10 de setembro de 2014

ENTENDENDO O LIVRO DE JÓ C. H. Mackintosh

ENTENDENDO O LIVRO DE JÓ

C. H. Mackintosh


 
O livro do Jó ocupa um lugar muito particular na Palavra de Deus. Tem um carácter totalmente próprio, e ensina lições que as não vamos encontrar em nenhuma outra parte do inspirado Volume. Recebemos o livro do Jó como parte das Santas Escrituras e, por conseguinte, para o proveito e bênção do povo de Deus. Recebemos o livro como procedente de Deus, e isto basta-nos. Cremos de todo coração que é um escrito inspirado, e sentimos que não nos incumbe discutir a questão referente a onde, quando ou por quem foi escrito.


 Queira o Espírito eterno — o Autor do livro— explicá-lo e aplicá-lo às nossas almas!

A GRANDE PROSPERIDADE DE JÓ

Na primeira folha deste notável livro vemos o patriarca Jó  rodeado de tudo quanto o mundo podia fazer agradável aos seus olhos, assim como de coisas que neste mundo lhe podiam outorgar um lugar importante. “
Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal.” (Jó 1:1 ) Vemos aqui o que era Jó na sua vida.
VEJAMOS O QUE JÓ POSSUIA-


E nasceram-lhe sete filhos e três filhas. E o seu gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do oriente. E iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem com eles.” (Jó 1:2-4 )
VEJAMOS TAMBÉM O QUE JÓ FAZIA-

Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia ele: Talvez pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim fazia Jó continuamente. (Jó 1:5 )


Aqui temos, pois, um modelo de homem bastante fora do comum. Era perfeito e reto, temeroso de Deus e afastado do mal. Além disso, a mão de Deus o protegia em tudo, e derramava sobre o seu caminho as mais ricas bênçãos. Jó tinha tudo o que o coração pudesse desejar: filhos, abundância de riquezas, honra e distinção sobre todos os que o rodeavam. Numa palavra, quase diríamos que a taça do seu deleite terrestre estava cheia.

O ORGULHO DO JÓ


Mas Jó precisava de ser provado. Abrigava no seu coração uma profunda raiz moral que tinha de ser manifestada à luz; uma justiça própria que tinha de sair à superfície e ser julgada. Podemos, com efeito, vislumbrar esta raiz nos versículos que acabamos de ler. Ele diz: “
Talvez pecaram meus filhos” (Jó 1:5 ). Não parece ter contemplado a possibilidade de que ele mesmo tenha cometido algum pecado. Uma alma que realmente se julgou a si mesma, uma alma quebrantada ante Deus, verdadeiramente consciente do seu próprio estado, das suas tendências e incapacidades, teria pensado nos seus próprios pecados e na necessidade de oferecer um holocausto por si mesmo.

Mas deve ficar claro ao leitor que Jó era um verdadeiro santo de Deus, uma alma divinamente vivificada, um possuidor da vida divina e eterna. Não poderíamos insistir o suficiente sobre este ponto. Ele era um homem de Deus tanto no primeiro capítulo como no último. Se não nos apercebemos disto, privar-nos-emos de uma das grandes lições deste livro. O versículo 8 do primeiro capítulo estabelece este ponto fora de toda a dúvida:              
“E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal. (Jó 1:8 )


Todavia, apesar disso, Jó nunca tinha sondado as profundidades do seu próprio coração. Não se conhecia a si mesmo. Nunca tinha captado realmente a verdade da sua própria condição de ruína, da sua total corrupção. Jamais tinha aprendido a dizer: “
Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm 7:18 ) Se não se compreender este ponto, não se entenderá o livro de Jó. Não captaremos o objetivo específico de todos esses profundos e penosos exercícios pelos quais Jó teve que passar, a menos que tenhamos clarificado o solene fato de que a sua consciência nunca tinha estado realmente na presença divina, que ele nunca se tinha examinado ante a luz, que jamais se mediu com a vara divina e que nunca se tinha pesado na balança do santuário de Deus.


Se nos remetermos por uns instantes ao capítulo 29 acharemos uma prova fidedigna do que acabamos de afirmar. Veremos ali de forma clara a profunda e robusta raiz da satisfação pessoal que havia no coração deste querido e honrado servo de Deus, e a maneira como esta raiz se nutria dos mesmos sinais do favor divino que a rodeavam. Este capítulo encerra um patético lamento pelo brilho embaciado dos seus dias passados; além disso, o tom e o caráter deste lamento deixam manifesto quão necessário era que Jó se despojasse de tudo a fim de conhecer-se si mesmo à luz da presença divina que tudo esquadrinha. Escutemos suas palavras:

AH! QUEM ME DERA SER COMO EU FUI NOS MESES PASSADOS, COMO NOS DIAS EM QUE DEUS ME GUARDAVA! QUANDO FAZIA RESPLANDECER A SUA LÂMPADA SOBRE A MINHA CABEÇA E QUANDO EU PELA SUA LUZ CAMINHAVA PELAS TREVAS. COMO FUI NOS DIAS DA MINHA MOCIDADE, QUANDO O SEGREDO DE DEUS ESTAVA SOBRE A MINHA TENDA;

