13 de abril de 2013

A HISTÓRIA DOS VALDENSES - J.A.Wylie


A HISTÓRIA DOS VALDENSES
Por J. A. Wylie (1808-1890)
London: Cassell and Company, 1860

CAPÍTULO 2

Os valdenses, suas missões e martírios

Seu Sínodo e Faculdade – Seus Dogmas Teológicos – A sua versão do Novo Testamento – A Constituição da sua Igreja – Seus Trabalhos Missionários – A grande difusão de suas doutrinas

 



– Os valdenses do norte da Itália foram um povo remanescente da era apostólica e a prova disso, além deles não terem sido alcançados pelo catolicismo, eram ferozes combatentes das heresias romanas, além disso, somente com a bíblia conseguiram confeccionar um conjunto de doutrinas, dignos de admiração, conforme um livro antigo valdense chamado Nobla Leycon pode testificar

Eles criam:

-Na morte expiatória e a justificação de Cristo foi a sua verdade cardeal.

 -Na doutrina da Trindade

- A queda do homem, a encarnação do Filho

- Na autoridade perpétua do Decálogo como dado por Deus

- Na necessidade da graça divina para praticar boas obras, a necessidade de santidade, a instituição do ministério, a ressurreição do corpo e a bem-aventurança eterna do céu.


 A irrepreensibilidade dos valdenses se tornou um provérbio, de modo que se alguém que normalmente fosse isento de vícios do seu tempo era como a certeza de ser suspeito de ser um Vaudes. [O Nobla Leycon) tem a seguinte passagem: - "Se há um homem honesto, que deseja amar a Deus e reverenciar Jesus Cristo, que não faça calúnia, nem jure, nem minta, nem comete adultério, nem mata, nem rouba, nem se vinga de seus inimigos, eles num instante dizem que ele é um Vaudes e digno de morte"].



 As acusações contra os valdenses incluíram uma lista formidável de "heresias". Eles sustentavam que não houve verdadeiro Papa desde o dia de Silvestre; que os ofícios temporais e dignidades não são encontrados entre os pregadores do Evangelho, que as indulgências do papa eram uma fraude, que o purgatório era uma fábula; relíquias eram simplesmente ossos podres que haviam pertencido a não se sabia quem; que ir em peregrinação não servia para nada, senão para esvaziar as economias, que a carne podia ser consumida em qualquer dia, se o apetite lhe conviesse; que água benta não foi nem um pouco mais eficaz que a água da chuva; e que a oração em um celeiro era tão eficaz como se oferecida em uma igreja. Eles foram acusados, por outro lado, de zombar da doutrina da transubstanciação, e de ter falado de forma blasfema de Roma como a prostituta do Apocalipse. [Veja uma lista de várias heresias e blasfêmias sobre os valdenses pelo Inquisidor Reynerius, que escreveu por volta do ano 1250, e extraído por Allix (cap. 22).]



A Igreja dos Alpes, na simplicidade de sua constituição, pode ser considerada como tendo sido um reflexo da Igreja dos primeiros séculos. Todo o território incluído nos limites valdenses foi dividido em distritos. Em cada distrito foi colocado um pastor, que conduzia o seu rebanho para a água viva da Palavra de Deus. Ele pregava, dispensava as ordenanças, visitava os enfermos e catequizava os jovens. O sínodo se reunia uma vez por ano. Era composto por todos os pastores, com igual número de leigos, e seu lugar de reunião mais frequente foi o vale da montanha isolada na cabeça de Angrogna. Às vezes até cento e cinqüenta pastores, com o mesmo número de membros leigos, compareciam. Podemos imaginá-los sentados, pondo-se nas encostas do vale gramíneo - a venerável companhia de humildes, instruídos, sérios homens, presidida por um simples moderador (o cargo ou a autoridade era desconhecida entre eles), e suspendendo suas deliberações e respeitando os assuntos de suas igrejas e a condição de seus rebanhos, apenas para oferecer suas orações e louvores ao Eterno, enquanto a neve dos majestosos picos olhava de cima para eles desde o firmamento silencioso. Não havia necessidade, na verdade, de um santuário magnífico, nem de ostentação de rituais místicos para fazer a sua augusta assembléia.




