soldado que fugiu e
abandonou seus companheiros numa hora difícil, dizendo que ele
tem medo das baratas do quarto, e o mesmo fazendo caretas
quando comentassem) a covardia se tornará como num passe de
mágica apenas uma coisa engraçada. A crueldade é terrível para
os humanos, e inaceitável, a menos que o homem cruel possa
ser representado de forma cômica e espalhafatosa. Milhares de
anedotas imorais, ou mesmo blasfemas, não destruiriam tanto a
alma de um indivíduo quanto a descoberta de que o mesmo
possa praticar e até proclamar atos reprováveis, desde que os
cerque de graça e comicidade. As pessoas podem mesmo
admirar o pecador, olvidando as faltas cometidas em nome de
dar risada delas. Qualquer excesso que ela percebesse estar
cometendo seria imediatamente abafada debaixo da idéia que
isso seria.”