QUANDO O TODO-PODEROSO AINDA ESTAVA COMIGO, E OS MEUS FILHOS EM REDOR DE MIM. QUANDO LAVAVA OS MEUS PASSOS NA MANTEIGA, E DA ROCHA ME CORRIAM RIBEIROS DE AZEITE; QUANDO EU SAÍA PARA A PORTA DA CIDADE, E NA RUA FAZIA PREPARAR A MINHA CADEIRA, OS MOÇOS ME VIAM, E SE ESCONDIAM, E ATÉ OS IDOSOS SE LEVANTAVAM E SE PUNHAM EM PÉ; OS PRÍNCIPES CONTINHAM AS SUAS PALAVRAS, E PUNHAM A MÃO SOBRE A SUA BOCA; A VOZ DOS NOBRES SE CALAVA, E A SUA LÍNGUA APEGAVA-SE AO SEU PALADAR. OUVINDO-ME ALGUM OUVIDO, ME TINHA POR BEM-AVENTURADO; VENDO-ME ALGUM OLHO, DAVA TESTEMUNHO DE MIM; PORQUE EU LIVRAVA O MISERÁVEL, QUE CLAMAVA, COMO TAMBÉM O ÓRFÃO QUE NÃO TINHA QUEM O SOCORRESSE. A BÊNÇÃO DO QUE IA PERECENDO VINHA SOBRE MIM, E EU FAZIA QUE REJUBILASSE O CORAÇÃO DA VIÚVA. VESTIA-ME DA JUSTIÇA, E ELA ME SERVIA DE VESTIMENTA; COMO MANTO E DIADEMA ERA A MINHA JUSTIÇA.

EU ME FAZIA DE OLHOS PARA O CEGO, E DE PÉS PARA O COXO. DOS NECESSITADOS ERA PAI, E AS CAUSAS DE QUE EU NÃO TINHA CONHECIMENTO INQUIRIA COM DILIGÊNCIA. E QUEBRAVA OS QUEIXOS DO PERVERSO, E DOS SEUS DENTES TIRAVA A PRESA. E DIZIA: NO MEU NINHO EXPIRAREI, E MULTIPLICAREI OS MEUS DIAS COMO A AREIA. A MINHA RAIZ SE ESTENDIA JUNTO ÀS ÁGUAS, E O ORVALHO PERMANECIA SOBRE OS MEUS RAMOS; A MINHA HONRA SE RENOVAVA EM MIM, E O MEU ARCO SE REFORÇAVA NA MINHA MÃO. OUVIAM-ME E ESPERAVAM, E EM SILÊNCIO ATENDIAM AO MEU CONSELHO.
HAVENDO EU FALADO, NÃO REPLICAVAM, E MINHAS RAZÕES DESTILAVAM SOBRE ELES; PORQUE ME ESPERAVAM, COMO À CHUVA; E ABRIAM A SUA BOCA, COMO À CHUVA TARDIA. SE EU RIA PARA ELES, NÃO O CRIAM, E A LUZ DO MEU ROSTO NÃO FAZIAM ABATER;
EU ESCOLHIA O SEU CAMINHO, ASSENTAVA-ME COMO CHEFE, E HABITAVA COMO REI ENTRE AS SUAS TROPAS; COMO AQUELE QUE CONSOLA OS QUE PRANTEIAM. AGORA, PORÉM, SE RIEM DE MIM OS DE MENOS IDADE DO QUE EU, CUJOS PAIS EU TERIA DESDENHADO DE PÔR COM OS CÃES DO MEU REBANHO. (JÓ 29:2 A 30:1 )


Estas, certamente, são expressões muito notáveis. Em vão procuraremos aqui os suspiros de um espírito contrito e quebrantado. Não há sinais de nenhum aborrecimento próprio, nem muito menos de uma desconfiança em si mesmo. Expressões que manifestem consciência de debilidade ou de insignificância, brilham pela sua ausência. Só no decurso deste capítulo, Jó menciona-se a si mesmo mais de quarenta vezes, enquanto que os seus pensamentos não se dirigem a Deus mais do que cinco vezes.

Este constante predomínio do eu faz-nos recordar o capítulo sete de Romanos “Não sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido. Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra. Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado. E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento que era para vida, achei eu que me era para morte. Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele me matou. E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom. Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno. Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.” (Rm 7:1-25);
 Mas há que assinalar uma importantíssima diferença, a saber, que no capítulo sete de Romanos, o eu é uma pobre, débil, imprestável e miserável criatura que se acha em presença da santa lei de Deus; enquanto que em Jó 29, o eu é um personagem de destacada importância e influência, um personagem admirado e quase adorado pelos seus semelhantes.




Tradução de Carlos António da Rocha