5 de abril de 2015

SERMÃO DE PÁSCOA Charles Haddon Spurgeon

SERMÃO DE PÁSCOA
Charles Haddon Spurgeon
“Lembre-se Jesus Cristo, da linhagem de Davi, ressuscitou dos mortos, segundo o meu evangelho” 2º Timóteo 2:8




Creio que se Deus tivesse feito que o poder dependesse do pregador e de seu estilo, teria decidido que a ressurreição, a maior de todas as verdades, deveria ser proclamada por anjos e não por homens. Contudo, deixou de lado o serafim por uma das criaturas mais humildes. Depois que os anjos falaram uma palavra ou duas às mulheres, seu testemunho cessou.
O mais relevante testemunho da ressurreição do Senhor foi, inicialmente, o das santas mulheres, e depois por cada um dos discípulos que foram bem incapazes de descrever com eloqüência o que haviam contemplado.
 “O Senhor ressuscitou verdadeiramente” é a suma e substância de nosso testemunho, quando falamos de nosso Redentor ressuscitado. Basta que saibamos a verdade desta ressurreição, e que sintamos seu poder, para que o modo de nossa pregação seja de uma transcendência secundária, pois o Espírito Santo dará testemunho da verdade, e fará que produza frutos na mente dos nossos ouvintes.


Três ou quatro fatos simples constituem o Evangelho, de acordo com o que expõe Paulo no capitulo quinze de sua primeira Epístola aos Coríntios: Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras.”Nossa salvação depende da encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus. Aquele que crê retamente nestas verdades, tem crido no Evangelho, e crendo no Evangelho, encontrará nele, sem duvida alguma, a salvação eterna.
Porém, os homens buscam novidades; não podem tolerar que a trombeta toque o mesmo som inevitável; eles anseiam a cada dia por alguma nova fantasia musical. “O Evangelho com variações”, essa é a musica para eles. Dizem que o intelecto é progressivo, e, portanto, marcharão à frente de seus predecessores. A Deidade encarnada, uma vida santa, uma morte expiatória, e uma ressurreição literal, todos estes são temas que já tem ouvido durante dezenove séculos, e que, portanto, converteram-se um pouco desatualizadas, e que a mente culta tem fome de uma troca do antiquado maná.

Esta tendência era evidente mesmo nos dias de Paulo, e assim, decidiram considerar os fatos como mistérios ou parábolas, e se esforçaram por encontrar um significado espiritual nesses eventos, mas foram tão longe, que chegaram a negar-lhes como reais. Na busca e um significado escondido, passaram por alto o fato mesmo, perdendo a forma mesma em uma insensata preferência pela sombra. Aquele que cria como uma criança foi colocado de lado como um idiota para que o polemista e o escriba pudesse entrar e envolver a simplicidade em mistério e ocultar a luz da verdade. A partir daqui surgiram certos indivíduos como Himeneo e Fileto “que se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já aconteceu e transtornaram a fé de alguns.” Busquem o versículo dezessete e leiam vocês mesmo. Fizeram da ressurreição como que um vapor; fizeram com que tivesse um significado muito profundo e místico, sendo que a ressurreição real foi completamente removida com este processo. Entre os homens há uma ânsia de novos significados e de refinamentos sobre as velhas doutrinas, e espiritualizações de fatos literais. Com violência arrancam as entranhas da verdade e nos entregam um esqueleto repleto de hipóteses e especulações, e maiores esperanças.
 
O apóstolo Paulo estava bastante ansioso de que Timóteo se mantivesse firme pelo menos em relação a fé antiga, e que entendesse em seu claro significado os testemunhos de Paulo referentes ao fato de que Jesus Cristo, da semente de Davi, ressuscitou dos mortos.