O jovem que aqui sentava aos pés dos mais veneráveis aprendeu de seus pastores usando como livro-texto as Sagradas Escrituras. E não só estudavam o volume sagrado, pois eles eram obrigados a memorizá-lo e serem capazes de recitar todos os Evangelhos e Epístolas. Esta foi uma realização necessária por parte dos instrutores nessas épocas quando a impressão de cópias era desconhecida, e cópias da Palavra de Deus eram raras. Parte do seu tempo foi ocupado em transcrever as Sagradas Escrituras, ou parte delas, para distribuir, quando saíam como missionários. Por esta e por outras agências, as sementes do Verbo Divino se espalhou por toda a Europa mais amplamente do que se costuma supor. Para isto, uma variedade de causas contribuíram. Houve uma impressão geral de que o mundo estava prestes a terminar.






 Os padres raramente enfrentavam os argumentos dos missionários valdenses.


Manter a verdade em suas próprias montanhas não era o único objeto desse povo. Eles tinham relações com o resto da cristandade. Tinham o desejo de conduzir as pessoas para fora da escuridão, e voltar a conquistar o reino que Roma tinha dominado. Eles eram evangelistas, assim como uma igreja evangélica. Era uma velha lei entre eles que todos os que fossem ordenados em sua Igreja deviam, antes de ser elegível para um cargo na sua igreja, servir três anos no campo missionário. Os jovens em cujas cabeças os pastores impunham as mãos não se viam em perspectiva de um rico benefício, mas de um possível martírio. Seu campo de missão eram os reinos que estavam espalhados aos pés de suas próprias montanhas. Saíam dois a dois, ocultando seu caráter real sob o disfarce de uma profissão secular, comumente como comerciantes e feirantes. Levavam sedas, jóias e outros artigos, que nesse tempo não era facilmente compráveis em mercados distantes, e eram bem recebidos como negociantes onde teriam sido repelidos como missionários. A porta da casa de campo e no portal do castelo do barão ficava igualmente aberta a eles. Mas o seu discurso era mostrado principalmente na venda, sem dinheiro e sem preço, a mercadoria mais rara e mais valiosa do que as jóias e sedas, que havia conseguido a entrada deles. Eles tiveram o cuidado de levar consigo, escondido entre os seus produtos ou sobre as suas roupas, porções da Palavra de Deus, comumente a sua própria transcrição, e para isso chamavam a atenção dos moradores. Quando viam o desejo de possuí-la, eles livremente faziam uma doação quando os meios de compra estavam ausentes.


Não houve reino do sul e Europa Central que esses missionários não entraram, e onde não deixaram vestígios de sua visita nos discípulos que fizeram. No oeste, penetraram na Espanha. No sul da França encontraram companheiros congênitos – os Albigenses, pelo quais as sementes de verdade foram abundantemente espalhadas sobre Dauphine e Languedoc. No leste, descendo o Reno e o Danúbio, eles influenciaram Alemanha, Boêmia e Polônia, com suas doutrinas, sua trilha sendo marcada com os edifícios de culto e as estacas de martírio que surgiram em torno de seus passos. Mesmo na cidade das sete colinas que não tinham medo de entrar, espalharam as sementes no solo desagradável, para ver se por ventura algumas viessem a enraizar-se e crescer. Seus pés descalços e trajados com roupas de lã grossa os tornaram figuras marcadas, nas ruas de uma cidade que se vestia de púrpura e linho fino, e quando a sua real incumbência foi descoberta, às vezes por acaso, os governantes da cristandade tiveram mais cuidado, em seu próprio caminho, pela eclosão da semente, regando-a com o sangue dos homens que haviam o semeado [McCrie, Hist. Ref. na Itália, p. 4].

Assim a Bíblia naqueles tempos, velando a sua majestade e missão, viajando em silêncio através da cristandade, entrando em casas e corações, fazia ali a sua morada. De sua imponente sede, Roma olhou com desdém sobre o livro e os seus portadores humildes O olhar penetrante de Inocêncio III detectou o perigo que estava a surgir. Ele viu nos trabalhos desses homens humildes o início de um movimento que, se autorizadas a continuar ganhando força, varreria para longe tudo o que eles tinham tomado à custa de laboriosas intrigas por séculos para conseguir. Ele imediatamente começou as terríveis cruzadas, que destruiu os semeadores, mas regou a semente, e ajudou a trazer na sua hora marcada, o ressurgimento da igreja apostólica, com a reforma de Lutero, da qual os Valdenses foram precursores.


Fonte: www.discernimentobiblico.net/valdenses%20cap2.html