19 de outubro de 2014

Uma crítica ao cessacionismo



Puritano pentecostal,

quando o óleo e a água se misturam
Uma crítica ao cessacionismo
*(Cessacionismo é a crença que os dons do Espírito Santo, como línguas, profecias e curas divinas cessaram quando morreu o último dos apóstolos).

Há quem diga que a "Fé Reformada" ou “fé tradicional”e a "Fé Pentecostal" são produtos de duas Reformas diferentes, que não há a menor possibilidade de haver algo como um "pentecostal reformado". Teologicamente falando não há mesmo, pois a doutrina pentecostal discorda em muitos pontos da doutrina reformada: são arminianos, dispensacionalistas, pré-milenistas, crêem no batismo no Espírito Santo como um evento distinto e posterior à conversão (se bem que alguns reformados criam assim; como, por exemplo, Rev. A.G Simonton e Dr. Martin Lloyd Jones - alguém dúvida da fé reformada deles?), e crêem que o dom de línguas estáticas é a evidência automática desse batismo.
Isso quer dizer necessariamente que uma pessoa crente na predestinação e no ensino dos Reformadores, mas que prática os dons espirituais, não é de fato um reformado? É impossível, no que tange a prática, existir algo como um "pentecostal reformado", isto é, um reformado não-cessacionista? Minha resposta a essas perguntas, segundo creio tendo como base as Sagradas Letras, é um sonoro: Não!


  
1. O Puritanismo redunda no Não-Cessacionismo

Aqueles que desejam reviver o puritanismo (diga-se, os "neo-puritanos") são aguerridamente cessacionistas. Segundo os mesmos, o único meio de Graça para a Igreja dos presentes dias é a Bíblia, pois tendo cessado a escrita do Novo Testamento (em cerca de 90 d.C, com o Apocalipse de João) cessou-se também os chamados dons extraordinários.

É certo que em grande parte os puritanos também tinham isso como verdadeiro. Seria o cúmulo dizer que os puritanos eram "pentecostais" ou mesmo que praticavam os dons em abundância (apesar de haver algumas histórias muito interessantes). Acredite, eles não eram "pentecostais" e eu também não sou. Porém mesmo a revelia destes, com santo temor, mas pondo antes da Tradição a Escritura, tomando assim posse do elemento essencial do puritanismo, creio que o puritanismo lança bases doutrinárias e eclesiásticas necessárias para a manifestação dos dons espirituais, sendo estes dons uma consequência natural do ideal puritano.




O puritano tinha como grande missão glorificar à Deus, e sabia que a única forma de cumprir essa missão era cumprir todo o conselho de Deus (At 20.27) sem desviar-se para direita nem para a esquerda (Dt 28.14). Baseando-se nas vidas de homens como Neemias, Esdras e Paulo, os puritanos desejavam rejeitar tudo que fosse além  dos mandamentos de Deus. 



O que a Bíblia ordena sobre dons espirituais? "Portanto, procurai com zelo os melhores dons; e eu vos mostrarei um caminho mais excelente (I Co 12.31)" e também diz: "Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar (I Co 14.1)" A Escritura afirma que Jesus Cristo "subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens (Ef 4.8)" e também afirma que "Testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade. (Hb 2.4)" E o que os puritanos alegam? Que a Igreja deve praticar tudo o que as Escrituras ordenam a ela.

Logicamente, isso deveria incluir a busca sincera pelos dons espirituais. 

2. O Puritanismo contradiz o Cessacionismo

Ainda em santo temor, mas honestamente buscando por em prática o ponto fundamental do puritanismo, oSola Scriptura em detrimento da Tradição que a contradiz, afirmo que o puritanismo dá as bases necessárias para a prática dos dons, e que os argumentos cessacionistas contradizem a forma como os puritanos diziam interpretar a Bíblia




Em Marcos 16.15-18 está escrito: "E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: as mãos sobre os enfermos, e os curarão. "Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão." A posição reformada tradicional é que o "ide" é para todo os cristãos. Porém no versículo posterior também diz que estes sinais seguirão aos que crêem, isto é, seguiram a todos os cristãos! Como os cessacionistas pregam um versículo e ignoram o que vem imediatamente em seguida? Também devemos nos questionar: como os cessacionistas podem invocar I Co 14.40: "faça-se tudo com ordem e decência"; e ao mesmo tempo ignorar 1 Co 14.12: "Assim também vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da igreja."?