Até onde vai o alcance deste versículo, registra-se vários fatos: o primeiro encontramos aqui, a grande verdade de que Jesus, o Filho do Altíssimo, foi ungido de Deus; o apóstolo o chama: “Cristo Jesus”, isto é, o Messias, o enviado de Deus. Esse Jesus Cristo foi real e verdadeiramente homem, pois Paulo disse que Ele foi “da linhagem de Davi”. É claro que era divino, e Seu nascimento não ocorreu da maneira comum dos homens, porem ainda assim, participou em todos os sentidos da nossa natureza humana, e veio da linhagem de Davi. Nós cremos nisto também.
Não, em carne verdadeira e sangue verdadeiro o Filho de Deus habitou entre os homens. Ele foi ossos de nossos ossos e carne de nossa carne nos dias de Sua morada aqui na Terra. Nós sabemos e cremos que Jesus Cristo veio em carne. Amamos ao Deus encarnado, e nele temos nossa confiança.
Também está implícito no texto que Jesus morreu; pois não poderia ter ressuscitado dos mortos se não tivesse descido primeiro entre os mortos, e não tivesse sido um deles. Se Jesus morreu: a crucificação não foi um engano; seu lado transpassado com uma lança foi uma prova sumária, clara e evidente de que estava morto. Nenhum homem deste mundo esteve certamente mais morto que Ele. “Se pôs com os ímpios sua sepultura, mas com os ricos foi em sua morte”. Como morto o colocaram no lugar dos mortos, com mortalha, ataduras e roupas adequadas para um morto: e logo rodaram a grande pedra que tapava a sepultura na rocha e ali O deixaram, sabendo que estava morto.
Em seguida vem a grande verdade de que assim que o sol iniciou seu terceiro turno brilhante, Jesus ressuscitou. Seu corpo não tinha sofrido corrupção, pois não era possível que este santo cadáver visse corrupção; porem, ainda assim, tinha estado morto, e pelo poder de Deus, por seu próprio poder, antes que o sol tivesse saído, seu cadáver foi revivificado. A alma do Redentor tomou posse outra vez do corpo, que viveu uma vez mais. Ali estava dentro do sepulcro, vivo, em sua totalidade como sempre esteve. Ele saiu da tumba, literal e verdadeiramente, em seu corpo material, para viver entre os homens até a hora de Sua ascensão ao céu.
Esta é a verdade que se deve ensinar, embora, apesar de que alguns queiram refiná-la, ou se atrevem a espiritualizar-la. Este é o fato histórico que os apóstolos presenciaram; esta é a verdade pela qual os confessores sangraram e morreram. Esta é a doutrina que é a pedra angular do Cristianismo, e aqueles que não a mantém deixaram de lado a verdade essencial de Deus. Como podem esperar a salvação de suas almas, se não crêem que o Senhor ressuscitou verdadeiramente?

I. Primeiro, amados, com a ajuda de Deus, temos QUE CONSIDERAR AS REPERCUÇÕES DO FATO DE QUE JESUS RESSUSSITOU DOS MORTOS.
É claro que a ressurreição de Nosso Senhor foi uma prova tangível de que há outra vida. Vocês não têm citado muitas vezes certas linhas sobre “esse pais desconhecido de que nenhum viajante regressa”? Não é assim. Teve um viajante que disse “Vou, pois, preparar lugar para vós. E se foi preparar lugar e voltarei, outra vez, e os levarei para mim, para onde eu estiver vós também estareis”. Ele disse: “Ainda por um tempo me vereis, e de novo um pouco me vereis; porque eu volto para o Pai”. Não se recordam destas palavras Dele? Nosso Divino Senhor foi a uns pais desconhecido e regressou. Ele disse que ao terceiro dia regressaria e foi fiel a sua palavra. Não há nenhuma dúvida de existe outro estado para vida humana, pois Jesus esteve nele e regressou dele. Não temos nenhuma duvida quanto à existência futura, pois Jesus existiu depois da morte. Não temos nenhuma dúvida quanto a um paraíso de futura bem-aventurança, pois Jesus foi para lá e voltou. Ainda que Ele voltou a deixar-nos para ficar conosco mais 40 dias,nos garantiu sua volta uma segunda vez quando chegue a hora marcada, e então permanecerá conosco por mil anos, e reinara na terra com Seus anciãos em glória. Seu retorno dos mortos é uma garantia para nós da existência de vida depois da morte, e nós nos alegramos nisso.



