9 de setembro de 2014

Johann Sebastian Bach

Johann Sebastian Bach


No castelo de Wartburg, algum tempo antes, Lutero havia-se recolhido para traçar os planos da Reforma. Ali mesmo Bach compôs muitas de suas obras.

O mesmo espírito que presidiu à Reforma foi o que deu vida e força à sua obra: a paixão pelo Cristianismo na sua pureza primitiva. A grande obra da vida de Bach foi oferecer-nos uma versão musical do Cristianismo. Os pintores do Renascimento, os seus escultores e arquitetos, cuidaram de fixar o espírito cristão em linhas, cores e volumes. Bach transformou o Cristianismo em som. E essa versão é, sem dúvida, a mais fiel, a mais pura e a mais profunda. Há, entre a música e o Cristianismo, um parentesco íntimo. Em ambos o que vale é o que não se vê, o real é o que está acima dos nossos sentidos. O Reino de Cristo não é o mundo físico: o seu domínio começa justamente onde termina a nossa capacidade de ver, de compreender e de sentir. 

O reino de Cristo é uma linguagem além das palavras, uma escada que nos liga ao mundo que os nossos pés não podem atingir, mas onde a nossa alma se sente como na sua própria pátria. A música no Cristianismo representa um esforço no sentido do crente se libertar do frio e imutável silêncio que o cerca, para entrar em comunhão com o Seu Criador, Salvador e Senhor, que o acolhe.

O Cristianismo foi a grande paixão do tempo de Bach, e a sua própria. Ele é protestante no exato sentido de Lutero: o seu desejo era o retorno à verdadeira doutrina de Cristo, isenta das adaptações e das interpretações dos Padres. A sua música fixa e exalta de tal forma esse sentimento que dá a impressão de uma longa prece, que sobe aos Céus e vai até ao Trono de Deus. A linguagem musical de Bach alcançou uma significação universal porque é a expressão do anseio e da esperança do imutável coração humano de se encontrar com o Seu Salvador. Não apenas as suas energias espirituais cristãs, mas todas as forças espirituais cristãs do seu tempo se reuniram em torno da criação do seu estilo.

As cantatas de Bach arrastam-nos para um mundo de estranhas, majestosas e fantásticas visões. Bach levou o estilo barroco às últimas consequências. A sua polifonia é tão intrincada, a floresta da sua música é tão densa, que os próprios contemporâneos não chegaram a perceber a sua beleza selvagem. Ele é tão claro e ardente quanto o Sol, que ninguém consegue olhar a olho nu. Foi necessário que a névoa do tempo se interpusesse entre ele e nós para podermos contemplar o seu fulgurante esplendor. O barroco de Bach é a vida em plenitude, a vida na sua impetuosidade de anseios, de beleza, de miséria e de infinita beleza. Bach sentiu a música como uma porta aberta para o Eterno, a qual é dada ao homem cristão, para ele poder consolar-se da sua miséria e das suas fraquezas, quer alegrando-se com a esperança da sua vocação eterna, para comunicar-se com o Ser Divino, com o mundo dos seus anseios, a pátria das suas íntimas esperanças, o Paraíso de Deus!


É ouvindo uma cantata de Bach que somos tocados pela compreensão da nossa presença no mundo e do sentido do nosso destino. Fomos feitos, como os pássaros, como as flores, para louvor e honra do nosso Criador. O desejo mais alto de Bach foi chegar a Deus. E conseguiu esse intento libertando-se de toda a contingência humana e pondo toda a sua esperança no sacrifício vicário de Jesus. Bach buscou traduzir em música esse seu sentimento de alegria na vitória final de Jesus. E fê-lo com tanta força criadora e com tanta sinceridade, que é, ainda hoje, escutando a sua maravilhosa música que os Cristãos são como que transportados ao Céu e dialogam com Deus.



Não se pode dizer que Bach foi o maior dos músicos, porque não há fita métrica para medir o génio. E como as árvores, os homens devem ser avaliados, não pela sua aparência, mas pelas raízes que têm sobre a Terra. Essas raízes são o sustentáculo contra o vendaval do tempo, que tudo leva de roldão. Nesse sentido Bach dispõe de uma situação privilegiada. A sua fortaleza é uma glória inexpugnável já que tem as suas raízes numa fé simples e sincera na obra de salvação do Seu Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A música de Bach é densa e impenetrável como uma floresta tropical. Os que, no entanto se aventuram a enfrentar os perigos dessa selva, descobrem no seu interior maravilhosas estradas, calçadas de pedrarias raras e atapetadas de flores, que nos induzem ao distante e verdadeiro Reino de Emanuel.



Os Evangelistas trouxeram-nos, através de palavras, até nós a lição de Cristo. Bach compreendeu que o Homem vive longe do Seu Criador. O Homem perdido nos seus pecados tem medo do Seu Criador, não compreende as coisas espirituais. Bach era um crente em Jesus. Na sua obra Jesus surge na sublime apoteose da pureza, como o Filho do Homem, capaz de sentir as dores e as alegrias, e, sobretudo, o Salvador capaz de perdoar os pecados e as fraquezas, que são as contingências da nossa natureza e os símbolos do nosso nada. Desde o “Oratório de Natal” até as “Paixões”, Bach acompanha toda a vida terrena de Jesus. Nunca na música o espírito de Cristo foi tão bem fixado.

Em Mülhlausen, confessou humildemente: “Tive sempre o pensamento de fazer progredir a música, para maior glória de Deus”.


No “Orgelbüchlein”, em que reúne uma série de trabalhos compostos em Weimar, Bach escreveu essa epígrafe: “Para maior glória do Altíssimo e melhor instrução do próximo”

.”

A música de Bach valorizava e purificava todos os temas. Nas suas mãos os temas mais comuns adquiriam brilho e o esplendor. Transformou, seguindo o exemplo de Lutero, canções licenciosas e picantes em corais piedosos.

De tal maneira a música de Bach fixa a alegria da Terra, dos homens simples e das almas puras, pela vinda do Salvador!


A arte tem, sobre as demais atividades humanas, a vantagem de estar liberta das contingências do tempo. Um estudante de astronomia pode hoje refutar Aristóteles; muita da ciência de Platão faz rir, agora, ao aluno mais medíocre; um neófito na medicina muito teria a ensinar a Hipócrates. No terreno da Música, tudo se passa diferentemente. Há, sim, um torvelinho de escolas e estilos, de linguagens e expressões. Mas uma obra, como a de Bach, que expressa uma concepção do mundo e simboliza o sentido de uma época, jamais será superada. As gerações hão de reverenciá-la pelos séculos fora, como uma das mais altas expressões do espírito humano, que nela se fez música para viver além do tempo e levar a Deus a gratidão do homem crente, satisfeito com a obra redentora de Jesus Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus!

Antes, durante, e após, a audição de música de Bach, eu apenas pronuncio: “Assim, os justos louvarão o Teu nome; os retos habitarão na Tua presença.” Sl 140:13


Artigo de Carlos António da Rocha