Sob qual princípio interpretativo os cessacionistas aceitam um versículo e não o outro como algo válido para a Igreja de hoje?
Ao aceitar a eficácia atual de certos versículos e ao negar a eficácia atual de tantos outros, os cessacionistas assumem que há algo acima das Escrituras - um elemento que pode arbitrar o que devemos ou não reconhecer como mandamento de Deus para nós. Eles partem da suposta escassez, ou da total inexistência, de dons carismáticos no meio ortodoxo da Igreja para tentar justificar nas Escrituras o cessacionismo. Utilizam a História da Igreja como medida de fé, em detrimento das Escrituras.

Essa forma de interpretar as Escrituras contradiz claramente a proposta puritana de que a clara declaração da Escritura sobre qualquer assunto é a medida pela qual todas as coisas devem ser medidas, incluindo a História da Igreja e a sua Tradição.

Pensando nesses termos o cessacionismo não me parece tão "Sola Scriptura" quanto pretende ser.


Conclusão
Diante desses fatos e dos mandamentos que as Escrituras expõem diante de mim, nada mais posso fazer do que buscar os dons espirituais em obediência a Deus. Creio piamente que o desejo de seguir os passos dos puritanos, em especial na sua piedade e no seu temor a Deus e aos Seus designos, passa necessariamente pela busca dos dons espirituais. Não preciso apelar ao pentecostalismo, ao neopentecostalismo, ou a qualquer outro vento de doutrina para ter uma experiência sobrenatural; o calvinismo já me dá todas as convicções e recomendações doutrinárias para isso.

Portanto peço a você querido irmão:

Ore em busca dos dons espirituais.



Republicação do texto "Em defesa do Pentecostalismo Reformado",
http://veritasreformata.blogspot.com.br/


No decurso da história do Cristianismo, sempre houve pessoas que buscaram “algo mais” em sua peregrinação espiritual, e que, ocasionalmente, eram levadas a indagar acerca do significado do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais. A erudição recente tem lançado mais luz sobre os movimentos carismáticos, demonstrando que o interesse pela obra do Espírito Santo tem perdurado através da história da Igreja.
Pelo menos dois reavivamentos no século XIX podem ser considerados precursores do moderno pentecostalismo. O primeiro ocorreu na Inglaterra, em torno de 1830, durante o ministério de Edward Irving; o segundo, no extremo sul da índia, por volta de 1860, mediante a influência da teologia dos Irmãos de Plymouth e sob a liderança do leigo indiano J. C. Aroolappen. Documentos contemporâneos a respeito de ambos os movimentos incluíam referências ao falar noutras línguas e à profecia.