Sua ressurreição é também uma garantia de que o corpo vivera outra vez e será elevado a uma condição superior, pois o corpo de nosso Bendito Mestre não era nenhum fantasma depois da morte, como também não o foi antes. “Toca e vê”, Oh! Que prova portentosa! Ele disse “Toca e vê”, e logo disse a Tomé: “Poe aqui teu dedo, olha minhas mãos: e vem, poe tua mão ,toca-me do lado” que engano seria possível com isto? O Jesus ressuscitado não era um mero espírito. Ele falou imediatamente; “Um espírito não tem carne nem ossos, como podeis ver que eu tenho.” E perguntou, “Tereis algo para comer?” para mostrar-lhes como Seu corpo era real, embora não tivesse necessidade de comer. E comeu um pão de mel e parte de um peixe assado, como provas da realidade do ato.
Já não era mais desprezado e descartado pelos homens, senão que estava rodeado de glória. É evidente que o corpo ressuscitado passava de um lugar para outro em um instante, que aparecia e desaparecia segundo sua vontade, e que era superior as leis da matéria. O corpo ressuscitado era incapaz de sentir dor, fome, sede e nem cansaço durante o tempo que permaneceu aqui na terra: era um representante apropriado de todos aqueles que dormiram, dos quais é as primícias.
De nosso corpo também em breve se poderá dizer: “Foi semeado na fraqueza, é ressuscitado em poder; foi semeado em desonra, ressuscitará em glória.” Então, ao pensar em Cristo ressuscitado, devemos estar bem seguros da uma vida futura, e muito seguros que nosso corpo existirá nela em uma condição glorificada.
Eu não sei se às vezes vocês ficam perturbados pelas dúvidas em relação ao mundo vindouro, no quanto se pode ser certo que viveremos eternamente. Este aspecto é que faz a morte parecer terrível aos que duvidam; pois mesmo que creiam nesta realidade do sepulcro, não crêem na realidade da vida depois dele.
Agora, a melhor ajuda para crer nessa realidade, é o firme assentimento do fato que Jesus morreu e que Jesus ressuscitou. Este fato está demonstrado mais que qualquer outro fato da historia; seu testemunho é mais forte do que qualquer outra coisa que está escrita, seja nos registros profanos ou sagrados. Já que a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeira, podemos estar seguros da existência de outro mundo. Esse é o grande impacto desta grande verdade.
Em segundo lugar, a ressurreição de Cristo dos mortos foi o selo de todas Suas afirmações. Portanto, era certo que foi enviado por Deus, pois Deus o ressuscitou dos mortos em confirmação da Sua missão. Ele mesmo disse: “Destruirei este templo, e em três dias o levantarei” Vejam: o templo de seu corpo foi reconstruído! Ele havia, inclusive, dado este fato como um sinal: quer dizer, da mesma forma o relato de Jonas, preso no ventre de um grande peixe por três dias se três noites, assim estaria o Filho do Homem, no coração da terra três dias e três noites, e logo ressurgiria para a vida outra vez. Considere Seu próprio sinal escolhido, e como foi cumprido. O sinal ficou evidente aos olhos dos homens.
Suponham que não tivesse ressuscitado, nunca. Vocês e eu teríamos podido crer em certa missão que Deus tivesse dado a Jesus; porem, nunca teríamos acreditado na verdade desta missão como afirmava ter recebido, uma comissão de ser nosso Redentor da morte e do inferno. Como Ele poderia ser nosso resgate do sepulcro, se Ele mesmo tivesse permanecido sob o domínio da morte?
Alem, a ressurreição Cristo demonstrou Sua pretensão à Deidade. É-nos informado em outra parte que foi comprovado que era Filho de Deus com poder pela ressurreição dos mortos. Ele ressuscitou por seu próprio poder, e embora o Pai e o Espírito Santo cooperaram com Ele, e por isso, Sua ressurreição é atribuída a ambos. No entanto, foi devido porque o Pai lhe tinha dado o ter vida em si mesmo, que ressuscitou dos mortos.
Sua ressurreição foi a assinatura do Soberano do céu, pois tudo que disse fez, e portanto o terceiro impacto de sua ressurreição e esta e é muito grandiosa a ressurreição de Nosso Senhor,de acordo com as Escrituras Seu sacrifício foi aceito. Através da ressurreição Jesus Cristo foi dado provas de que ele apoiou plenamente a punição devida aos humanos. “A alma que pecar, esta morrera” Essa é a vontade de Deus. Jesus morreu pelo pecador; e quando ele fez isso, ninguém pode exigir mais nada Dele, pois quem está morto está livre da lei.


Imaginem um homem que foi condenado por um crime capital: é condenado á forca, esta e é suspenso pelo pescoço ate morrer; o que a lei tem com ele agora? Já não tem nada com ele, pois a sentença que caia sobre ele já foi executada. Se pudesse ser trago de novo a vida, ele estaria livre do castigo da lei. Nenhum decreto que circulasse pelos domínios de Sua Majestade poderia tocar a ele, pois já sofreu o castigo.
Da mesma forma, quando Nosso Senhor Jesus ressuscitou dos mortos, depois de ter morrido, já tinha pagado totalmente o castigo que devia a justiça pelo pecado de Seu povo, e Sua nova vida era uma vida livre de castigos, livre de responsabilidade. Você e eu estamos livres das reivindicações da lei, porque Jesus esteve em nosso lugar, e Deus não exigirá o pagamento tanto de nós como de nosso Substituto; seria contrário à justiça estabelecer juízo contra a Fiança como também contra aqueles por quem foi representada a fiança. E agora, alegria sobre alegria!! A carga de responsabilidade que uma vez caiu sobre o Substituto é quitada Dele também, vendo que pelo sofrimento da morte, defendeu e honrou justiça e deu satisfação à lei infringida.
Agora, tanto o pecador como o Fiador são livres. Este é motivo de grande alegria, uma alegria pela qual há que fazer com que as harpas de ouro toquem uma sublime melodia. Aquele que assumiu nossa dívida, foi a Si mesmo liberto dela quando morreu na cruz. Sua nova vida, agora que ressuscitou dos mortos, é uma vida livre de qualquer reclame legal, e é sinal para nós de que também somos livres, já que Ele nos representou.
Escutem! “Quem acusará os escolhidos de Deus? É Deus que justifica. Quem nos condenará? Cristo é o que morreu: mais ainda, o que também ressuscitou”. Em si este é um golpe que abate medo até ao chão quando o apostolo diz que não podemos ser condenados porque Cristo morreu em nosso lugar, mas aplica-lhe uma força dobrada quando clama “Mas ainda, também ressuscitou” Portanto, se Satanás se aproximará de qualquer crente e lhe dissera: “que há quanto a seus pecados?”, ele deve responder-lhe que Jesus morreu por ele, e que seu pecado já foi quitado .Se voltar a dizer, “e teus pecados?” , responde a ele,”Jesus vive, e Sua vida é a garantia de nossa justificação; pois se nosso Fiador não tivesse pago a divida, estaria ainda sobre o poder da morte.” Já que Jesus já pagou todas as dividas, e não deixou nenhum centavo pendente frente a justiça de Deus, atribuído a alguém de seu povo, Ele vive e é livre, e nos vivemos Nele, e somos também livres em virtude de nosso união com Ele. Não é esta uma gloriosa doutrina, essa doutrina da ressurreição, em sua repercussão sobre a justificação dos santos? O Senhor Jesus se entregou por nossos pecados, porem ressuscitou para nossa justificação.
Sejam pacientes comigo, enquanto comento, em continuação, outra repercussão, da ressurreição de Cristo. Foi uma garantia da ressurreição de Seu povo. Existe uma grande verdade que não pode ser esquecida nunca, ou seja, que Cristo e seu povo são um só, tal como Adão e toda sua semente são uma. O que Adão fez, o fez como um uma cabeça por um corpo, e como Nosso Senhor Jesus e todos os crentes são um, assim o que Jesus fez, o fez como uma cabeça por um corpo. Fomos crucificados juntos com Cristo, fomos enterrados com Cristo, e temos ressuscitado com Ele. Sim, juntos com Ele nos ressuscitou, e assim mesmo nos fez sentar junto com Cristo Jesus nos lugares celestiais. Ele disse: “Porque eu vivo, vós também viveis.” Se Cristo não ressuscitou dos mortos, sua fé é vã, e nossa pregação é vã, e ainda estão em seus pecado, e os que morreram em Cristo pereceram, e vocês também perecerão. Porem, se Cristo ressuscitou dos mortos, então todo seu povo há de ressuscitar também; é um assunto de necessidade evangélica Não tem lógica mais imperativa que o argumento extraído da união com Cristo. Deus fez os santos um com Cristo, e se Cristo ressuscitou, todos os santos haverão de ressuscitar também.