As conclusões dessa pesquisa corrigem, em parte, a crença existente em alguns círculos teológicos de que os dons espirituais cessaram na Era Apostólica. Opinião esta, aliás, proposta enfaticamente por Benjamin B. Warfield em Counterfeit Miracles (1918). Warfield argumentava que a autoridade escrita e objetiva das Escrituras, que são inspiradas pelo Espírito Santo, seria inevitavelmente subvertida por aqueles que ensinassem um conceito subjetivo do mesmo Espírito. Nos últimos anos, essa perspectiva vem perdendo terreno nos círculos evangélicos.
Com a chegada do reavivalismo, no fim do século XVII e início do século XVIII, na Europa e na América do Norte, os pregadores calvinistas, luteranos e arminianos passaram a enfatizar o arrependimento e a piedade na vida cristã. Qualquer estudo do Pentecostalismo tem de se ater aos eventos desse período, especialmente à doutrina da perfeição cristã ensinada por João Wesley, o pai do Metodismo, e pelo seu assistente, João Fletcher. A publicação por Wesley de A Short Account of Christian Perfection (1760) conclama seus seguidores a buscarem uma nova dimensão espiritual. Essa segunda obra da graça, posterior à conversão, libertaria os crentes de sua natureza moral imperfeita, que os tem induzido ao comportamento pecaminoso.
Essa doutrina chegou à América do Norte, e inspirou o crescimento do Movimento da Santidade. A ênfase voltada à vida santificada, mas sem mencionar o falar noutras línguas, registrado nas Escrituras (“derramamento do Espírito”, “batismo no Espírito Santo”, “línguas de fogo”), tornou-se “marca registrada” da literatura e hinódia do Movimento da Santidade. Uma das principais líderes da ala metodista do movimento, Phoebe Palmer, editou o Guide to Holiness e escreveu, entre outros livros, The Promise of the Father (1859). Outro escritor popular, William Arthur, escreveu Tongue ofFire (1856), um grande sucesso literário.
Aos que procuravam receber a “segunda bênção” era ensinado que cada cristão precisa “esperar” (Lc 24-49) pela promessa do batismo no Espírito Santo. E, assim, seria quebrado o poder do pecado que domina a pessoa desde o seu nascimento, levando-a a viver cheia do Espírito. Além disso, Joel profetizou que, como resultado do derramamento do Espírito de Deus, “vossos filhos e vossas filhas profetizarão” nos últimos dias (Jl 2.28).
A crença numa segunda obra da graça não ficou confinada ao círculo metodista. Charles G. Finney, por exemplo, acreditava que o batismo no Espírito Santo provesse o revestimento do poder divino para se obter a perfeição cristã. Sua teologia, porém, não se encaixava nem na categoria wesleyana, nem na reformada. Embora a teologia da Reforma haja identificado o batismo no Espírito com a conversão, alguns reavivalistas, dentro dessa tradição, aceitavam o conceito de uma segunda obra da graça para revestir os cristãos do poder do alto. Entre eles se encontravam Dwight L. Moody e R. A. Torrey. Apesar desse revestimento de poder, acreditavam, a santificação mantinha-se em sua obra progressiva. Outro personagem-chave, um ex-presbiteriano, A. B. Simpson, fundador da Aliança Cristã e Missionária, cuja forma de pensar teve grande impacto na formação doutrinária das Assembleias de Deus, enfatizava nitidamente o batismo no Espírito Santo.
Semelhantemente, as conferências em Keswick, na Grã-Bretanha (que tiveram início em 1875), também influenciaram grandemente o Movimento da Santidade na América do Norte. Os conferencistas em Keswick acreditavam que o batismo no Espírito Santo produzia uma vida de contínua vitória (a vida “mais sublime” ou “mais profunda”), caracterizada pela “plenitude do Espírito”. Esta veio a ser a interpretação preferida ao conceito wesleyano, que sustentava que o batismo no Espírito produzia a perfeição cristã.
No século XIX, a ciência médica avançava lentamente e pouca ajuda oferecia aos que se achavam gravemente enfermos. A fé no poder miraculoso de Deus para a cura física era acolhida em alguns círculos. Na Alemanha do século XIX, os ministérios que ressaltavam a oração pelos enfermos (especialmente os de Dorothea Trudel, Johann Cristoph Blumhardt e Otto Stockmayer) chamavam a atenção dos norte-americanos. A teologia da Santidade, com sua crença na purificação instantânea do pecado ou no revestimento de poder do Espírito Santo, produziu um ambiente receptivo aos ensinos da cura imediata através da fé.
Para muitos cristãos, o batismo no Espírito restaura plenamente o relacionamento espiritual que Adão e Eva tinham com Deus no jardim do Éden. De modo significante, a vida mais sublime em Cristo podia, também, inverter os efeitos físicos da queda, capacitando os cristãos a adquirir autoridade sobre as enfermidades do corpo. Os defensores da cura divina, tais como Charles C. Cullis, A. B. Simpson, A. J. Gordon, Carrie Judd Montgomery, Maria B. Woodworth-Etter e John Alexander Dowie, baseavam boa parte dessa crença em Isaías 53.4,5, bem como nas promessas neotestamentárias de cura divina. Posto que Cristo não somente perdoava os pecados, mas também curava as enfermidades, os que viviam pela fé na promessa de Deus (Ex 15.26) já não precisavam de assistência médica.
As características cada vez mais “pentecostais” do movimento da Santidade deixavam seus adeptos dispostos a considerar os dons do Espírito na vida da Igreja.


Embora a maioria deles cresse que o falar noutras línguas tivesse cessado na Igreja primitiva, os demais dons, inclusive a cura miraculosa, estavam à disposição dos cristãos. A partir daí, somente a incredulidade poderia impedir fosse a Igreja do Novo Testamento restabelecida em santidade e poder.